Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > OI, 10 ANOS

Jornalismo, privilégio e risco

Por Luiz Egypto em 02/05/2006 na edição 336

Segunda e última parte da enquete do OI com 16 jornalistas, professores e cientistas políticos, iniciada na página anterior.

***


Mais do que em qualquer outro momento na história do Brasil, a imprensa está no centro da disputa política. Isto é um privilégio ou um risco? Por quê?


Alzira Alves de Abreu – A mídia interfere no funcionamento e na transformação da sociedade, junto com outras instituições. A informação é um dos elementos fundamentais para que o indivíduo possa exercer plenamente os seus direitos. A mídia deve estar no centro do debate político, o que é um aspecto positivo. Ela precisa manter-se próxima da política e do governo, para ter acesso às informações. Mas precisa assumir uma posição neutra ou distanciada para preservar a sua credibilidade; deve atuar como intermediária entre cidadãos e poder político.


Entretanto, não podemos esquecer que existem problemas relacionados aos graus de autonomia política e financeira dos veículos de comunicação diante dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Também não é possível ignorar as preferências políticas e ideológicas dos jornalistas. Mas para neutralizar essas interferências a mídia precisa de índices de audiência e altos índices, no caso de notícias, exigem credibilidade. Sem credibilidade, as notícias não têm valor algum, seja em termos de dinheiro, seja de poder. A credibilidade exige certo distanciamento em relação a opções políticas. (A.A. de A. é historiadora, doutora em Sociologia e pesquisadora do Cepdoc da Fundação Getúlio Vargas)


Ali Kamel – Não concordo de jeito nenhum com a observação. A imprensa, mais do que em qualquer outro período da história, é observadora da disputa política, não parte dela. De anos para cá, a imprensa se profissionalizou, explicitou critérios, fez um proclamação pública de comprometimento com a isenção e a imparcialidade. E se há algum terreno em que vem obtendo êxito nisso é na cobertura do drama político. Chega a haver uma disputa para ver quem é mais isento, mais distante de comprometimentos. Quem ganha é o público. Em outras coberturas – como a internacional – não vejo a mesma preocupação. Não estou dizendo que as editorias de Internacional querem ser menos isentas. Não é isso. Digo que há menos isenção nesse campo. Há uma tendência a se tratar o governo Bush, por exemplo, de um ponto de vista engajado, como se isso fosse o certo, o bem, o consensual. Eu acho que se tivéssemos na cobertura internacional (e na cultural também) a mesma preocupação com isenção e imparcialidade que temos na cobertura política, nossos jornais melhorariam muito.


No passado, sim, a imprensa estava no centro da disputa política, como parte dela. Não vou dar exemplos, porque eles são notórios, mas quero lembrar que a imprensa nasce como parte da disputa político-ideológica e, ao longo dos anos, vai se afastando dela. Basta lembrar o quão freqüentemente políticos fundavam jornais para que eles fossem seus porta-vozes. Basta lembrar toda uma geração de jornalistas-políticos. Isso é passado. Nossos jornais, há muito tempo, profissionalizaram-se. Não posso, assim, aceitar, de modo algum, a premissa da pergunta. (A.K. é diretor-executivo de Jornalismo da TV Globo)


Bolívar Lamounier – Prefiro ver a questão sob outro ângulo. Não se trata de privilégio ou risco, e sim de realidade. A imprensa está no centro da disputa porque é testemunha de problemas muito sérios, porque tais problemas afetam a sociedade num grau historicamente sem precedente, e porque outros possíveis protagonistas, como os partidos políticos, não conseguem desempenhar o papel que em tese lhes caberia na sociedade. A imprensa moderna é constantemente chamada a investigar e a opinar sobre todos os temas de interesse para a sociedade, e até a antecipar temas que poderão vir a ser relevantes. Nesse sentido, ela é necessariamente política – o que obviamente não significa partidarismo. Política no melhor e mais amplo sentido da palavra. (B.L. é cientista político, escritor e fundador do Idesp – Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo)


Claudio Weber Abramo – Não concordo em absoluto com a premissa. Para ficar apenas com o período recente, basta lembrar o que significaram a Última Hora, a Tribuna da Imprensa, mais tarde o Jornal do Brasil, o Estado de S.Paulo, em suas épocas de prestígio. Por outro lado, não enxergo, no presente, que a imprensa esteja no centro da disputa política.


