Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Jornais na horizontal deixaram cair a verticalização

Por Alberto Dines em 30/01/2006 na edição 366

Redações preguiçosas e bocejantes, em clima de férias, não perceberam que os deputados voltaram aguerridos do descanso, dispostos a liberar as coligações para as próximas eleições. O baixo e o alto clero, grandes partidos e legendas nanicas de aluguel, oposição e situação – a começar pelo presidente da República e demais candidatos – todos estavam interessados em derrubar a verticalização.


Mas a quem compete defender os reais interesses da sociedade contra a matreirice dos políticos? Onde deve se abrigar a consciência crítica da nação senão nos veículos jornalísticos? Evidenciou-se mais uma vez que a imprensa, apesar da estridência dos últimos meses, ainda não percebeu sua verdadeira vocação e capitula diante das jogadas da classe política. Tem medo de contraditá-la: precisa dela, está a seu serviço.


Compreende-se que jornalistas, individualmente, esforcem-se para não perder suas fontes, mas à imprensa, como instituição moral e política, cabia resistir à avassaladora pressão para aprovar o Projeto de Emenda Constitucional que acaba com a unificação vertical das coligações eleitorais, oficializa o vale-tudo e incentiva a promiscuidade.


Indolência tropical


A prova do descaso jornalístico está nas edições de quarta e quinta-feira (25 e 26/1). No dia da votação, nenhum dos grandes jornais, exceto a Folha de S.Paulo, deu-se ao trabalho de chamar a atenção na primeira página para a importância do que seria votado naquele dia na Câmara Federal. O mesmo aconteceu nas páginas de opinião: a Folha foi novamente exceção, mas o teor do seu editorial, rigorosamente apático e indiferente à gravidade da matéria, só reforça a impressão de que os representantes do povo e a voz do povo aliavam-se contra os interesses do povo.


Despertados por uma votação que dificilmente será revertida no segundo turno, jornais e jornalistas então caíram em si. E no dia seguinte saíram a berrar em manchete contra aquilo que o silêncio do dia anterior ajudou decisivamente a materializar.


Naquele momento saíram da sombra as Cassandras com seus arrazoados pretensamente racionais e realistas para justificar ou resignar-se a um retrocesso que só poderá ser reparado através de crises políticas mais dramáticas e mais intensas do que esta.


Horizontalizada nesta siesta interminável, a imprensa não teve condições de enxergar a necessidade de manter a verticalização. No momento em que só ela poderia acionar os alarmes, desistiu e entregou-se à indolência do mormaço. Talvez tenha feito uma opção estratégica: melhor uma legislação eleitoral que multiplicará os escândalos do que um sistema capaz de evitá-los. Há gosto para tudo.


***




Democracia em cena


A.D.


Copyright Último Segundo, 27/1/2006


O Hamas palestino só acreditava na violência e conquistou o poder pelo voto. Evo Morales, socialista, antiimperialista, anticapitalista e, mesmo sem gravata, recebeu a frondosa faixa presidencial boliviana graças à arma elementar da decadente democracia burguesa – eleições livres.


Empurrado pela força do debate franco e aberto, o Fórum Social Mundial em Caracas volta-se contra seu mecenas, o presidente Hugo Chávez e o populismo das esquerdas latino-americanas. Na Montanha Mágica, em Davos, quem desbanca o totalitário tigre chinês é a Índia, herdeira de Ghandi, a maior democracia do mundo.


Qual a nossa parte neste inesperado festival democrático armado pelos caprichos da história? Pífio, vexatório. O voto da Câmara dos Deputados pelo fim da verticalização das alianças partidárias e a favor do vale-tudo eleitoral foi um desastre. E, como os piores desastres, insidioso, quase invisível. Porém metastático.


A aprovação em primeiro turno da emenda constitucional que libera e consagra a promiscuidade partidária não aconteceu por acaso, não foi um cochilo da Mesa ou das lideranças políticas. Foi uma conspiração maturada em silêncio, engendrada pelo que de pior existe na política brasileira – caciques nacionais, coronéis regionais, a fauna das legendas de aluguel e o oportunismo dos grandes partidos. Não escapa ninguém – do presidente da República aos deputados petistas que novamente traíram suas convicções, dos emplumados tucanos que se agarraram à verticalização em 2002 e agora a abandonam sem qualquer escrúpulo, dos peemedebistas ‘autênticos’ aos de araque.


Sã consciência


O fim da verticalização contradiz tudo o que aprendemos nos últimos 50 anos a respeito da dinâmica ou, se preferirem, da imanência do aperfeiçoamento democrático. A melhoria da democracia através da própria democracia era um elemento fundamental de uma equação que vem sendo intensamente discutida desde o fim do século 18.


Na quarta-feira (25/1), desassombrados, mostramos ao mundo que uma democracia pode se autodestruir. Degenerar por livre e espontânea vontade. Atear fogo às vestes. Suicidar-se. Cheios de orgulho, mostramos ao mundo que o vergonhoso segundo semestre de 2005 não foi entendido nem digerido. Na verdade ele não aconteceu, foi uma miragem.


Nossos deputados mostraram que precisamos de novos valeriodutos, mais Caixa Dois, outros trambiques, cuecas dolarizadas e malas com dinheiro vivo.


Quando candidato, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que havia 300 picaretas na Câmara, mas na quarta-feira este número pareceu estranhamente inflado para 343. Pragmático, o futuro presidente do TSE, ministro Marco Aurélio de Mello, antecipa o seu voto e declara válido o fim da verticalização porque esta foi a posição adotada em 1998. Confessa em sã consciência que, ao invés de avançar, regredimos.


Centelha, fagulha


A emenda constitucional aprovada em primeiro turno (com chances mínimas de ser derrotada no segundo turno) é um grosseiro remendo, indelével, desses que a mais hábil cerzideira jamais conseguirá disfarçar. Bono Vox, de óculos cor de rosa, disse em Davos que ‘o Brasil é a extremidade sexy do catolicismo’. Não poderia oferecer um diagnóstico mais arrasador.


A surpreendente vitória eleitoral do Hamas nos territórios palestinos pode, paradoxalmente, representar o fim do terrorismo como arma política – o voto foi mais eficaz do que o assassinato em massa. O triunfo de Evo Morales pode mostrar que não adianta convocar uma ex-empregada doméstica para o ministério da Justiça se não houver uma virada efetiva na mentalidade de uma nação condenada injustamente ao isolamento.


A democracia é, antes de tudo, um encontro com a verdade. Impulso, centelha, fagulha. Ou estalo de espelho partido.

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