Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > RESPONSABILIDADE SOCIAL

Jornais precisam unir reflexão e prática

Por Fátima Cardoso em 04/09/2008 na edição 501

A apresentação dos Indicadores Ethos-ANJ de Responsabilidade Social para o setor Jornais, ocorrida durante o 7º Congresso Brasileiro de Jornais, realizado em São Paulo nos dias 17 e 18 de agosto, foi apenas o primeiro passo de uma longa caminhada rumo à conscientização do setor para o tema da sustentabilidade em todas as suas nuances e implicações.


A análise é da jornalista Clarice López de Alda, diretora do Comitê de Responsabilidade Social da Associação Nacional de Jornais, setor responsável pela criação dos indicadores setoriais de responsabilidade social para a indústria jornal.


Na entrevista a seguir, Clarice fala sobre a importância dos indicadores como instrumento para aperfeiçoar a gestão das empresas de comunicação e dos motivos que levaram a ANJ a acreditar que tais indicadores podem ajudar as empresas do setor a refletir e aperfeiçoarem suas práticas.


***


Por que a ANJ decidiu desenvolver os indicadores para o setor Jornais com o Instituto Ethos? Qual foi a percepção que levou o Comitê de Responsabilidade Social a esse trabalho?


Clarice López de Alda – A primeira percepção foi a de que responsabilidade social não pode se resumir a investimento social privado. E nós precisávamos discutir responsabilidade social na dimensão exata do que seja responsabilidade social empresarial. Ou seja, sob a perspectiva da sustentabilidade. E esse é um exercício que passa, necessariamente, pela reflexão interna que possa verificar como o setor atua em termos de gestão, de relacionamento com seus stakeholders, de responsabilidade quanto aos conteúdos que entrega para a sociedade. A segunda percepção, alinhada à visão modernizadora da presidência da entidade, era a de que este era o momento certo para construir e entregar ao setor de jornais uma ferramenta que ajude seus gestores a na construção de mudanças essenciais a sustentabilidade não apenas do negócio, mas também, e principalmente, sob a perspectiva de mercado, sociedade e planeta.


Como avalia o processo da construção dos indicadores, que teve uma certa resistência por parte as empresas jornalísticas? Quais foram as dificuldades e as resistências enfrentadas?


C.L.A. – As principais resistências refletiam um não-entendimento sobre o caráter da parceria Ethos-ANJ. Foi preciso mostrar que o fato de a ANJ construir os indicadores setoriais em parceria com o Instituto Ethos não representava interferência do Ethos nos jornais. Muito menos uma ingerência nos pilares de independência e de liberdade. Mostramos que não haveria tal interferência e, mais, que o preenchimento dos indicadores é decisão interna, com caráter de aprendizado, e as respostas sequer precisariam ser entregues para o Ethos. Creio que vencemos as dificuldades iniciais e os jornais associados já demonstraram entender que os indicadores têm o objetivo de ajudar os jornais a pensar melhor sobre si mesmos.


A apresentação desses indicadores, durante o 7º Congresso Brasileiro de Jornais, teve pouco público. Isso revela o pouco interesse de donos de jornais ou de editores pelo tema? Como a ANJ pretende ampliar o interesse do setor pelos indicadores? Este caminho será longo?


C.L.A. – Não posso afirmar que há desinteresse, mas também não tenho dúvidas de que vai ser um longo caminho. Isso porque indicadores setoriais para as empresas de comunicação, de forma geral, representam uma quebra de paradigmas. No Brasil, em geral as empresas de comunicação, com exceções é claro, têm limitado seu envolvimento com o tema responsabilidade social aos conteúdos editoriais que divulgam. Ou seja, elas se vêem responsáveis por retratar práticas boas ou ruins identificadas nos demais segmentos da sociedade, mas não exercitam os mesmos questionamentos para o seu próprio funcionamento enquanto empresas. Então, ser chamado a participar de um processo e adotar ferramentas onde o principal apelo é ‘veja-se por dentro’ é uma coisa extremamente nova, que precisará ser muito bem digerido pelo setor. E é exatamente por isso que, acredito, temos um longo caminho pela frente. Criamos e lançamos a primeira versão dos indicadores setoriais para a indústria de jornal. Daqui para frente, tudo será aprendizado e aperfeiçoamento.


Você acha que as empresas de comunicação, incluindo os jornais, estão muito defasadas em relação a outros setores no que diz respeito à capacidade de reflexão e incorporação de princípios da responsabilidade social e de sustentabilidade na sua própria gestão?


C.L.A. – Não. As empresas de comunicação já estão fazendo ações e incorporando conceitos de responsabilidade social em sua gestão. Estão se modernizando, refletindo sobre novos conceitos e mudando suas práticas. O que elas ainda não têm muito presente é que, a tudo isso, damos o nome de responsabilidade social. Esse é o paradoxo de todo esse conflito – não entender a necessidade de analisar e refletir sobre um tema quando, na prática, já estão fazendo isso, e há muito tempo. Até porque, entender processos, mudar práticas e modernizar gestão são itens do manual de sobrevivência de qualquer negócio, inclusive o de jornal. Todos os segmentos produtivos que buscam longevidade estão hoje reconhecendo e trabalhando na melhoria dos seus impactos, dos seus relacionamentos. Enfim, o tamanho e relevância da sua presença no mundo de hoje e sua presença no mundo futuro.


 


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A responsabilidade social dos jornais – Luciano Martins Costa (OI no Rádio)

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