De toda forma, a atividade jornalística independente (que, conforme a resposta anterior, é escassíssima no país) implica intervenção freqüente na vida política pelo simples fato de informar sobre ela. Se isso é um risco, é inerente à atividade. (C.W.A é jornalista, diretor executivo da Transparência Brasil)


Dênis de Moraes – Em diversos momentos do processo histórico dos últimos decênios, e não apenas do último, a imprensa esteve no centro das disputas políticas. Ela foi e é um dos lubrificantes da luta de classes, pois atua e incide nas batalhas pela hegemonia. Quase sempre alinha-se às estruturas de poder, seja por interesses convergentes no plano econômico, seja por alianças táticas no jogo político, em contraposição às forças que desejam uma transformação consistente de uma sociedade tão desigual e injusta. Habilmente, a imprensa dissimula esse alinhamento ao apresentar-se como instância que traduz uma hipotética vontade geral. 


O fato de estar no eixo preponderante da luta de classes não constitui nem privilégio nem risco; trata-se de pensar que estamos diante de uma engrenagem poderosa de seleção, processamento e difusão de conteúdos a partir de suas próprias visões de mundo e idiossincrasias. O somatório das duas tarefas é que lhe confere papel distintivo no contexto ideológico-cultural – papel que precisa ser desvelado com argúcia crítica e cada vez mais questionado e exposto sem meias tintas, para que a sociedade possa, num longo e árduo processo de construção de consciência crítica, distinguir o que recebe sob a forma de informação, desconfiando das intenções de tantas palavras, imagens e sons. (D. de M. é jornalista, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense e autor, entre outros, de Cultura mediática y poder mundial e organizador de Por uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder e Sociedade mediatizada)


Eduardo Meditsch – A mídia brasileira tem estado historicamente no centro do processo político – de forma aberta, quando apóia algum candidato numa eleição, como parece que vai voltar a fazer agora, ou de forma dissimulada, quando sustenta um pensamento único nas páginas de Economia, defendendo um projeto político que transfere renda da população para alguns setores do capital, apresentando-o como sinônimo do bom senso.


Algumas empresas de mídia rifaram a sua credibilidade jornalística por muitos anos por assumirem este tipo de engajamento em alguns momentos, como a Globo em nível nacional e a RBS, no Rio Grande do Sul. Elas conhecem hoje o custo desse comportamento, que não é pequeno, preocupa seus dirigentes, manera os seus impulsos, e desta forma passa a ser administrado para não ameaçar a liderança dessas empresas. Ocorre que o jornalismo e a mídia têm objetivos e valores diferentes. Num caso o interesse público e a credibilidade, e a isenção é o caminho para isso; no outro, o lucro e o poder, e a audiência é o caminho para isso. Mas para atingirem os seus objetivos diversos, o jornalismo precisa da audiência da mídia e a mídia precisa da credibilidade do jornalismo. O risco surge quando um dos lados, geralmente o mais forte, desequilibra esta simbiose. (E.M. é jornalista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina)


Eugenio Bucci – Não considero nem privilégio nem risco. Eu também não diria que ‘mais do que em qualquer outro momento da história do Brasil’, não sei se é assim. Aliás, eu não descartaria a hipótese de que, em tempos em que o voto não era universal, talvez o peso da imprensa sobre os que tinham acesso ao jogo do poder fosse proporcionalmente maior. A questão aqui é outra. O que nós temos visto é uma sucessão de escândalos, não apenas no governo federal, e esses, que ganham cores circenses na mídia, não foram produzidos pela imprensa. Foram cobertos por ela.


