Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > IMPRENSA ÁRABE

Jornalista perde emprego por crítica ao governo

24/04/2006 na edição 378

Em artigo publicado no Washington Post [15/4/06], o jornalista Fawaz Turki faz um desabafo sobre sua demissão do diário em língua inglesa Arab News, da Arábia Saudita, e sobre a censura governamental à mídia praticada em países árabes. Embora tenha trabalhado durante nove anos como colunista da página editorial do Arab News, e tenha sido citado amplamente na mídia americana e européia, as críticas feitas por Turki ao governo de seu país lhe custaram o emprego no jornal.

‘Eu cometi um dos três pecados capitais que um jornalista árabe deve evitar quando trabalha para a imprensa árabe: critiquei o governo’, relata ele. ‘Os outros dois? Colocar em discussão o Islã e criticar, citando os nomes, líderes políticos no mundo árabe ou islâmico por seus excessos, falhas e abusos’. Segundo Turki, um repórter deve obedecer estas proibições para manter o emprego em um jornal árabe. ‘E se escrever é a única maneira de você sobreviver, você acaba participando do jogo seguindo as regras estabelecidas para você’, afirma. A carreira de um profissional da imprensa árabe, relata o jornalista, pode ser arruinada com um simples telefonema de um funcionário do governo, de um imã fundamentalista, ou ainda de um diplomata de uma embaixada árabe ou muçulmana.

Turki revela que, se o repórter tiver sorte e o editor da página editorial apreciar seu trabalho, é possível que ele tente agir a favor do jornalista nos bastidores – também correndo o risco de perder seu emprego. Mas, mesmo assim, depois de três advertências, o repórter perde o emprego. No caso de Turki, ele criticou o líder egípcio Hosni Mubarak, que reprimiu ativistas de direitos humanos há alguns anos. Depois, o jornalista pediu a renúncia de Yasser Arafat do cargo de chefe da Autoridade Palestina, após os fracassos nas negociações de Camp David para tentar um acordo de paz entre Israel e a Palestina. Sua última provocação – que lhe custou o emprego – foi ter escrito sobre as atrocidades que a Indonésia cometeu durante sua ocupação no Timor Leste, de 1975 a 1999. ‘Você não escreve sobre atrocidades cometidas por um governo islâmico – mesmo se elas já estiverem documentadas em livros de história – e espera sair bem desta’, afirma Turki.

A importância da democracia

Embora a atual administração americana esteja se esforçando para ‘apresentar’ a democracia a países árabes, Turki acredita que os árabes ainda não entenderam que uma imprensa livre é um imperativo moral em uma sociedade democrática. ‘Corromper a mídia livre significa corromper o direito sagrado do público de estar informado e o papel tradicional da imprensa de expor os fatos’, afirma. ‘O que os árabes têm de aprender é que os jornais não são publicados para promover as preferências políticas de seus proprietários, ou o comentário de analistas submissos que fecham os olhos ao abuso do poder de líderes políticos’, comenta.

Turki afirma que, para muitos cidadãos que se consideram ‘jornalistas’ no mundo árabe, a responsabilidade com a verdade e a lógica tornou-se irrelevante. Neste contexto, ele afirma que o jornalista que escreve sobre teorias conspiratórias – como alegações de que os ataques do 11/9 foram resultado de trabalho de agentes israelenses e que a morte da princesa Diana foi um plano diabólico da inteligência britânica, que preferiu vê-la morta a casada com um muçulmano árabe, dentre outros – é visto como um exemplo de repórter perspicaz.

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