Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & LIBERDADE

Jornalista ou apoplético com diploma?

Por Heitor Reis em 08/07/2008 na edição 493

Mês passado, durante a posse da atual diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murillo de Andrade, disse algo assim:

‘Quem briga por diploma é a indústria gráfica! Nós queremos jornalistas de qualidade.’

Esta manifestação me parece com o tom um pouco diferente do que já vinha sendo dito anteriormente. Ela nos aponta para o fato de que o buraco é mais em cima, ainda que a entidade de classe continue com um discurso ainda muito próximo ao de sempre…

Venho abordando este assunto desde quando surgiu o debate não-democrático, maniqueísta e simplista sobre o Conselho Federal de Jornalismo, limitado a uma minoria dos envolvidos, com divisões dentro da própria categoria sobre o assunto, enfraquecendo-a diante do quase onipotente poder dos patrões, alguns dos motivos de seu fracasso até o momento. A sentença do STF sobre o diploma pode ter o mesmo resultado, também pelos mesmos motivos.

República de direito

A polêmica existente é sinal de que todos os argumentos sobre o assunto não foram devidamente digeridos pela partes envolvidas. E isto é desesperadamente ruim para todos, em qualquer assunto, como no aborto, por exemplo.

Por outro lado, no caso específico do diploma, qualquer que for o resultado do STF, nada vai mudar no que realmente interessa, tanto para os jornalistas, quanto para o público que recebe as informações por eles tratadas, sob a mão de ferro dos capitalistas do setor. Estes estão a serviço dos grandes anunciantes, inclusive do governo, que administra um Estado privatizado por interesses de uma minoria. Uma República de direito, mas uma Reparticular de fato; uma democracia de direito, astronomicamente distante de ser uma democracia de fato. Mais detalhes em ‘Análise dos tipos de poder, ‘Sem conceituação não há revolução!, ‘Trabalhar na Globo é crimee ‘Rádios `piratas´: o que a Band esconde?

Caindo na prenstituição

Em Minas Gerais, Aécio Neves exerce a mais cruel ditadura da mídia, na qual não é veiculada uma única palavra contra seu governo, perseguindo qualquer comunicador que saia da linha. O PT se tornou cúmplice deste despotismo, ao buscar aliança com o governador. Mais detalhes no manifesto do Sindicato dos Jornalistas e outros: ‘O ditador das Gerais‘, ‘Liberdade, essa palavra‘ e ‘`Gagged in Brazil´ – Censura na imprensa

Em todo o país, um inconstitucional e impune oligopólio da mídia que manipula a informação destinada a um povo composto por três quartos de analfabetos e semi-analfabetos. A fração dos analfabetos políticos, nos termos de Bertold Brecht, é ainda maior.

A universidade, de uma forma geral, e as faculdades de comunicação, especificamente, produzem meros autômatos para a engrenagem do lucro empresarial. São profissionais incapazes de pensar por si mesmos e dispostos a vender suas inconsciências para quem lhes pagar mais, caindo na prenstituição, tanto nos EUA, quanto cá [ver aqui].

Avanço qualitativo

Há exceções, sem dúvida, quase todos fora do grande sistema comercial, em tonalidades e profundidades variadas, como no caso do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Centro de Mídia Independente (CMI), Ciranda Internacional de Informação Independente, Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, Adital – Agência de Notícias Frei Tito, Fazendo Media, Observatório da Imprensa, CartaCapital, Carta Maior etc., com mais alguns outros gatos pingados trabalhando de forma independente na internet, entidades de classe, rádios e televisões comunitárias, porém com público reduzido.

Lamentavelmente, ainda está muito distante o dia em que estas exceções se unirão para formar um Sistema Popular de Comunicação com força suficiente para enfrentar os capitalistas. A cada Fórum Social Mundial, há um novo impulso neste sentido. Ano que vem, a gente se vê em Belém!