É bom não esquecer que a crise do chamado ‘mensalão’, que inaugurou esse período sinistro, começou com denúncias de um deputado que, até o dia anterior, era aliado do governo. Era um deputado de grande influência no Congresso, um presidente de partido. A imprensa cobriu o processo, ela não o inventou, como alguns dizem. Ela o cobriu e, a partir disso, foi atrás das pistas que ficaram expostas. A imprensa às vezes se comporta como se fosse a ponta de lança de interesses partidários, eu sei, mas não me parece que isso defina o núcleo do momento presente. Portanto, eu também não diria, como se lê na sua pergunta, que ‘a imprensa está no centro da disputa política’. Pelo menos eu não diria somente isso. Ao lado disso, talvez se pudesse dizer também que a disputa política hoje tem lugar também no centro da imprensa. É uma outra maneira de enxergar o mesmo fenômeno.


Eu sei que, ao falar desse modo, dou a muitos a impressão de ingenuidade política, de não considerar os ‘componentes de classe’ que estão presentes na mídia, as elites, tal e coisa. Se me permitem, acho que a ingenuidade está do outro lado, está junto com a mistificação. Dediquei uns 15 anos da minha vida profissional à crítica da mídia. Estudei o tema e o debati em todos os lugares. Estou bastante seguro para dizer que essa história de ‘componentes de classe’, nesse momento, não tem sido invocada por análises mais cuidadosas, mas serve, isto sim, como recurso para lançar uma cortina de fumaça que, a pretexto de apontar inflexões ideológicas na imprensa, com generalizações forçadas, procura atenuar as falhas elementares e gritantes de quem mais deve estar em exame neste momento: os agentes políticos, seus vínculos com o dinheiro podre vindo do mercado ou da área pública, e os corruptores instalados na iniciativa privada, corruptores de grande porte. A imprensa padece de muitos males, sem dúvida, mas agora não é ela o problema central da crise brasileira. São os políticos e seus corruptores. Os políticos e seus corruptores devem ser examinados. De todos os partidos. Insisto: de todos os partidos.


A imprensa cobre os fatos com as ferramentas de que dispõe, com a competência de que dispõe. Comete violências que precisam ser combatidas e sanadas. A cobertura poderia ser melhor? Claro que poderia, mas também poderia ser tragicamente pior, e sobre isso é que devemos prestar atenção: ela poderia não noticiar o que noticiou – e isso seria muito, muito pior. Não nos esqueçamos disso.


Se vista como instituição, e não apenas como um conjunto de veículos dispersos, a imprensa aparece nesse filme como um sujeito empenhado no cumprimento do seu dever. Ela terá de responder pelos seus erros, junto ao seu público, mas na grande maioria das vezes cometeu esses erros na busca do cumprimento do dever. Qualquer outra generalização que não essa é bastante perigosa. Toda crítica ao jornalismo precisa preservar a instituição da liberdade de imprensa e saber concentrar-se em casos específicos e circunstanciados. Zelar pela liberdade de imprensa é também um dever dos governantes e das autoridades em todos os níveis.


Alegam que a mídia tem traços antipetistas. E daí? Há antipetismo na mídia? Claro que há. Mas a história demonstrou que também havia antipetismo delinqüente instalado na cozinha do próprio PT. Hoje isto é claríssimo. Há preconceito contra o presidente Lula? Sim, há. Mas também há preconceito contra muitos outros, até mesmo contra Geraldo Alckmin, que foi atacado por sua opção religiosa. Ou isso não é verdade? Ou isso não aparece? (A propósito: denúncia contra Alckmin é o que não falta na imprensa.) E também não havia preconceito contra a origem árabe de Paulo Maluf? Em matéria de preconceito, tem para todo mundo.


Há partidarismo na mídia? Claro que há, e isso é ruim. Mas ele não é um só, são vários. Poderíamos ter mais veículos à esquerda? Acho que sim, mas nós não fomos, até hoje, competentes para criá-los. Os veículos de esquerda, na média, são ruins. Digo isso com bastante tranqüilidade, pois participei de vários; se quiserem, digo que a culpa também é minha.


