Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DO GLOBO

Jornalismo de mentirinha, publicidade de verdade

Por Alberto Dines em 05/08/2008 na edição 497

No último domingo de julho (27) foi a capa promocional adotada pelo Estado de S.Paulo, entregue aos publicitários encarregados de vender os carros Nissan. Na primeira segunda-feira de agosto (4) foi a edição de O Globo, na qual mais uma vez derrubam-se as barreiras que separam o jornalismo da publicidade.


Desta vez, a causa não é mercantil. O anunciante (Eletrobrás), armado de ótimas intenções (a defesa do meio-ambiente e o desenvolvimento sustentável), liquidou as frágeis divisórias que ainda separam o serviço público (jornalismo) do comércio (anúncios). De forma engenhosa e enganosa converte-se uma ação com a aparência inocente, cívica, politicamente correta, num acintoso atentado contra a incolumidade da informação jornalística.


Foram três páginas inteiras (págs. 5, 11 e 19) montadas com matérias já publicadas recentemente no Globo e todas as características de matéria apurada, oriundas da Redação. Inclusive com os selos utilizados habitualmente pelo jornal (‘Política Ambiental’, ‘Defesa do Consumidor’ e ‘Impunidade é Verde’). O carimbo ‘Publicidade’ não está no alto, destacado, mas confunde-se com outros dizeres.


E para mostrar que esta mixórdia é mesmo anúncio – apesar de todos os indícios de matéria jornalística, inclusive com o nome de repórteres – acrescentaram-se em cima dos textos imagens desenhadas de copas de árvores.


Na última inserção, os mágicos da Eletrobrás associados aos mágicos do Departamento de Markenting [sic] do Globo revelam que a Eletrobrás está plantando 600 mil mudas de árvores no entorno das suas usinas.


Acabou a palhaçada jornalístico-ambiental? Não: ela continua num panfleto chamado ‘Razão Social’ (usado geralmente para abrigar o que no jargão se chama de picaretagem), carregado de anúncios (Firjan, Petrobrás, CNI-SESI, Instituto Ethos e Coca-Cola), entremeados de matérias de origem dúbia (como a entrevista do presidente da Light).


Exibição de esquizofrenia


Quanto custou esse carnaval aos contribuintes? A folia da montadora Nissan no Estadão foi paga por uma empresa privada que resolveu torrar os seus lucros no Brasil à custa da complacência da imprensa com a degradação da sua imagem. Problema da Nissan.


Mas o delírio exibido pelo Globo foi pago por uma estatal. Aquelas três páginas inteiras mais o exótico apêndice devem ter custado 10 vezes mais do que as 600 mil mudas plantadas no entorno das usinas.


O Tribunal de Contas da União aprovou (ou aprovará) essa aventura marquenteira? A Corregedoria, Ouvidoria ou Ombudsman da Eletrobrás concorda com esse desperdício de recursos?


Com apenas um anúncio – anúncio propriamente dito – de uma única página pode-se oferecer à sociedade uma mensagem clara, direta, legítima e muito mais eficaz. Sem aviltar o interesse público.


Essa parceria Eletrobrás-Globo e os penduricalhos complementares são uma exibição da galopante esquizofrenia que assola a sociedade brasileira: proclama-se a necessidade de preservar o meio ambiente e não se titubeia em degradar o que a República tem de mais precioso – o seu escasso estoque de decência.


Tropa de elite


A jogada do Departamento de Markenting [sic] é genial. Genial e diabólica. Sob o pretexto de defender a humanidade, faz tábula rasa das diferenças que outrora existiam entre comércio e civismo. Pura pirataria, como diria o bigodudo Nietzsche.


Esses casos são graves porque não são casuais, fazem parte de uma estratégia corporativa. A ANJ (Associação Nacional de Jornais) recomenda com insistência aos associados a utilização agressiva de novos recursos publicitários para enfrentar as vantagens das revistas em matéria de impressão colorida e papéis especiais. Isso não significa apenas a adoção por parte dos diários de novos formatos de anúncios – mesmo que a custa da destruição de velhos hábitos de leitura. Significa também a adoção de simbioses tanto na forma como no teor das mensagens veiculadas pela mídia impressa.


Às redações dos grandes jornais brasileiros foram anexados os departamentos de Projetos Especiais (ou de Markenting), uma tropa de elite regiamente paga, com a dupla missão: fazer do jornalismo, publicidade e da publicidade, jornalismo.


Antigamente gritava-se em francês ‘Vive la diference!’. Hoje berra-se em bom português: ‘Viva o sincretismo!’.


Evidentemente voltaremos ao assunto.


 


Leia também


Aspargos em Marte, promiscuidade na Terra – Alberto Dines


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/08/2008 Adalberto Marcondes

    Caro Dines, esta é a segunda vez que escrevo sobre este artig. Por algum motivo a primeira não foi publicada. Quero dizer que você está fastando boa munição com o algo errado. O caderno Razão Social do Golobo, editado pela competente Amélia Gonzales, é um tipode jornalismo diferente. É um jornalismo que exalta melhores práticas empresariais, aquelas necessárias para a mudança de paradigmas de produção e consumo necessárias para a criação de uma sociedade mais sustentável. Entre seus colaboradores está o jornalista Luciano Martins Costa que vem reiteradamente escrevendo sobre este tipo de jornalismo.
    O ataque ao caderno foi despropositado e deselegante, uma surpresa que tenha vindo de você.
    Nos últimos anos muitas mídias tem trabalhado para mostrar à sociedade que pode existir um outro modelo de economia, mais comprometida com o respeito ambiental e com a responsabilidade social. São publicações em internet e em papel que estão saindo de nichos para ganhar o grande público. Quando isso acontece em um grande jornal, o que deveria ser motivo de comemoração torna-se objeto de ataque?
    Espero que você reavalie sua posição, afinal, seu olhar sobre a mídia é muito importante. Um equívoco como esse pode influenciar muita gente.
    Cordialmente,
    Adalberto Marcondes – Envolverde – http://www.envolverde.com.br

  2. Comentou em 05/08/2008 José Orair Silva

    É surpreendente constatar o ar de surpresa e decepção do veterano jornalista com a queda das últimas máscaras da grande imprensa brasileira…Ora, os supostos muros intransponíveis entre os departamentos comerciais e as redações dos grandes jornais só existiam mesmo na imaginação saudosa de alguns poucos veteranos jornalistas…

  3. Comentou em 05/08/2008 José Orair Silva

    É surpreendente constatar o ar de surpresa e decepção do veterano jornalista com a queda das últimas máscaras da grande imprensa brasileira…Ora, os supostos muros intransponíveis entre os departamentos comerciais e as redações dos grandes jornais só existiam mesmo na imaginação saudosa de alguns poucos veteranos jornalistas…

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem