Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > OI NA TV

Lance!, uma década driblando pressões

Por Lilia Diniz em 21/11/2007 na edição 460

O Observatório da Imprensa na TV exibiu na terça-feira (20/11) uma entrevista de Alberto Dines com Walter de Mattos Junior, presidente do jornal Lance!. O diário de esportes, que completa dez anos neste mês, é o maior da América Latina e emprega mais de cem jornalistas. Circula nas principais capitais do país e tem três edições diferentes – no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais. A conversa foi gravada na redação do jornal, no Rio, no dia em que os funcionários comemoraram o aniversário da publicação. Os jornalistas Juca Kfouri, Milton Coelho da Graça, Caio Maia; o presidente do Flamengo, Márcio Braga, e publicitário Armando Strozenberg gravaram entrevistas que foram exibidas ao longo do programa.


Para o presidente do Lance!, o sucesso da publicação é fruto do trabalho e do otimismo. ‘A impressão é de uma pequena travessia no deserto. Você não sabe se vai chegar do outro lado, mas não tem alternativa a não ser caminhar’, disse. O fato de o esporte ter um público segmentado e um atrativo especial, principalmente para a juventude, também teria contribuído. Dines perguntou ao idealizador do jornal se o fato de ele ser economista, empresário, administrador de empresas e ‘jornalista por osmose’ facilitaria a gestão do Lance!.


Walter de Mattos confirmou que a formação profissional ajudou formular o conceito do projeto editorial e disse que uma equipe multidisciplinar é fundamental para a empresa ser bem-sucedida. Dines observou que Walter é hoje o único publisher da nova geração, conseguindo conciliar boa administração com ‘grande sensibilidade jornalística’. Para o presidente do Lance!, é essencial valorizar os fundamentos do jornalismo.


No início do projeto, Walter reuniu seis parceiros e, com o tempo, adquiriu as cotas dos demais acionistas. Ele disse que o jornal já nasceu independente e com um grande investimento financeiro. Não era ‘fundo de quintal’, tampouco um braço de uma grande empresa. O empresário contou que, para fundar o Lance!, comprometeu o que na época representava cerca de 80% de seu patrimônio pessoal. Isto teria mostrado aos sócios o seu grau de envolvimento com o projeto, pois era o maior investidor individual entre os participantes do negócio.


Apesar de ser cético em relação ao futuro de um veículo que circule apenas em mídia impressa, Walter de Mattos não acredita que o jornal em papel esteja condenado. ‘Tenho ouvido depoimentos absolutamente extraordinários. É só eu sair que alguém me conta: `Meu filho de 13 anos me surpreendeu ontem. Me pediu dinheiro e foi de bicicleta comprar o Lance! na banca. E ele tem internet e TV por assinatura´’, contou.


O futuro do jornal impresso e as novas mídias


O empresário não acredita que o jornal impresso irá desaparecer, mas observou que as novas gerações têm grande afinidade com a internet. ‘O papel tem a sua magia. Eu não acredito nas previsões catastróficas de que o papel vai acabar’, afirmou. Para ele, é possível sobreviver no papel, mas, com o tempo, cada vez mais projetos terão papel e online atuando de forma integrada. Só as receitas das duas áreas sustentariam uma produção jornalística de qualidade.


Dines perguntou a Walter se ser multimídia é a chave do sucesso, uma vez que o Lance!, além do impresso, está presente também na internet, onde veicula uma TV e uma rádio. Walter comentou que o que nos anos 1990 eram um ‘charme’, hoje é uma necessidade, principalmente por causa dos jovens leitores. E ponderou que internet atualmente não é ‘só texto e foto’: é preciso acompanhar a evolução das notícias pelo telefone celular.


A credibilidade do jornal, voltado para uma área onde interesses escusos são freqüentes, também foi abordada na entrevista. ‘Uma publicação tem que ter uma alma. Essa alma tem que ser minimamente reconhecida pelos leitores. Isso dá força ao projeto’, afirmou. Walter de Mattos defendeu a tese de que o futebol poderia representar metaforicamente a construção de um novo país, devido à sua importância e penetração em todas as camadas sociais. E lamentou que a Justiça no esporte esteja atrasada e ainda aplique poucas punições.


Pressões externas


Alberto Dines perguntou como ser combativo e escapar das pressões. Walter disse que o Lance! trabalha para o torcedor e está alinhado com o interesse do leitor, para quem deve satisfação. E deu exemplo de duas formas como o jornal é pressionado: como operação jornalística e no aspecto empresarial. Na primeira, contou que os repórteres do Lance! são proibidos de ter acesso a informações da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) passadas fora das entrevistas coletivas. Para ele, a CBF utiliza outros veículos para ‘escoar’ as notícias.


