Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > RECESSOS DESENCONTRADOS

Jornais na horizontal deixaram cair a verticalização

Por Alberto Dines em 30/01/2006 na edição 366

Redações preguiçosas e bocejantes, em clima de férias, não perceberam que os deputados voltaram aguerridos do descanso, dispostos a liberar as coligações para as próximas eleições. O baixo e o alto clero, grandes partidos e legendas nanicas de aluguel, oposição e situação – a começar pelo presidente da República e demais candidatos – todos estavam interessados em derrubar a verticalização.


Mas a quem compete defender os reais interesses da sociedade contra a matreirice dos políticos? Onde deve se abrigar a consciência crítica da nação senão nos veículos jornalísticos? Evidenciou-se mais uma vez que a imprensa, apesar da estridência dos últimos meses, ainda não percebeu sua verdadeira vocação e capitula diante das jogadas da classe política. Tem medo de contraditá-la: precisa dela, está a seu serviço.


Compreende-se que jornalistas, individualmente, esforcem-se para não perder suas fontes, mas à imprensa, como instituição moral e política, cabia resistir à avassaladora pressão para aprovar o Projeto de Emenda Constitucional que acaba com a unificação vertical das coligações eleitorais, oficializa o vale-tudo e incentiva a promiscuidade.


Indolência tropical


A prova do descaso jornalístico está nas edições de quarta e quinta-feira (25 e 26/1). No dia da votação, nenhum dos grandes jornais, exceto a Folha de S.Paulo, deu-se ao trabalho de chamar a atenção na primeira página para a importância do que seria votado naquele dia na Câmara Federal. O mesmo aconteceu nas páginas de opinião: a Folha foi novamente exceção, mas o teor do seu editorial, rigorosamente apático e indiferente à gravidade da matéria, só reforça a impressão de que os representantes do povo e a voz do povo aliavam-se contra os interesses do povo.


Despertados por uma votação que dificilmente será revertida no segundo turno, jornais e jornalistas então caíram em si. E no dia seguinte saíram a berrar em manchete contra aquilo que o silêncio do dia anterior ajudou decisivamente a materializar.


Naquele momento saíram da sombra as Cassandras com seus arrazoados pretensamente racionais e realistas para justificar ou resignar-se a um retrocesso que só poderá ser reparado através de crises políticas mais dramáticas e mais intensas do que esta.


Horizontalizada nesta siesta interminável, a imprensa não teve condições de enxergar a necessidade de manter a verticalização. No momento em que só ela poderia acionar os alarmes, desistiu e entregou-se à indolência do mormaço. Talvez tenha feito uma opção estratégica: melhor uma legislação eleitoral que multiplicará os escândalos do que um sistema capaz de evitá-los. Há gosto para tudo.


***




Democracia em cena


A.D.


Copyright Último Segundo, 27/1/2006


O Hamas palestino só acreditava na violência e conquistou o poder pelo voto. Evo Morales, socialista, antiimperialista, anticapitalista e, mesmo sem gravata, recebeu a frondosa faixa presidencial boliviana graças à arma elementar da decadente democracia burguesa – eleições livres.


Empurrado pela força do debate franco e aberto, o Fórum Social Mundial em Caracas volta-se contra seu mecenas, o presidente Hugo Chávez e o populismo das esquerdas latino-americanas. Na Montanha Mágica, em Davos, quem desbanca o totalitário tigre chinês é a Índia, herdeira de Ghandi, a maior democracia do mundo.


Qual a nossa parte neste inesperado festival democrático armado pelos caprichos da história? Pífio, vexatório. O voto da Câmara dos Deputados pelo fim da verticalização das alianças partidárias e a favor do vale-tudo eleitoral foi um desastre. E, como os piores desastres, insidioso, quase invisível. Porém metastático.


