Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > TV CULTURA, SÃO PAULO

Jornalismo público e interesses privados

Por Alberto Dines em 10/04/2006 na edição 376

A mídia comercial continua discutindo as observações de Osvaldo Martins, ouvidor da TV Cultura de São Paulo, sobre o telejornalismo diário da emissora da Fundação Anchieta e a sua ousada proposta para mudá-lo radicalmente ou então substituí-lo por uma programação jornalística diferenciada [ver ‘O que falta mudar‘].


É extremamente saudável que a mídia discuta a mídia, mas neste debate falta incluir questões cruciais:


** A função de um ombudsman é criticar, interessar o público e levá-lo a debater as questões que os veículos de comunicação normalmente mantém escondidas.


** A mídia eletrônica (rádio e TV), embora favorecida por um sistema de concessões que ninguém fiscaliza, jamais atendeu às pressões para estabelecer algo minimamente assemelhado a um diálogo com o seu público. A TV Cultura foi a única emissora a aceitar este desafio. Jornais (excetuando a Folha de S.Paulo) e rádios agarraram-se ao aspecto mais ‘apelativo’ do debate proposto por Osvaldo Martins e ignoram a questão crucial: nossos veículos têm medo de expor as suas mazelas. E agora se divertem discutindo as mazelas da única emissora sensível a seu compromisso com a transparência.


** Implícita na crítica pontual ao telejornalismo da TV Cultura está uma crítica ampla aos paradigmas do telejornalismo comercial que acabaram por dominar e distorcer a nossa forma de fazer jornalismo pela televisão. Ao recomendar um afastamento desses paradigmas, Osvaldo Martins deixou claro o que convém e não convém ao público telespectador brasileiro.


** Todo telejornalismo é público, cívico ou social. A diferenciação entre telejornalismo privado e ‘público’ foi habilmente explorada neste debate por aqueles que não estão interessados em desvendar as deficiências da nossa TV comercial, cada vez mais inclinada para coberturas superficiais, parciais e fragmentadas.


Estatais e corporativas


Luiz Weis mostrou neste Observatório da Imprensa a alternativa diária oferecida pelo Public Broadcast System (PBS, a rede pública americana), já que os padrões da BBC são inacessíveis [ver ‘Uma alternativa para o jornalismo da Cultura‘]. Mas a TV comercial argentina conseguiu um milagre ao levar os debates políticos para o horário nobre. Nossos hermanos não são suicidas, descobriram uma forma de manter o seu público informado através da discussão aberta. Apostaram no interesse público e foram recompensados.


Osvaldo Martins radicalizou para chamar a atenção para um problema grave, aflitivo. Há opções menos drásticas: tornar a Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec) numa rede jornalística efetiva, atuante, ágil, capaz de oferecer um noticiário efetivamente nacional e relevante (com a ajuda das emissoras de TV do Congresso).


Mesmo sem dispor de emissoras de TV verdadeiramente públicas (as nossas são estatais ou corporativas), é possível incrementar um telejornalismo alternativo, diário, quente.


O importante é manter o assunto na agenda.


[Texto fechado às 15h50 de 10/4]

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/04/2006 alfredo sternheim

    Dines, engano seu, a TV Cultura não pare ter interesse na transparência. Se tivesse, o ombudsman não estaria se queixando da falta de exposição. No início, o site da emissora permitia o ombudsman analisar todos os programas e o teleespectador expor a sua opinião, divergir, queixar.Foram muitos, por exemplos, os reclamos contra o programa da Popovic que contou com uma divulgação (out-dors)que outros programas da emissora não tiveram (o tele-teatro de comédia, por exemplo). E o Ombdusman era para toda a programação. Depois, ele foi ‘escondido’ e limitado a tratar só do telejornalismo. Se isso é vontade de ser transparente… A TV Educativa de SP parece perdida, sem rumo e sob um alto custo. Que nós,povo, pagamos. Por isso, mais do que qualquer outra emissora, precisa ser debatida. E os jornalistas precisam analisar mais profundamente essa programação,seus erros (música erúdita só depois da meia noite, por exemplo). Mas parece haver entre os jornalistas um certo temor em ir contra a emissora que tem, desde a sua fundação, uma proposta maravilhosa. É preciso novamente conciliar educação e cultura sem cair na modorra, no elitismo inutil (Le Journal, por exemplo).

  2. Comentou em 12/04/2006 alfredo sternheim

    Dines, engano seu, a TV Cultura não pare ter interesse na transparência. Se tivesse, o ombudsman não estaria se queixando da falta de exposição. No início, o site da emissora permitia o ombudsman analisar todos os programas e o teleespectador expor a sua opinião, divergir, queixar.Foram muitos, por exemplos, os reclamos contra o programa da Popovic que contou com uma divulgação (out-dors)que outros programas da emissora não tiveram (o tele-teatro de comédia, por exemplo). E o Ombdusman era para toda a programação. Depois, ele foi ‘escondido’ e limitado a tratar só do telejornalismo. Se isso é vontade de ser transparente… A TV Educativa de SP parece perdida, sem rumo e sob um alto custo. Que nós,povo, pagamos. Por isso, mais do que qualquer outra emissora, precisa ser debatida. E os jornalistas precisam analisar mais profundamente essa programação,seus erros (música erúdita só depois da meia noite, por exemplo). Mas parece haver entre os jornalistas um certo temor em ir contra a emissora que tem, desde a sua fundação, uma proposta maravilhosa. É preciso novamente conciliar educação e cultura sem cair na modorra, no elitismo inutil (Le Journal, por exemplo).

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