Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Jornalismo de efeitos e sem causas

Por Elstor Hanzen em 04/07/2016 na edição 910

Uma das principais características do jornalismo é tratar de assuntos aparentes na sociedade, sendo tal peculiaridade bastante visível na política e na segurança pública, atualmente, mais evidente pelo tipo de cobertura que a mídia vem realizando nessas editorias. Embora seja uma particularidade, e até uma necessidade do fazer jornalístico diário, este comportamento começa a preocupar quando se dá toda a atenção aos efeitos e nenhuma iluminação ao princípio dos acontecimentos. Deixando de lado também, por tabela, a essência do jornalismo – a reportagem.

A esclarecer: causa é aquilo que faz com que uma coisa seja, exista ou aconteça. O que é princípio, razão ou origem de algo, motivo; o que pode acontecer, fato ou acontecimento. Já o efeito é produto, resultado de uma ação e consequência; ou seja, não há efeito sem causa. Essas definições estão nos dicionários. Ordem diferente, entretanto, estabelecida pela gramática nas orações causais em que, geralmente, a causa vem em segundo lugar, introduzida por uma conjunção.

A propensão a trabalhar a informação a partir dos resultados dos acontecimentos visa a impressionar o espírito e a sensibilidade do cidadão por meio do efeito do discurso, sem conectar os fatos com sua origem, para que se possa estabelecer uma relação de causa e efeito. Porém, é justamente esse modelo de jornalismo que predomina no cenário nacional. Na cobertura política, aliás, mostra-se a corrupção por intermédio do superfaturamento de obras, lavagem de dinheiro e outras montas do mesmo ilícito apenas na ponta final do processo, enfoque que tem como objetivo principal impressionar as pessoas e atrair a audiência diante dos escândalos expostos. Com este tipo de noticiário, por exemplo, pouca ou nenhuma substância se obtém para a saída dos problemas.

O mesmo comportamento se observa na cobertura da segurança e área policial. Dá-se intenso destaque aos assaltos, tragédias, violência, tudo para atrair o público, instalando grande sensação de insegurança na sociedade. Contudo, quase nada se traz sobre a origem de tais males. Sabe-se, embora não por meio do jornalismo, que a violência tem sua maior causa na pobreza e na falta de perspectivas na vida. Tratando-se, portanto, de questões sociais com origens históricas, longe de serem resolvidas com repressão e condenação criminal.

Por isso, tratar as pautas e discussões da sociedade com base apenas nos seus efeitos é uma obviedade. O seja, na mesma linha em que se enuncia que o candidato A será eleito ou não será eleito, caso no qual sempre se extrai como resposta uma tautologia. Agora procurar e mostrar com que regras e quais compromissos tal candidato obteve ou não determinado resultado exige uma postura de jornalismo investigativo e comprometido com as causas dos fatos.

Excesso de informações e falta de contextualização

A forma mais apropriada de se estabelecer conexão de causa e efeito no jornalismo é a reportagem. Ela já foi definida pelo professor Nilson Lage como o espaço privilegiado da informação jornalística. Lage elenca uma série de características deste gênero informativo: a reportagem de um assunto – determinado ou não por fato gerador de interesse – é mais completa e rica na trama de relação entre os universos de dados; dá conta de um estado-arte, isto é, da situação momentânea em determinado campo de conhecimento, entre outras.

Como na política o discurso se porta à realidade de modo muito particular, por isso, ainda conforme ressalta Lage, para cada evento é preciso estabelecer um quadro de situações, a fim de obter uma apreensão global da realidade que importa ou pressupõe prognóstico para o futuro. “O nível de análise admitida consiste em contextualizar declarações e os fatos a que reportam.”

Sem elos entre os acontecimentos, logo fica muito difícil compreender e agir com base nas informações que se recebe pelos noticiários. O quadro atual posto pela média é caótico, tanto pelo excesso de informações como pelo mesmo enfoque dado ao assunto, desconectado ainda mais pela falta de contextualização das ocorrências no cenário político-partidário.

O melhor para a sociedade e para o próprio jornalismo seria, portanto, comprometer-se com o debate em prol de ampla reforma política e modernização da legislação eleitoral, que é a fonte e a origem que favorece a corrupção no atual sistema político.

O caminho para a melhor saída

A imprensa precisa e deve “apoiar” tal causa, assim como faz com o esporte e com a pauta ecológica, por exemplo, dando visibilidade ao assunto para criar um ambiente anímico e mobilizar a opinião pública para agir e alcançar o objetivo. Só a partir daí será possível estabelecer novas regras e padrões éticos no cenário político nacional. Caso o contrário, se deixar na mão dos atuais agentes políticos, ou apenas por conta de parcela da sociedade esta função, as verdadeiras mudanças e as necessárias soluções que todos almejam para a área estarão longe de chegar.

A colaboração do jornalismo neste sentido é uma missão, acima de tudo uma função social da imprensa, prevista no próprio Código de Ética dos Jornalistas, na seção de direito à informação, a qual prevê a prestação de informações pelas organizações até como uma obrigação social. Então, poderia se falar da mídia apoiar e tomar partido em tal causa? Não se tratar de apoiar fazendo campanha, mas investir na pauta política para mostrar seus princípios e suas consequências na vida de cada um e no conjunto da sociedade. Em outros termos, traduzir em linguagem acessível e dar ampla visibilidade ao tema para subsidiar as conversas das pessoas com argumentos consistentes para que o assunto predomine a agenda pública, como se pautou a corrupção por meio da operação Lava Jato.

Por onde começar? Em entrevista recente à revista Planeta, o psicanalista Jorge Forbes faz algumas provocações. “Não há nada a melhorar no sistema que nos levou à situação atual no Brasil. Tem de jogar fora. Mas qual vai ser a política? Quem descobrir vai ganhar um Prêmio Nobel. Vamos ter de descobrir isso antes de nos matarmos. E acho que o brasileiro já está sensível à questão. A ‘turma do deixa disso’ está entrando em campo. Mas precisa ter argumentos melhores para apontar um caminho político possível que não seja a guerra.”

Caminho ideal certamente não há para a adequação de um sistema político-partidário à pós-modernidade. Todavia, alguma sinalização foi dada pelo próprio Forbes. “Já vemos alguns testes dessa reinvenção. Um exemplo disso é o discurso do presidente Barack Obama em Cuba. Ele escolheu se mostrar como um líder que não fala desde o local do poder, da potência e da arrogância, do ‘eu sei mais’. Ele fez um discurso a partir das escolhas dele”, lembra.

Independente do modelo de reforma política que se adote, o jornalismo deve emprenhar-se para apresentar o que é significante de forma interessante e relevante, e não apenas disseminar os efeitos da corrupção sem elucidar a origem de qualquer causa. É necessário ir além, portanto, e investir e “apoiar” as soluções definitivas que trazem esperança e melhoram de fato o futuro do Brasil.

Em última análise, não importa quanto a forma de fazer jornalismo e a distribuição da informação tenham mudado com a nova tecnologia. A essência tem permanecida a mesma, conforme Bill Kovach e Tom Rosenstiel escreveram no livro Os Elementos do Jornalismo: o que os jornalistas devem saber e o público deve exigir: “A principal finalidade do jornalismo é fornecer aos cidadãos as informações de que necessitam para serem livres e se autogovernarem.” Cabe, pois, ao jornalismo iluminar o caminho para o povo achar a melhor saída.

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Elstor Hanzen é jornalista

 

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