Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Jornalistas à beira de um ataque de nervos

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 23/05/2008 na edição 486

No encontro ‘Assises internationales du journalisme’, que terminou na sexta-feira (23/5), em Lille, os jornalistas franceses falaram principalmente das relações entre o poder e a mídia – uma preocupação permanente, quase uma obsessão, depois da eleição de Nicolas Sarkozy.


O encontro não tinha como tema essas relações perigosas. Girava em torno da pergunta provocativa ‘Para que serve um jornalista?’ Mas o poder e a mídia viraram um assunto recorrente desde o ano passado e o tema se impôs no debate.


Depois de viver uma lua-de-mel com uma imprensa condescendente, quando não francamente entusiasta, Sarkozy começou a expressar suas queixas. Em maio, ele foi explícito: citou vários órgãos de imprensa escrita que, a seu ver, não cobriram suficientemente a condenação de Ségolène Royal no processo trabalhista movido por algumas de suas ex-colaboradoras.


Desde que foi eleito, Sarkozy é assunto de todas as conversas. Seja para elogiá-lo (cada vez menos) seja para criticá-lo (cada vez mais), os franceses são invadidos pela onipresença do presidente. A tal ponto que naquela sexta-feira, o encontro internacional de jornalistas de Lille teve um debate público cujo tema era ‘Nicolas Sarkozy e nós’.


Pouca reflexão


Exagero? Nem um pouco. No ano passado, uma associação propôs um dia sem Sarkozy, quando o nome dele não seria pronunciado em nenhuma emissora de rádio e televisão. Esse sonho de militantes anti-sarkozystas não funcionou pois o hiper-presidente se impôs ao noticiário.


Um dos participantes do debate ‘Nicolas Sarkozy e nós’ era o jornalista Philippe Ridet, que cobriu toda a campanha do então candidato a presidente para o Le Monde e escreveu o recém-publicado livro Le Président et moi. Catherine Pégard, ex-jornalista de uma revista semanal e atual conselheira do presidente da República, e Airy Routier, redator da revista Nouvel Observateur, eram os outros debatedores.


Routier é o autor da matéria sobre um suposto SMS [short message service, mensagens enviadas por celular] do presidente à sua ex-mulher, Cécilia, às vésperas do casamento com Carla Bruni, no qual Sarkozy teria escrito: ‘Se você voltar, anulo tudo’. Sarkozy não somente desmentiu como abriu um processo contra a revista. Desistiu de processar o Nouvel Observateur e se justificou por intermédio de um artigo de Carla Bruni no Le Monde, no qual ela aceitava o pedido de desculpa do jornalista mas criticava com elegância e erudição o jornalismo que interfere na vida privada dos homens públicos.


As relações da imprensa com o poder podem ser resumidas na frase de um dos organizadores do encontro internacional de Lille: ‘Os jornalistas têm dificuldades de encontrar a distância certa com Nicolas Sarkozy. Ele se movimenta demais, controla demais a comunicação do governo, põe muita emoção e vida privada em jogo’.


Por isso, uma das principais mesas-redondas de debates girava em torno da questão de como os jornalistas podem exercer o papel de contrapoder de forma permanente, quando a estratégia de comunicação dos políticos – e sobretudo do presidente – tenta impor um ritmo que não deixa tempo para a reflexão e a checagem da informação. Ao mesmo tempo, eles reconhecem que a ‘marca’ Sarkozy ajuda a vender espetacularmente as revistas semanais e mesmo os jornais diários em grande crise de leitores.


Relógio de ouro


Reclamar desse presidente marqueteiro virou quase um esporte nacional dos jornalistas. Eles o criticam mas sabem que ele e os que circulam em torno dele (Cécilia, Carla, por exemplo) vendem revista e jornal.


No ano passado, de acordo com o jornal Le Monde, o presidente foi responsável pela venda de 110 milhões de revistas a mais em relação ao ano anterior. Obviamente, nem todas as reportagens tratavam da política e economia do novo governo, muitas das revistas que as publicam são assumidamente people (como os franceses chamam as revistas de celebridade) e expõem Carla e Cécilia na capa como poderiam dar uma foto de Alain Delon, Catherine Deneuve ou de astros e estrelas da televisão.


A primeira entrevista exclusiva da primeira-dama Carla Bruni à revista Express foi um recorde de vendas, 600 mil exemplares, superando o recorde anterior, o número dedicado à morte de Mitterrand.


Os personagens políticos – Sarkozy na primeira fila – estão passando por um processo de ‘peoplelização’ com o qual os franceses custam a se acostumar. O presidente bling-bling, cujos sinais exteriores de luxo não se resumem ao Rolex de ouro e aos óculos ray-ban, é onipresente na mídia e tenta estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Ele é um prato cheio para chargistas que o mostram fazendo seu trabalho, o do primeiro-ministro e o de todos os ministros.


Ataques do poder


Um personagem como esse não poderia deixar de interessar aos psicanalistas.


Um deles, Serge Hefez, acaba de lançar o livro La Sarkoze obsessionnelle (parafraseando a expressão ‘névrose obsessionnelle’, neurose obsessiva). Ele afirma que o presidente tenta hipnotizar o povo contando permanentemente uma história bonita, num processo chamado pelo escritor Christian Salmon de storytelling. Para ele, a França elegeu um assunto e não um presidente.


Segundo Hefez, é preciso perguntar por que os franceses o deixam se tornar o personagem central de suas vidas, como ele atesta no seu consultório de psicanálise. Hefez tenta uma explicação:




‘Existe nele um culto do ego muito forte, uma maneira de pôr em primeiro plano seu destino individual antes de tudo, esse lado de uma exibição do seu gozo. Com ele, estamos na onipotência: faço o que quero, quando eu quero. É um hipernarcisista que mostra um espelho a uma sociedade de narcisos’.


O diagnóstico da invasão do personagem Sarkozy na mídia e na vida individual dos franceses está feito. O problema é que o personagem vem mostrando seu desgaste. Sua popularidade está em queda livre e os movimentos de greve e contestação das reformas que ele lançou pipocam cada vez mais fortes.


Serge Hefez acha que isso prova que os franceses saíram dessa espécie de fascinação e exigem outros valores diferentes dos que Sarkozy está tentando impor.


Os jornalistas reunidos em Lille prometiam finalizar o encontro com um código para regular a ética e a qualidade da informação. Além disso, contam criar um conselho da ordem associando profissionais, editores e cidadãos.


Eles precisam se defender dos ataques do poder, pois Sarkozy quer legislar sobre as fontes dos jornalistas. Mas isso é uma outra história.

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