Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Jornal abandona o passado maoísta

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 30/11/2006 na edição 409

Se fosse um filme, poderia ser Libération, de Sartre a Rothschild. Mas, se filme fosse, talvez melhor intitulá-lo Libération – parte II.


Na semana passada, numa eleição realizada no Libération, iniciou-se nova era e fechou-se uma página de um passado feito de idealismo de jovens maoístas reunidos em torno de um filósofo existencialista. O filósofo, como todos sabem, era Jean-Paul Sartre. Um dos maoístas, que dirigiu o jornal até este ano, era Serge July. Eles construíram Libération sonhando com um jornal de esquerda, ousado, livre de qualquer influência do mercado. O primeiro número saiu em 18 de abril de 1973. Trinta e três anos depois, o mercado mostrou que é mais forte. Um jornal que perde leitores e publicidade tem que se adaptar aos novos tempos.


Há poucos dias, em votação secreta, a maioria – 63% – dos jornalistas de Libération aprovou Laurent Joffrin na função de diretor da Redação, acumulando com a função de PDG [président directeur-général] do jornal, por vontade do acionista majoritário Edouard de Rothschild. Na quarta-feira [22/11], Antoine de Gaudemar, respeitado pelos jornalistas do Libé por sua integridade moral e pelas qualidades de grande jornalista, havia deixado o cargo de diretor de Redação, a pedido de Joffrin.


Greve anunciada


A crise vivida pelo Libération há mais de um ano era muito grave. Juntamente com os leitores perdidos para a internet e a publicidade perdida para os jornais gratuitos, o acionista majoritário Rothschild (38% do capital) estava perdendo dinheiro. Muito dinheiro. Depois dos 20 milhões de euros perdidos no ano passado, e dos 6 milhões de euros evaporados neste ano, resolveu dar um basta. Em julho, Serge July partiu por vontade de Rothschild.


O novo Libération surgiu em novembro, quando os jornalistas (18% do capital) aceitaram por pequena maioria o plano Rothschild para salvar o jornal da falência, sob o comando de Laurent Joffrin, ex-diretor de redação do Nouvel Observateur. Joffrin já passara duas vezes por Libé, jornal onde começou sua carreira e que deixou para ir chefiar o Nouvel Observateur.


Ao assumir o risco de dirigir Libération, Joffrin conhecia não somente a situação financeira difícil, mas sabia de antemão que será obrigado a demitir. O plano Rothschild prevê uma recapitalização de 15 milhões de euros, mudança nas regras de direção do jornal (os jornalistas perderão o direito de veto do PDG e do diretor de Redação) e uma enxurrada de demissões, chamadas no jargão neoliberal de ‘plano social’. Aliás, greve na França também sumiu do vocabulário político-midiático : agora é ‘mouvement social’. Pois foi usando a palavra consagrada para designar paralisação de trabalho que na terça-feira (28/11), os jornalistas votaram uma greve que começa dia 4 de dezembro.


Reprise velha


Resta torcer para que o novo Libé não esteja para o antigo jornal de esquerda – independente, inovador e provocador – assim como o Jornal do Brasil de Nelson Tanure está para o Jornal do Brasil de Alberto Dines, Otto Lara Resende e Antônio Callado. O atual JB tem do antigo apenas o nome. O antigo JB era um jornal de menos colunas ‘people’ e mais reportagem investigativa e análise. Era o jornal de referência do Brasil.


A próxima cena de Libération –parte II é a mudança nos estatutos do jornal, prevista para meados de dezembro. Com a reforma dos estatutos para satisfazer Rothschild, a Société Civile des Personnels de Libération (SCPL) vai perder parte do poder que ainda detém na gestão do jornal.


Do antigo Libération, provavelmente só restará o nome e a história. Já vimos esse filme antes.

******

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