Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DA FOLHA

Jornal chamado às falas

Por Alberto Dines em 07/12/2009 na edição 566

É inédita a rigorosa cobrança do ombudsman da Folha de S.Paulo na edição de domingo (6/12). A repreensão ao jornal foi motivada pelo inominável gesto de publicar sem qualquer averiguação o artigo do colunista Cesar Benjamin sobre comportamentos pessoais do presidente da República num episódio ocorrido há 15 anos.


Sem qualquer adjetivação, objetivo e firme, Carlos Eduardo Lins da Silva foi duro com o jornal: ‘Só quem crê dispor de certezas prévias inabaláveis, como os fanáticos religiosos ou políticos (muitas vezes são a mesma coisa), pode se achar capaz de distinguir verdade e mentira com base só em palavras.’


Se o artigo publicado no dia 27/11 foi chocante, sua repercussão foi pior ainda: das 219 mensagens dos leitores dirigidas ao ouvidor, apenas nove elogiaram o jornal pela coragem de publicar a indecência. As 210 restantes condenaram a Folha em termos bem mais veementes (a julgar pelas cartas publicadas pelo próprio jornal) do que os utilizados pelo comedido Lins da Silva. Estes dados são suficientes para dimensionar e qualificar um dos maiores deslizes éticos cometidos pela grande imprensa nos últimos anos [ver, neste Observatório, ‘A imprensa aloprou‘).


Mérito e deméritos


Foi um serial killing, aberração serial cometida arrogantemente ao longo de dez dias consecutivos: a Folha errou ao publicar o texto, errou no dia seguinte, incapaz de desculpar-se perante os leitores, errou quando não prestou atenção à primeira e breve reprimenda do ombudsman (domingo, 29/11), errou quando localizou o pivô do episódio e colocou em sua boca uma condenação ao texto e não à decisão de publicá-lo, e errou ao silenciar por tanto tempo diante de um desvio de conduta destas proporções. O ouvidor identificou outros erros, todos gerados pela mesma onipotência.


A Folha, finalmente, acertou ao honrar o compromisso com o seu ombudsman de publicar suas opiniões sem qualquer constrangimento. É um mérito que não deve ser esquecido em meio a tantos e tão perturbadores deméritos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/12/2009 Rogério Abreu

    …episódio ocorrido há 15 anos. (?). Dines, o tempo é mais rápido do que a lembrança. Na verdade lá se vão 30 anos, pelo menos na data proposta por Bejamin: 1980.

  2. Comentou em 07/12/2009 Luiz Serenini

    Dines. Já que nenhum veículo da grande imprensa se dá o trabalho de colocar em debate, por que vocês não discutem os motivos e os bastidores que fizeram com que um filho do ex-presidente FHC ficasse escondido durante 18 anos? Não se trata de imiscuir questões da vida privada, mas sim os critérios da mídia para tal acordo. Será que tivemos outras situações similares ainda não descobertas? Será que teremos alguma mais à frente?

  3. Comentou em 07/12/2009 valmir gôngora

    A primeira manifestação do ombudsman foi comedida. Não salvou as aparências. Agora é publicada nova manifestação, para que surjam elogios por ‘mérito’. Sei…sei.

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