Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DA FOLHA

Jornalismo de botequim
na cobertura política

Por Luiz Antonio Magalhães em 03/02/2004 na edição 262

A Folha de S. Paulo deu grande destaque na última quinta-feira (29/01) para matéria assinada pelo repórter Kennedy Alencar, intitulada ‘Lula vai enquadrar Dirceu por ‘atropelar’ ministros’. A reportagem mereceu um abre de página e informava que Lula, em viagem oficial ao exterior (Índia e Suíça), não estaria gostando muito do estilo ‘gerentão’ de seu ministro da Casa Civil, que, na ausência do próprio presidente, cumpria agenda de chefe de governo.

No dia seguinte, Jamil Chade, correspondente em Genebra de O Estado de S. Paulo, rival da Folha, assinou um relato sobre a reação do presidente Lula e assessores próximos, incluindo o secretário de Imprensa da Presidência, jornalista Ricardo Kotscho, à matéria de Kennedy. De acordo com a reportagem de Chade, Kotscho informou que o presidente está ‘muito satisfeito com o comportamento de Dirceu’, que estaria fazendo ‘tudo exatamente como combinado’. Ainda segundo Kotscho, Lula ‘riu ao ser informado das notícias publicadas ontem na imprensa brasileira a respeito’ (leia os textos de Alencar e Chade na seção Entre Aspas).

Ex-assessor de imprensa de Lula na eleição de 1998, o repórter da Folha não pode reclamar de falta de elegância de seu colega do Estado, que ao menos não fez referência direta à matéria publicada no diário da Barão de Limeira.
E elegância à parte, a verdade é que, na melhor das hipóteses, a ‘reportagem’ de Kennedy Alencar deveria ser catalogada como ‘jornalismo de botequim’. Na pior, o jornalista teria aceitado a função de menino de recados de gente com interesse direto na diminuição dos poderes recém-adquiridos por Dirceu. Poderes, é bom lembrar, atribuídos ao chefe da Casa Civil pelo presidente da República na reforma ministerial realizada há duas semanas.

Senão vejamos. Não há na matéria de Kennedy a indicação de uma única fonte a corroborar a versão de que o presidente teria se irritado com Dirceu. A expressão ‘segundo a Folha apurou’ aparece duas vezes no texto, mas sem referência ao tipo de fonte que teria oferecido a ‘informação’ ao repórter. Não se sabe se foi alguém ligado, por exemplo, ao ministro Antonio Palocci (Fazenda), pelo qual, de acordo com o texto, Dirceu teria externado opiniões (sobre um projeto de Lei do senador José Sarney).

A bem da verdade, são duas as dicas oferecidas pelo repórter aos leitores. Uma está no trecho ‘já chegou ao Palácio do Planalto a contrariedade de Lula’, indicando que a informação teria partido de gente com acesso ao centro do poder Executivo, o que também não quer dizer muita coisa. Em outra passagem, a matéria cita ‘políticos ligados a Dirceu’, que, segundo o texto, ‘temeriam’ que o ministro repita a sina de Clóvis Carvalho, chefe da Casa Civil do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que começou atuando discretamente e, ao ganhar poder, foi derrubado (já no segundo mandato de FHC) por bater de frente com o então ministro da Fazenda, Pedro Malan. Aqui, os tais ‘políticos ligados a Dirceu’ cumprem a inusitada tarefa de jogar água fria na performance do aliado e, por analogia, levantar a bola de Palocci, atualmente no posto que foi de Malan. Como se vê, tudo muito estranho…

Evidentemente, o repórter da Folha poderá alegar que o presidente e seu staff naturalmente negariam as informações apuradas, sobretudo no caso de elas serem verdadeiras. O problema de fundo, porém, não é este. É correta a publicação, e com grande destaque, de uma informação totalmente apurada off the records sobre assunto de tamanha relevância? [Veja, a este propósito, o artigo da ombudsman Estrela Serrano, do Diário de Notícias, de Lisboa, reproduzido na rubrica Voz dos Ouvidores desta edição do OI.] Em qualquer restaurante bem (ou mal, a depender do ponto de vista) freqüentado de Brasília, Rio e São Paulo seria possível ouvir, de pessoas com trânsito em palácios, comentários sobre os humores e hábitos do presidente da República.

Isto é notícia ou conversa de botequim chique? Vale dar chamada de primeira página para uma pseudonotícia que no dia seguinte será motivo de contestação oficial e que dificilmente poderá ser sustentada publicamente? Se a amplificação de rumores e ‘reflexões’ sobre os rumos do governo – qualquer governo – for considerada bom jornalismo, o material publicado na Folha é um excelente caso de estudo. De outra forma, será motivo de riso dos envolvidos e nada mais.

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