A esquerda no Brasil ganhou prefeituras, governos, até a presidência da República. Está longe, muito longe de ser o que se pode chamar de vítima. O PT não pode querer se comparar à frágil Escola Base, embora alguns tenham tentado esse truque de retórica. Ao contrário: a esquerda (que é mais ampla que o PT) é uma força política mais do que considerável, tem base social, tem presença na vida cotidiana, e não foi competente para criar veículos de imprensa atraentes, competitivos, criativos. Há um descompasso aí, é claro que há. Se hoje há mais vozes à direita do que à esquerda na imprensa (e isso também é discutível, mas admitamos como fato para efeito de raciocínio), isso não pode ser creditado (ou debitado) à vilania perversa das classes dominantes e toda aquela ladainha. Sinto muito, mas as razões estão em outro lugar. Talvez elas estejam dentro dos próprios quadros da tal esquerda. O governo, o PT, a esquerda não são vítimas, não podem reivindicar a condição de vítimas e não podem ser tratados como vítimas. Tratá-los assim é rebaixá-los. Nessa tragédia, pelo menos isso: somos todos gente grande. (E.B. é jornalista, presidente da Radiobrás e autor de Sobre ética e imprensa – Companhia das Letras, São Paulo, 2000)


Fernão Lara Mesquita – É uma necessidade. A definição de Walter Cronkite continua valendo: ‘A liberdade de imprensa não é algo importante para a democracia; ela é a democracia’, que é o regime do livre choque entre as diferenças, com prevalência das posições majoritárias mas com garantia de espaço para as minoritárias. É verdade que junto com o ouro que resulta do livre trânsito das informações vai todo o lixo da licenciosidade, do crime e do que mais transita por essa mesma grande estrada da informação. Por isso a liberdade de imprensa, tão essencial, pode ser vista também como um mal necessário. Ser livre é, também, correr mais riscos… Mas há muita confusão em torno dessas generalizações, e elas são manipuladas por gente de intenções nem sempre altruístas. Há que prestar atenção no que está por trás de cada grito em favor da liberdade de imprensa.


Não é esta, provavelmente, a conotação que a pergunta quis dar, mas há mesmo uma imprensa que está literalmente ‘no centro da disputa política’, e isto é muito negativo. A imprensa deve estar não no centro, mas no meio, como canal condutor do debate, fazendo a mediação entre representantes e representados; cumprindo o seu papel essencial de Quarto Poder, encarregado de vigiar os outros três que compõem as democracias.


Quando falo nesses órgãos que estão ‘no centro’ do processo político, refiro-me à exata sobreposição que existe entre os velhos ‘coronéis’ da política brasileira e os proprietários das repetidoras das grandes redes de TV aberta, especialmente no Norte e Nordeste, onde não há um mercado publicitário forte o suficiente para sustentar uma imprensa realmente independente. Nesses estados e regiões, existem verdadeiros monopólios de mídia, onde o dono da repetidora das redes é também dono da rede local de rádio e dos jornais regionais, que vivem principalmente de anúncios governamentais.


Esses ‘coronéis eletrônicos’, que ganharam suas concessões quando o senador Antonio Carlos Magalhães foi ministro das Comunicações do governo de José Sarney, vêm, desde então, se elegendo e reelegendo graças ao monopólio de comunicações que exercem em suas regiões eleitorais, e que sustentam com anúncios de seus próprios governos. Como todos têm mandatos ou influência legislativa, para manter suas repetidoras eles retribuem os donos das redes fazendo as leis que as TVs abertas desejam para evitar a concorrência e manter sua hegemonia mesmo nas regiões do país de economia mais avançada. Assim, perpetua-se esse esquema espúrio de dominação que explica muito das estranhas ‘múmias’ e ‘dinossauros’ da política que convivem com o Brasil moderno.


Falta uma lei para garantir a pluralidade das opiniões publicadas, não pela intervenção nos órgãos existentes, ou por sua transformação em painéis artificiais de múltiplas opiniões, mas impedindo a propriedade cruzada de vários meios e, assim, favorecendo a diversidade de propriedade dos meios e de convivência de meios diferentes em cada praça.