O I Fórum de Mídia Livre está procurando novos conceitos, tese defendida ali por Ivana Bentes, Diretora da ECO – Escola de Comunicação da UFRJ, mês passado, para meu mais profundo deleite intelectual, político e social, cujo vácuo promovido por este avanço qualitativo abriu caminho para minha exposição, amplificando o tema que encontrou boa guarida entre os presentes.

Omissão, manipulação ou diletantismo

Ali se busca uma definição para o que seja realmente uma mídia livre, já tendo incorporado o mote que nos lembra os velhos gregos com ‘Mente sã; corpo são!’ ‘Mente livre; mídia livre.’

Mencionei ali a quase absoluta dificuldade de se encontrar um estudante ou jornalista formado que já tivesse refletido seriamente sobre o Brasil ser uma democracia ou não, o que seria um verdadeiro governo do povo, um governo dos ricos (plutocracia), um governo dos corruptos (cleptocracia), uma ditadura do poder econômico ou uma corporocracia. Os vídeos do evento estão disponíveis aqui.

Todos que têm espaço na grande mídia (e muitos dos que não têm também) vivem repetindo que houve uma redemocratização no país, que as instituições da República funcionam plenamente etc., como um dogma papal, um mantra, gerando uma matrix da qual raros conseguem escapar [ver aqui].

O verdadeiro jornalismo, o jornalista de fato e a mídia realmente livre divulgam, com a freqüência e ênfases adequadas, idéias, fatos, pessoas e organizações que os poderosos se esforçam para esconder, minimizar ou criminalizar. O resto é assessoria de imprensa, omissão, manipulação, entretenimento ou mero diletantismo filosófico.

Não vão largar o osso

Sem mudarmos a forma de ensino das escolas de comunicação, nada vai mudar porque elas continuarão clonando nas mentes de seus comunicadores a mentira, a apoplexia e a padronização que o sistema quer impor a todos para assegurar o lucro dos donos da mídia e dos donos do Estado.

Sem darmos liberdade para que o jornalista exerça verdadeiramente sua profissão, não precisando vender a alma para o patrão, para garantir a boquinha, nada vai mudar.

De que adianta um(a) imbecil se prostituindo com sistema, fazendo tudo que o verdadeiro jornalismo condena? Pouco importa se tem um diploma ou não. Se tem ou não o direito de se vender no mercado de mercenários para a comunicação?…

O(a) jornalista de fato é um funcionário público para produzir informações de interesse público e como tal deve ser tratado. E não o funcionário particular de uma organização inimiga do povo brasileiro. Não um robô, mero instrumento passivo para reproduzir fielmente os ‘Padrões de manipulação da grande imprensa‘, enganando o respeitável público.

Talvez a estratégia da Fenaj seja conquistar apenas esta insignificante migalha, diante da descomunal força de seus inimigos de classe, da limitada capacidade de organização da categoria e do povo brasileiro.

Os donos da mídia jamais permitirão que este país seja uma democracia de verdade, aceitando a democratização da comunicação.

Quem nos assegura isto é a própria entidade: ‘Sem democratizar a comunicação, não haverá democracia no Brasil‘.

Os senhores do Estado ‘oligárquico e autoritário’ (Marilena Chauí) somente largarão o osso com muito derramamento de sangue ou com uma ação nos termos de Mahatma Gandhi (não-violência ativa), ambas alternativas extremamente distantes da cultura de nossa república das bananas e dos bananas.