‘Mesmo jornais que apresentavam uma postura mais crítica, como O Globo, no Rio de Janeiro, infelizmente tem dias que parecem o newsletter da CBF. Não no sentido da opinião, mas nos sentido de ser um escoadouro de todas as notícias que a CBF quer divulgar para o público’, comentou. Para ele, chama a atenção que este fenômeno tenha começado a ocorrer em paralelo com um esmorecimento da postura crítica daquele jornal. Já a Folha de S.Paulo teria uma postura mais combativa, porém errática. Na mídia eletrônica, segundo ele, ‘não há jornalismo e crítica em relação à CBF’.


Um exemplo de pressão empresarial é posição da empresa Nike, de artigos esportivos, de não anunciar no Lance! por pressão da CBF, ‘Eles tinham um crédito aqui e nem botar anúncio de graça eles quiseram para não ofender o grande monarca do futebol brasileiro que é o Ricardo Teixeira’, criticou. Walter de Mattos disse que, individualmente, jornalistas de grandes órgãos mantêm postura crítica.


Em relação às pressões exercidas pelos clubes, o empresário citou a proibição à entrada dos jornalistas do Lance! no Vasco da Gama imposta pelo presidente do clube, Eurico Miranda, e disse que já houve casos de coação física. Líderes de torcida, manipulados por dirigentes, teriam ameaçado jornalistas. Por orientação do jornal, repórteres estariam entrando disfarçados no clube.


Corrupção no esporte


Dines abordou a situação do clube paulista Corinthians, envolvido recentemente em uma série de escândalos. Walter de Mattos disse que torce muito para que a situação do clube seja revertida e que não acredita ‘nesse modelo de administração de clube de futebol associativo com dirigentes amadores’. Para ele, essa era acabou. Os clubes têm de ser geridos como empresas, pois os dirigentes amadores teriam ‘amor à camisa’, mas muitas vezes deixariam o profissionalismo de lado. ‘O nosso problema é incompetência e corrupção. E o modelo errado’, disse. Walter lamentou a falta de formação do jornalista esportivo para investigação, pois é preparado apenas para ‘apreciar a arte e a beleza do esporte’.


O entrevistador criticou o fato de a cobertura dos casos de corrupção no futebol estar restrita aos cadernos esportivos. E perguntou se as denúncias do Lance! motivam os políticos a fiscalizar mais o futebol. ‘A classe política dá pouca importância ao esporte em geral’, respondeu Walter. As exceções seriam o deputado federal Silvio Torres (PSDB-SP) e o senador Álvaro Dias (PSDB-PR).


Sobre a falta de cobertura de outros esportes fora o futebol, fenômeno recorrente na imprensa brasileira, Walter de Mattos afirmou que está ocorrendo uma mudança lenta e gradual no panorama. As demais modalidades precisariam de ajuda de empresas privadas para se firmarem e, conseqüentemente, ter maior presença na imprensa. Para ele, não é possível competir com o futebol. ‘Por que alguém vai botar uma competição de vela se ela vai dar audiência pequena?’, questionou. A solução para uma maior visibilidade seria a diversificação dos canais de mídia televisiva e a internet.


A Copa de 2014, que será realizada no Brasil, não poderá ser um evento meramente esportivo, advertiu o presidente do Lance!. O evento precisa ser pensado como um ‘meio’, não um ‘fim’. Projetos de transportes, telecomunicações e recuperação do Rio de Janeiro teriam que estar na pauta. ‘Espero que a gente possa fazer isto com transparecia, com controle social. Não fechado em gabinete’, disse. Os gastos públicos deveriam ser geridos com a participação da sociedade. Para Walter, o projeto da Copa deveria ser acompanhado desde o início pela Controladoria Geral da União (CGU), órgão do governo federal que fiscaliza como são gastos os recursos públicos.


TV digital


‘Os atuais detentores do poder de comunicação vão continuar sendo os detentores na fase digital’, criticou Walter de Mattos. O empresário tem planos de investir em televisão, mas alega falta de acesso aos meios de distribuição. Para ele, os donos de TVs, legitimamente, não querem novos concorrentes. Caberia ao Estado representar a sociedade e promover a diversidade e a pluralidade. O presidente do Lance! acredita que não está havendo debate público sobre o tema no Brasil.


Walter de Mattos também criticou a legislação sobre a produção de conteúdo no país e citou dois casos onde é anacrônica. A mídia impressa está sujeita à legislação que impõe que 70% do capital da empresa sejam de editor nacional (artigo 222 da Constituição Federal); já no tocante aos portais de notícia não há legislação sobre investimentos estrangeiros. Outro exemplo é a falta de leis para os canais de TV por assinatura. ‘Você não pode ter limitação nos jornais e nas revistas e na TV por assinatura, não’, criticou.


Dines finalizou a entrevista com perguntas sobre duas paixões suas: o time do América e o Rio de Janeiro. Para o presidente do Lance!, o América poderia ser uma ‘jóia’ em qualquer divisão porque tem paixão e história, mas não pôde garantir se ainda há espaço para o time na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Em relação à volta do Rio de Janeiro como base da imprensa nacional, o empresário garantiu que o estado não perdeu totalmente a importância como pólo gerador de cultura. ‘Eu vejo com otimismo o renascimento desta vocação’, disse.

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