Domingo, 20 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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IMPRENSA EM QUESTãO > A crise do jornalismo político

Jornais e TV priorizam políticos em vez do cidadão

Por Jonathan Stray em 22/12/2015 na edição 882
Publicado originalmente na plataforma Medium (3011/2015) e reproduzido com permissão do autor.

Se você costuma achar que a cobertura política nada tem a ver com você, você não é o único. Durante muitos anos, achei que havia algo fundamentalmente errado na forma pela qual os jornalistas abordam a política. Outras pessoas lamentam que uma cobertura de eleições como se fosse uma corridas de cavalos não é imaginativa e é superficial, que um número excessivo de jornalistas se tornou obcecado em provar que é bem informado e que é ridículo enviar 15 mil repórteres a uma convenção que vai decidir quais serão os candidatos, um evento que será transmitida ao vivo.

Todas estas críticas são importantes, mas a minha reclamação é mais fundamental: a maioria das coberturas políticas é sobre políticos, e não sobre as coisas com que me preocupo e com as medidas que eu poderia vir a tomar.

“Política” não significa políticos, nem governo. O governo é um dos lugares em que ocorre a política, com certeza. Mas a política é muito mais do que isso: é o conjunto de maneiras pelas quais as pessoas se juntam para exercer o poder coletivamente. O jornalismo político poderia imaginar a audiência como um conjunto de agentes, pessoas que agem. O jornalismo político poderia ser um verdadeiro fator de empoderamento político dos cidadãos, se partisse das preocupações das pessoas a quem supostamente serve, e não transformasse eleições em espetáculos.

Não sou o primeiro a perceber que aqueles que cresceram com a internet se sentem desconectados da política “clássica”, que tem por foco o governo e as eleições. Nos Estados Unidos, o número de votantes é atualmente mais baixo do que nunca. Há um cinismo cansativo aqui, mas eu recuso a ideia de que nos tornamos apáticos: Pelo mundo afora, os jovens acreditam, com sinceridade, que podem mudar suas comunidades e o mundo. E eles simplesmente sabem que não é através do voto que ocorre a maioria das transformações sociais.

Considerem, por exemplo, o desenvolvimento da luta pelos direitos de casamento de homossexuais. Os organizadores tinham uma estratégia explícita de lutar nos tribunais estaduais. Na política, nada é garantido, mas a vitória em última instância não foi um acidente. Foi o trabalho de uma ampla coalizão, estado por estado. Esse incentivo pode ter recebido cobertura de jornalistas, mas não foi uma cobertura “política” até chegar aos tribunais, ou ter aparecido numa cédula de votação ou ter sido mencionado por um político. No entanto, nem os tribunais, nem os legisladores são importantes neste caso. O importante é a infraestrutura, as instituições, as arenas em que se desenrolam determinadas lutas.

A imprensa política não tem ideias novas

Quero que o jornalismo político me ajude a compreender melhor como posso mudar o mundo a meu gosto, agindo com outras pessoas que querem a mesma coisa. Quero que a mudança tenha a ver comigo e com minha comunidade, com nossas aspirações e o que podemos fazer para realizá-las.

Isto poderia ser qualquer coisa: desde varrer o parque a organizar uma campanha nacional pela reforma tributária. Existem muitos públicos diferentes – que se podem ter juntado por temas, ou pela geografia ou por redes – e muitos sonhos coletivos. A agência internacional de desenvolvimento Oxfam elaborou uma lista exaustiva das maneiras pelas quais se dão as mudanças sociais – e a política eleitoral é apenas uma delas.

Não estou sugerindo que os jornalistas ignorem governos e eleições. Os jornalistas irão dizer que esperam poder informar os eleitores e é por isso que passam tanto tempo fazendo a cobertura dos candidatos. O voto é, evidentemente, um ato político, mas é um entre muitos e outros atos cívicos merecem muito mais atenção do que aquela que lhes é dada.

Nós transformamos o voto num fetiche; ficamos obcecados pelo número de eleitores votantes e tornamos atraente a ideia de um “eleitor bem informado”. Eu nem mesmo estou convencido de que o jornalismo baseado em matérias clássicas contribua assim tanto para decidir como votar. Minha esperança é maior na ideia de apps de recomendação de voto, experiências interativas projetadas para educar os eleitores e ajudá-los a escolher. Porém, de qualquer maneira, num sistema bipartidário o seu voto apenas contribui com um mínimo de informação! A resposta é outra, com certeza.

Aquilo em que se está votando é pelo menos tão importante quanto o voto propriamente dito. Portanto, a cobertura política poderia abranger as maneiras pelas quais o governo, a mídia, os cidadãos e as grandes corporações interagem para determinar essa pauta. Mas mesmo isso é desnecessariamente estreito. Inúmeras coisas políticas de importância maior estão para além do alcance do voto.

Às vezes, é uma empresa ou uma indústria que deve mudar; ninguém nega que o setor privado tem enorme influência sobre a sociedade. Se você está combate preconceitos ou comportamentos muito disseminados na sociedade, então, quem você deve convencer para sua luta são os seus vizinhos, amigos, colegas e parentes. Ou, às vezes, a luta ainda se dá no governo, nos tribunais, ou nos órgãos reguladores, mas longe da máquina democrática do Congresso. A política funciona em redes complexas e “o governo” é dividido em partes.