O jeito é ir comendo pelas beiradas…

******

Engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e em defesa dos Direitos Humanos, membro do Conselho Consultor da Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (CMQV)

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/07/2008 Alcimir Antonio do Carmo

    Sergio Murillo e toda a FENAJ, lucidamentes, defendem a formação dos jornalistas! Quando menciona que a questão do diploma é para a indústria gráfica, óbvio que faz uma ironia. Por que, claro, quem tem interesse em imprimir e produzir certificado em escala é a indústria gráfica. A Fenaj tem a preocupação com a formação e isso não se limita ao papel físico pura e simplesmente! Quanto a questão do Conselho Federal, que muitas profissões têm e por isso com condições da avaliação dentre seus profissionais, infelizmente, foi mal-interpretado pelos coleguinhas, os lacaios, especialmente aqueles que estão a serviço do patronato. Óbvio que o empresariado carrasco quer a situação de quanto menos regulamentação, melhor! Os patrões querem mesmo decidir quem pode ou não ser jornalista e formá-lo com a sua formatação ideológica e mercantil. Duro mesmo é ler artigos como este, de alguém da pseudo-esquerda, e que chega a ser ingênuo, porque afirma que com eventual decisão do STF, no sentido do fim da formação acadêmica específica, não haverá prejuízo para os jornalistas e para a informação. Os patrões agradecem manifestações medíocres e ingênuas como essa! O fato é que o jogo é bruto porque os interesses são bilionários e se tiverem ‘coleguinhas’ – em geral os muito bem remunerados tanto nos grandes veículos quanto no governo – em defesa da sua causa, mas, travestidos de democratas, melhor!

  2. Comentou em 11/07/2008 Alcimir Antonio do Carmo

    Sergio Murillo e toda a FENAJ, lucidamentes, defendem a formação dos jornalistas! Quando menciona que a questão do diploma é para a indústria gráfica, óbvio que faz uma ironia. Por que, claro, quem tem interesse em imprimir e produzir certificado em escala é a indústria gráfica. A Fenaj tem a preocupação com a formação e isso não se limita ao papel físico pura e simplesmente! Quanto a questão do Conselho Federal, que muitas profissões têm e por isso com condições da avaliação dentre seus profissionais, infelizmente, foi mal-interpretado pelos coleguinhas, os lacaios, especialmente aqueles que estão a serviço do patronato. Óbvio que o empresariado carrasco quer a situação de quanto menos regulamentação, melhor! Os patrões querem mesmo decidir quem pode ou não ser jornalista e formá-lo com a sua formatação ideológica e mercantil. Duro mesmo é ler artigos como este, de alguém da pseudo-esquerda, e que chega a ser ingênuo, porque afirma que com eventual decisão do STF, no sentido do fim da formação acadêmica específica, não haverá prejuízo para os jornalistas e para a informação. Os patrões agradecem manifestações medíocres e ingênuas como essa! O fato é que o jogo é bruto porque os interesses são bilionários e se tiverem ‘coleguinhas’ – em geral os muito bem remunerados tanto nos grandes veículos quanto no governo – em defesa da sua causa, mas, travestidos de democratas, melhor!

  3. Comentou em 09/07/2008 Roberto Ribeiro

    O texto é muito confuso. Qual a tese defendida pelo autor? Quais as provas e contra-provas? Está muito mal redigido, ou eu sou uma anta batizada.

  4. Comentou em 18/05/2006 SERGIO MARIO CAPORASSO

    Gostaria de saber o quanto a Petrobrás e a inústria petroquímica aumentou no período militar. Temos a impressão que no período militar o Brasil deixou de existir, ficando apenas militares comandando o nada. Ninguém fala de realizações deste período, somente o que de ruim aconteceu. Não há mal que nunca acabe e nem bem que sempre dure. Portanto…

  5. Comentou em 18/05/2006 SERGIO MARIO CAPORASSO

    Gostaria de saber o quanto a Petrobrás e a inústria petroquímica aumentou no período militar. Temos a impressão que no período militar o Brasil deixou de existir, ficando apenas militares comandando o nada. Ninguém fala de realizações deste período, somente o que de ruim aconteceu. Não há mal que nunca acabe e nem bem que sempre dure. Portanto…

  6. Comentou em 11/08/2005 Ana Cristina Amorim Araujo

    Gostaria de saber a respeito de uma pessoa que diz ser um dos seus jornalistas, o nome dele é Paulo Snaches Filho, caso tenham alguma observação favor me enviar.

    Cristina

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem