Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > AMAZÔNIA ILEGAL

Jornais noticiam mas não explicam

Por Luciano Martins Costa em 06/06/2008 na edição 488

Em meio aos debates sobre o modo como o Brasil administra seu patrimônio natural, que se estendem para fora do Brasil e excitam a imprensa internacional, o presidente da República anunciou na quinta-feira (5/6) a criação de três das cinco reservas previstas para a região amazônica.


Os jornais, em peso, destacaram a frase de Lula dizendo que a Amazônia é igual água benta, todo mundo acha que pode meter o dedo. Mas deixaram de lado alguns detalhes importantes. Um desses detalhes é a natureza de cada reserva.


Alguns dos maiores especialistas em Amazônia discutem a eficácia de parques nacionais e reservas naturais em regiões da floresta onde existe minério ou em áreas próximas de zonas desmatadas. Em muitos casos, projetos de manejo integrado são mais eficazes para garantir a preservação. Os jornais passaram ao largo dessa discussão.


Outra questão é a razão pela qual as outras duas reservas previstas não foram aprovadas. Uma delas fica em área rica em bauxita, e o governo preferiu evitar que a criação da reserva viesse a impedir no futuro a extração do minério.


Terra de ninguém


Essa era uma oportunidade interessante para a imprensa questionar a falta de uma estratégia de longo prazo para a Amazônia, que permita conciliar a preservação da floresta, o bem-estar das populações nativas e a necessidade econômica de explorar suas riquezas. A criação de reservas, por si só, não melhora as condições de proteção do patrimônio natural, porque é impossível patrulhar toda sua extensão.


Mas o único jornal que deixou o discurso do presidente em segundo plano e tentou olhar para a questão amazônica de uma forma mais abrangente foi o Globo. O Globo informa que 8,5% da Amazônia – ou cerca de 42 milhões de hectares – estão em situação irregular ou fora do controle do governo. São terras não-documentadas, ou com documentos falsos e sobreposição de títulos.


Para se ter uma idéia, observa o jornal, a área equivale aos territórios dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraíba e Sergipe. Somados. É uma área maior do que a Alemanha e praticamente o dobro do território britânico sobre a qual o Brasil não tem soberania. Ali se pode desmatar impunemente, pois não há como multar os proprietários.


E a imprensa não vê que essa terra de ninguém é que acaba se transformando na ponta de lança da agropecuária na Amazônia. Essa é uma das ocasiões em que os jornais dão a notícia, mas não ajudam o leitor a entender a verdade.

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/06/2008 Jonatas Rosa

    Enquanto não tivermos, aqui no Brasil, provas catastróficas de ordem natural mostrando a força na natureza, o governo não vai se mexer para mudar o quadro critico da Amazônia.
    E nem os veículos de comunicação vão se dar ao trabalho de saber a verdade por traz dos anúncios e mínimos feitos do poder público. Por hora ficarão presos ao oficialismo, as metáforas mal colocadas do presidente para tratar de assuntos tão sérios.
    Além disso, deve se ver que o assunto está em pauta apenas por que temos um novo Ministro do Meio Ambiente. Com Marina, já calejada, não havia grandes motivos para se tocar no assunto.
    Agora basta ser normal termos o novo ministro que o assunto voltará a ser tratado apenas por aqueles realmente preocupados com futuro do planeta e nós devemos mais é rezar para as grandes tragédias naturais passem longe daqui.

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