A aprovação em primeiro turno da emenda constitucional que libera e consagra a promiscuidade partidária não aconteceu por acaso, não foi um cochilo da Mesa ou das lideranças políticas. Foi uma conspiração maturada em silêncio, engendrada pelo que de pior existe na política brasileira – caciques nacionais, coronéis regionais, a fauna das legendas de aluguel e o oportunismo dos grandes partidos. Não escapa ninguém – do presidente da República aos deputados petistas que novamente traíram suas convicções, dos emplumados tucanos que se agarraram à verticalização em 2002 e agora a abandonam sem qualquer escrúpulo, dos peemedebistas ‘autênticos’ aos de araque.


Sã consciência


O fim da verticalização contradiz tudo o que aprendemos nos últimos 50 anos a respeito da dinâmica ou, se preferirem, da imanência do aperfeiçoamento democrático. A melhoria da democracia através da própria democracia era um elemento fundamental de uma equação que vem sendo intensamente discutida desde o fim do século 18.


Na quarta-feira (25/1), desassombrados, mostramos ao mundo que uma democracia pode se autodestruir. Degenerar por livre e espontânea vontade. Atear fogo às vestes. Suicidar-se. Cheios de orgulho, mostramos ao mundo que o vergonhoso segundo semestre de 2005 não foi entendido nem digerido. Na verdade ele não aconteceu, foi uma miragem.


Nossos deputados mostraram que precisamos de novos valeriodutos, mais Caixa Dois, outros trambiques, cuecas dolarizadas e malas com dinheiro vivo.


Quando candidato, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que havia 300 picaretas na Câmara, mas na quarta-feira este número pareceu estranhamente inflado para 343. Pragmático, o futuro presidente do TSE, ministro Marco Aurélio de Mello, antecipa o seu voto e declara válido o fim da verticalização porque esta foi a posição adotada em 1998. Confessa em sã consciência que, ao invés de avançar, regredimos.


Centelha, fagulha


A emenda constitucional aprovada em primeiro turno (com chances mínimas de ser derrotada no segundo turno) é um grosseiro remendo, indelével, desses que a mais hábil cerzideira jamais conseguirá disfarçar. Bono Vox, de óculos cor de rosa, disse em Davos que ‘o Brasil é a extremidade sexy do catolicismo’. Não poderia oferecer um diagnóstico mais arrasador.


A surpreendente vitória eleitoral do Hamas nos territórios palestinos pode, paradoxalmente, representar o fim do terrorismo como arma política – o voto foi mais eficaz do que o assassinato em massa. O triunfo de Evo Morales pode mostrar que não adianta convocar uma ex-empregada doméstica para o ministério da Justiça se não houver uma virada efetiva na mentalidade de uma nação condenada injustamente ao isolamento.


A democracia é, antes de tudo, um encontro com a verdade. Impulso, centelha, fagulha. Ou estalo de espelho partido.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/01/2008 edson contar

    Caro Dines,

    Preocupado com a indiferença de pessoas quanto a leitura de jornais e,cada vez mais, a preferência do público por programas televisivos de baixa qualidade, andei fazendo uma pesquisa tentando entender o motivo de tal fato, já que fala-se muito na inclusão de leitura de jornais nas escolas públicas numa tentativa de atrair os jovens pra o hábito da leitura.
    Pasme ! A grande maioria deixou claro que não entendia a linguagem que os jornalistas usam para passar as notícias ou comentários.
    Em segundo lugar, aquilo que eu sempre achei ser a razão de tal indiferença- o custo dos jornais e revistas-.
    Atento a tais afirmações, passei a observar que, realmente, muitos colegas, tentando parecer eruditos, usam e abusam de termos que fogem ao conhecimento do grande público,ao passo que a TV soma palavras e imagens facilitando o entendimento dos menos esclarecidos.
    Considre-se aí o que se refere a noticiários.
    Sei que posso parecer primário nas observações mas, gostaria que você avaliasse o tema a escrevesse algo a respeito.
    Grande abraço
    Edson C.Contar

  2. Comentou em 03/02/2006 Ribamar Santarosa

    O artigo apresenta uma observação importante sobre um papel da imprensa
    dentro do contexto político, de denunciadora. Parece-me que
    havia dois pontos a serem defendidos no artigo:

    1) A verticalização deveria ser mantida pela sua importância;
    2) A imprensa deveria ter sido mais atenta com este evento.