As modernas tecnologias que facilitam o acesso de qualquer um ao grande público estão ajudando nesse processo de democratização. E as redes estão fazendo um jogo pesado no Congresso para fechar o Brasil às tecnologias que mais abrem esses caminhos (na escolha do sistema de TV digital; nas leis de operação das TVs fechadas etc.). Mas a gritaria na web, que equivale às ruas e praças da aldeia global, não é suficiente para enfrentar a força dos gigantes da mídia profissional que hoje são donos dos rádios, dos jornais, das TVs, dos cinemas, dos teatros, dos artistas, dos ‘críticos’, das arenas esportivas, dos jogadores, dos governos – às vezes explicitamente, como na Itália – e sabe-se lá do que mais, em vários países e continentes, e assim controlam a pauta política e comportamental do mundo. (F.L.M. é jornalista e diretor do Grupo O Estado de S.Paulo)


Jaime Spitzcovsky – É ao mesmo tempo privilégio e risco. Privilégio porque a relevância da imprensa na crise atual serve como termômetro para evidenciar o avanço e consolidação da democracia no Brasil. Só há democracia com uma imprensa livre, atuante e crítica. Portanto, a minha leitura é de que prioritariamente podemos destacar esse momento como um privilégio. Mas também há riscos, como as tentativas de manipulação da imprensa por interesses específicos, o que costuma ocorrer com intensidade em momentos de grandes embates políticos. (J.S. é jornalista, diretor do site PrimaPagina, foi correspondente em Moscou de 1990 a 1994 e em Pequim, de 1994 a 1997, e realizou coberturas jornalísticas em mais de 40 países)


J.S. Faro – O fato de que a imprensa esteja no centro da disputa política tem mesmo essa dupla perspectiva: risco e privilégio. Risco, porque não temos uma grande tradição de coberturas isentas e imparciais sobre os fatos mais agudos da vida nacional, aqueles que tensionam a opinião pública e polarizam as posições políticas. Nessas questões, a imprensa brasileira invariavelmente reproduz partidarismos e se constitui em painel marcado por posturas que muitas vezes deixam de lado os pressupostos da objetividade e da imparcialidade. Há exceções, evidentemente; mas é possível perceber que o campo do jornalismo, nessas horas, mescla-se com o campo da política e o da economia elaborando uma construção da realidade cujos princípios encontram-se de alguma forma pré-estabelecidos pelas elites. Considero essa situação um risco pelas conseqüências que traz para a opinião pública e para o próprio amadurecimento da atividade jornalística.


No entanto, o fato de que a imprensa possa estar, como diz a pergunta, ‘no centro da disputa política’, apresenta um aspecto extremamente positivo: essa condição cobra dos jornalistas uma competição de prestígio social e de legitimidade de sua produção, o que significa uma busca permanente de aprofundamento da apuração e das abordagens, fato que relativiza o risco apontado anteriormente, isto é, a condição de constituir-se no núcleo em torno do qual se faz parte da política transfere autonomia para o repórter, mais do que poder para a empresa na qual trabalha. Os fatos recentes da política brasileira e a forma como a mídia os têm noticiado são indícios dessa minha expectativa. (J.S.F. é jornalista, professor da PUC-SP e da Universidade Metodista de São Paulo)


Juca Kfouri – Não concordo com a premissa, embora considere que se, de fato, vivemos este momento não estamos diante nem de um privilégio nem de um risco. Porque o jornalismo é, sempre foi e será permeado pela política. Não acredito em jornalismo que não queira melhorar a esquina, a cidade, o país, o mundo. (J.K. é jornalista)


Lúcio Flávio Pinto – Mais risco do que privilégio. Sou de uma geração de jornalistas que aprenderam uma regra básica do seu ofício: não somos personagens. Recorrendo ao método parabólico-metafórico do nosso presidente, diria que devíamos ser como um Antônio das Mortes, no filme de Gláuber Rocha. Nossa missão é colocar Deus e o Diabo no local do duelo direto, a Terra do Sol. Aí nos retiramos de cena para deixar que os verdadeiros – ou principais – atores da história a façam. Havia um desvio (ou viés) nessa diretriz: o jornalista se tornava irresponsável diante da própria história. Não vestia sua armadura de cidadão, com missão a cumprir independentemente (e além) do profissional. Mas nos impedia de incorporar como normal esse risco que, hoje, é considerado inerente à profissão: de afastar Deus e o Diabo do cenário e entronizarmos em nós uma condição que é própria dos protagonistas do cotidiano, dos atores sociais. Isso é muito ruim, sob esse aspecto. Está distorcendo na imprensa essa tendência ao mínimo eu que faz do próprio umbigo o consultor de tendências, costumes e hábitos sociais. Mas é bom sob outra ótica: podemos ser criticados, existimos em carne e osso.