Apesar disto, a imprensa política não tem ideias novas. Numa recente conferência sobre a cobertura de campanhas, havia “um vácuo absoluto de discussão no que se referia aos objetivos definitivos da cobertura de campanha”, segundo o professor e crítico de mídia Jay Rosen. Quando se pergunta aos jornalistas políticos qual o objetivo de seu trabalho, em geral recebemos respostas frágeis e essencialmente esquivas, como “encontrar as matérias que são importantes”. Bem, minha resposta é esta: o jornalismo político deveria ser de empoderamento político. O resto é entretenimento.

Os filhos da web

Como sempre, para seguir em frente, o foco são os usuários. Gostaria de ver o jornalismo político começando a partir das aspirações políticas de seus leitores. Você está preocupado com o aumento dos aluguéis? O que poderia ser feito e quem teria que fazê-lo? Poderia ser um vereador, que precisaria ser convencido; ou poderia ser um desenvolvedor importante, ou a situação poderia ser muito mais complexa. Você acha que deveria aumentar a licença maternidade/paternidade dos norte-americanos? Talvez você comece por pensar em termos de lei, mas talvez fosse mais eficaz testar a ideia junto a algumas grandes empresas. Os candidatos e os políticos só entram na história quando aqueles que lutam por algo veem a necessidade de envolvê-los. Talvez a política nem tenha nada a ver com as instituições democráticas – o movimento Tea Party (de extrema-direita) acabou conseguindo eleger alguns candidatos, mas o movimento Occupy Wall Street quase nem tentou, apesar de ter sido bem-sucedido em influenciar a pauta política de 2016.

Houve uma grande guinada no significado de cidadão engajado e a imprensa política tem que acompanhá-la para continuar sendo relevante. A natureza aberta da internet dá-nos a impressão de que deveríamos ser ouvidos. Paul Ford disse que a pergunta fundamental da web é “Por que é que não fui consultado?” Toda a internet – da Wikipedia ao Linus e ao Facebook – nos ensinou que podemos pular para qualquer lugar e fazer parte de alguma coisa.

Eu fiz parte da primeira geração que cresceu mergulhada nessa possibilidade e quando comecei a fazer perguntas de cunho político, lembro-me ter descoberto que as gerações mais velhas tinham uma opinião muito diferente em relação a como a política deveria funcionar. Às vezes, a discrepância em relação era chocante: é óbvio , para mim, que os parlamentares do Congresso deveriam prestar atenção aos meus tweets, certo? Como poderiam eles ignorar um canal onde milhões de cidadãos normalmente expressam suas opiniões?

Os cidadãos de hoje esperam que sua política seja participativa. Pense, por um minuto, no que você poderia fazer se não estivesse lendo notícias políticas e depois pense se as notícias políticas o ajudam a fazê-lo.

E pense nas outras mídias que você usa politicamente. Atualmente, a política é inconcebível sem redes sociais como o Facebook. Mas há outras plataformas, como Change.org e Brigade, que entendem que política significa ajudar grupos de pessoas a fazer determinadas coisas, muitas vezes no plano local. Não se deixe enganar. O que essas start-ups querem vender é influência política – tanto para seus usuários quanto para seus anunciantes.

Essas organizações não se atormentam em ser desinteressadas; em vez disso, ficam perfeitamente felizes acolhendo todos os que chegam, inclusive grupos que têm opiniões opostas acerca de como as coisas deveriam ser. Esses esforços contam com financiamentos e têm projetos de negócios plausíveis – e um deles poderá ter êxito e tornar-se um site importante de ação política.

Esses tipos de plataforma poderão acabar tornando-se simbióticos em relação ao jornalismo político – bastante próximo ao esquema pelo qual o Facebook se aproximou da mídia nos últimos anos. E, se tivermos sorte, tudo isso tornará mais fácil a vida daqueles que querem saber como agir a respeito das coisas com que se preocupam. Mas para que isso funcione, a cobertura tem que ser granular, com foco em oportunidades concretas onde a sua participação pode levar à mudança. Não, o seu aplicativo não irá “consertar a democracia”.

A ação política é muito mais ampla do que votar e a política é muito mais do que os políticos e o governo. É essencial uma fonte de informação política que ajude a compreender o panorama político, que aperfeiçoe seus objetivos e sua estratégia, que estabeleça uma conexão com pessoas com ideias afins e, em última instância, que seja bem-sucedida no que você entende por política. Tudo o mais é fofoca. Há um manifesto do século 21 da Polônia que sintetiza essa aspiração, ao propor uma abordagem politica tipo “faça você mesmo”. Chama-se Nós, os filhos da web e termina da seguinte maneira:

“Nós não sentimos um respeito religioso pelas ‘instituições da democracia’ da forma que atualmente existem; nós não acreditamos em seu papel axiomático, como o fazem aqueles que veem as ‘instituições da democracia’ como um monumento em si e para si próprias. Nós não precisamos de monumentos. Nós precisamos de um sistema que corresponda às nossas expectativas, um sistema transparente e competente. E nós aprendemos que uma mudança é possível: que todos os sistemas intoleráveis podem e são substituídos por um novo, mais eficiente, mais adequado às nossas necessidades, proporcionando mais oportunidades.”

***

Jonathan Stray, participa do projeto jornalístico Thoughts on Media, integrado à plataforma Medium.

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