    Talvez sendo o Observatório da Imprensa um veículo para a Imprensa se
    autocriticar, não era de se esperar um artigo cujo conteúdo se
    limitasse a apenas 1). No entanto, para que a cobertura do evento pela
    imprensa fosse relevante, enxergo apenas três possibilidades para que
    o artigo defendesse 2):
    a) A queda ou manutenção da verticalização deveria ter sido mais
    debatida e a queda foi aprovada prematuramente;
    b) A verticalização deveria ser mantida pela sua importância e então
    fossem apresentadas evidências de sua importância;
    c) A verticalização deveria ser mantida pela sua importância e as
    evidências da importância são óbvias para o conjunto de leitores
    esperado a ler o artigo.
    Completa perda de tempo admitir a possibilidade de encontrar a
    possibilidade a) no texto. Também não há qualquer indício da possibilidade
    b) no texto; e em um certo momento parece explicitar-se de que
    realmente não é a possibilidade correta (‘pífio, vexatório’).

    Para não me enlouquecer por não encontrar uma possibilidade factível,
    finjo que não li a frase ‘a imprensa não teve condições de enxergar
    a necessidade de manter a verticalização’, e assim consigo enxergar
    c) como mais provável.
    O artigo, comparando o quadro nacional com situações internacionais,
    parece uma bronca à imprensa, baseado numa obviedade
    compartilhada pelos leitores do artigo. O que me chama a atenção não é
    simplesmente a obviedade compartilhada neste caso — a manutenção da
    verticalização é importante — mas sim o tratamento da imprensa em si
    de trabalhar com obviedades compartilhadas entre os leitores
    quando estas obviedades não são fatos concretizados, ou estão dispostos
    numa declaração de princípios à qual o veículo siga ou que possam ser
    dedutíveis a partir de tal declaração, ou ao menos uma referência
    anterior.

    Claro que pode existir alguma possibilidade 3) ou d) que não vi,
    ou — talvez pelo fato de elas não serem tão recorrentes aqui no
    OI — eu devesse esperar aparecer uma obviedade compartilhada
    menos óbvia para comentar.

    Da mesma forma que para nunca mais ler jornal do mesmo jeito,
    conto com o OI para não o ler da mesma forma que eu lia jornal antes.

    Sincera e respeitavelmente,
    Ribamar Santarosa.

  3. Comentou em 02/02/2006 jair de andrade pimentel filho

    Sr Dines

    sou seu admirador de longo tempo!Continue o guerreiro que es!!!
    Assinava o folha por mais de vinte anos e apos a insidiosa campanha contra o PT e a Marta, cancelei minha assinatura; atualmente so assino a CARTA CAPITAL (pois temos la Mino Carta,pessoa do mesmo quilate de V.Sa!!).
    Ja mandei como sugestao a Folha, que os artigos publicados por colaboradores ou mesmo jornalista vom vinculo empregaticio com o jornal, deveria declarar nos seus dados ao pe do artigo, sua simpatia politica; essa medida visa o leitor poder fazer uma pre critica ao que eh escrito (quem tem o habito da leitura diaria dos jornais , sabe qual o matiz do autor do artigo, mas atualmente, temos os mais diversos niveis de leitores e assim seria de bom alvitre a transparencia do matiz politico do autor!!!
    Agradeco muito seus programas e sempre quando posso estou com olhos e ouvidos de prontidao !!!

    atenciosamente

    jair de andrade pimentel filho

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