Deixamos de ser ‘o jornalista’, figura mítica, metafísica, inatingível. Ora, apuramos fatos, acompanhamos acontecimentos e escrevemos sob condições dadas, reais. Não somos assexuados nem levitamos pelo Nirvana. As condições reais de produção do material jornalístico de alguma maneira influem no resultado, às vezes de forma decisiva. Temos que aceitar que o distinto público, nossa sagrada opinião pública, saiba como somos e como agimos. Somos de carne e osso, além de plenamente falíveis. Aceitando encarar a realidade, sem mistificações e triunfalismos, sob as vistas de todos (queremos controle social de tudo, menos do jornalismo), poderemos admitir a relatividade do nosso conhecimento, da nossa frágil condição de bem informados, de intermediários entre a história e a sociedade, entre o poder e o eleitor, entre a empresa e o consumidor, árbitros da agenda pública. Mas também exploraremos nossas possibilidades ao máximo, sem condescendência e autocomiseração, sem oscilar pendularmente entre a recusa primária e a submissão bovina à voz do dono, sempre a se apresentar com a voz das ruas.


O que podemos fazer não é muito, mas o pouco que fizermos bem, na velocidade dos deadlines jornalísticos, é essencial para que o país avance e melhore. Há uma lição na Bíblia que considero vital para o jornalismo: a verdade é que liberta. Somos os profissionais da verdade. Ela é nossa matéria-prima. Nem sempre ela circula no mercado, é exposta nas vitrines, é transparente ou redutível a um conceito. Mas ela existe objetivamente. Nossa missão é chegar o mais próximo da verdade e o mais dentro da verdade completa que nos for possível. Se ela não libertar, Deus e o Diabo que se defrontem na Terra do Sol para que aconteça – ou, como diria Lewis Carrol, desaconteça. (L.F.P. é jornalista e editor do Jornal Pessoal, de Belém, PA)


Márcio Chaer – Mais risco que privilégio. Ao simplificar a mensagem para atingir um público desinformado e que só se entusiasma com sensacionalismo, futebol, novela e religião e crenças imbecis – a imprensa está banalizando debates importantes. A mania de demonizar personagens (malufs, suzanes, collors, edemares, dantas, dirceus) desvia o foco do crime para se falar apenas do criminoso. A forma como a imprensa desprezou o princípio básico do direito de defesa (no caso do José Dirceu) mostra isso. Induz a crer que pessoas impopulares devem ser condenadas sem julgamento. (M.C. é diretor da revista Consultor Jurídico)


Osvaldo Martins – Informação é poder. Por isso, nos países democráticos, a imprensa sempre estará no centro da disputa política. Pode ser um privilégio, um risco, mas representa sobretudo uma enorme responsabilidade social. Por esse aspecto, o Brasil não pode se queixar da imprensa que tem. (O.M. é jornalista, ombudsman da TV Cultura de São Paulo)


Paulo Nassar – É um risco para a democracia. Principalmente quando a imprensa não é protagonista, mas peça mecanicista da indústria da manipulação. (P.N. é jornalista, professor da ECA-USP e presidente-executivo da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial)


Plínio Bortolotti – Se ela está ‘centro da disputa política’ por ser a ‘vista da nação’ (Rui Barbosa), é algo a comemorar. Se está ‘no centro da disputa política’ como se um partido fosse, devemos desconfiar. De qualquer modo, os dois extremos – e suas nuanças – sempre conviveram, não é marca exclusiva deste tempo. O grande problema, para além de uma ou outra distorção, é a propriedade concentrada dos meios de comunicação. Se isso pudesse ser superado, os outros problemas seriam menores. (P.B. é jornalista, ombudsman do jornal O Povo, de Fortaleza, CE)

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