Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & CRISE POLÍTICA

Jefferson e o gás do medo

Por Camila Bini em 12/07/2005 na edição 337

Que me desculpem os colegas jornalistas, mas eu acho que toda a imprensa está míope. O eixo das investigações sobre o mensalão, as malas de dinheiro e a cooptação de políticos está errado. Esqueçam de tudo que foi escrito até agora sobre a crise política. Eu descobri.

Bastou-me um pouco de sensibilidade e percepção alterada para enxergar a verdade verdadeira: Roberto Jefferson é apenas uma identidade secreta de Dr. Crane, um dos psiquiatras de plantão do Asilo Arkham, notório por suas experiências tóxicas com criminosos. Ainda não sei ao certo porque Crane largou de Gotham City pra descambar em Brasília – será que a concorrência com Batman o fez procurar outro nicho de mercado? – mas que ele é Jefferson, isso é.

Um monte de veneninho

Basta reparar em alguns detalhes, que de repente passaram ilesos pelos olhos sempre abertos da imprensa. Jefferson, assim como Dr. Crane, conhece a escória da humanidade. O deputado federal do PTB foi por muito tempo advogado criminalista, e no Rio de Janeiro – vejam só! Defendeu, acusou, inocentou e ajudou a prender vários marginais, assim como Dr. Crane tem feito ao dar seus pareceres médicos em julgamentos de criminosos de Gotham City.

Jefferson e Crane são metrossexuais. Apesar do look de professor universitário, Crane sempre se apresenta com distinção, óculos no lugar, a gravata sempre em equilíbrio com o terno, e os sapatos nunca sem graxa. Já o deputado do PTB não titubeia ao trajar gravata roxa e não esconde de ninguém a cirurgia de redução do estômago que fez há alguns anos.

Mas a pista mais importante, a crucial, é o uso do gás do medo. A diferença é que Dr. Crane, antes de virar o Espantalho, usa máscara, coisa e tal, e Jefferson não precisa dessas artimanhas tão típicas de cidadãos de Gotham… Basta que o deputado abra a boca que, em vez de soltar a voz, pura e límpida como a de um cantor de ópera, sai um monte de veneninho em forma gasosa… Imperceptível às lentes das câmeras, invisível a olho nu.

A capa do Batman

Só assim se explica que uma fonte tão cheia de acusações sobre si ganhe status de oráculo infalível perante a opinião pública. Basta Jefferson movimentar os músculos maxilares para que todos nós nos arrepiemos de medo de sermos também desonestos e corruptos. Que ele fale verdades não duvido, assim como Dr. Crane sempre tinha lá sua veracidade em seus diagnósticos psiquiátricos.

O conteúdo tóxico do gás do medo usado por Jefferson é tão forte que inebria a todos nós. Ao contrário de Crane, não chegamos a ficar apavorados e a ter alucinações. Ficamos à mercê de uma nova dose de acusações, de denúncias, e por momentos chegamos a desligar a TV se o noticiário não traz novas vítimas. É fato: nos viciamos em Jefferson e seu gás do medo. Estamos todos à espera de mais uma declaração, de mais uma dose.

Só nos perguntamos, eu e a menina inocente que me habita, quem é que vai vestir a capa do Batman e ajudar o comissário Gordon a limpar as ruas da nossa cidade…

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Jornalista em Cuiabá

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