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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Lição de geopolítica

Por Jô Amado em 22/05/2007 na edição 434

Com 30 anos de trabalho em jornalismo essencialmente dedicados ao noticiário internacional, pensamos, levianamente, entender alguma coisa de geopolítica. A recente leitura de um artigo escrito por Hussain Agha, professor da Universidade de Oxford, no Guardian Weekly (4 a 10/5/2007), trouxe-me, cabisbaixo, de volta à devida humildade.

O assunto em pauta era a invasão e ocupação do Iraque por tropas norte-americanas.

Como se sabe, trava-se, no Congresso norte-americano, uma queda de braço entre a maioria democrata, que quer um programa para a retirada das tropas do Iraque, e Bush Jr., que não quer. Para a maioria dos observadores, a posição dos democratas é a correta, e desejada.

Pois talvez não seja. O professor Agha enumera, metodicamente, as posições dos principais atores políticos no Oriente Médio, explicando por que são – todos eles – contrários a uma saída dos norte-americanos do Iraque. A saber:

** Arábia Saudita, Egito e Jordânia – São os três principais aliados norte-americanos entre os países árabes. Uma saída norte-americana do Iraque teria, no Oriente Médio, a conotação de uma derrota, o que, objetivamente, enfraqueceria seus regimes. Num Iraque liberto, se imporia, certamente, a maioria xiita e, muito provavelmente, se construiria uma aliança com o Irã. A presença das tropas dos EUA no Iraque, torna-se, portanto, fundamental.

** Síria e Irã – Enquanto estão atoladas no Iraque, as tropas norte-americanas não têm condições de embarcar em outra aventura militar de grande porte. Além do mais, caso eventualmente atacassem a Síria ou o Irã, suas tropas no Iraque se tornariam alvos fáceis. A presença dos EUA no Iraque, torna-se, portanto, uma garantia fundamental.

** Turquia – Com as tropas norte-americanas no Iraque, é certo que os curdos não conseguirão um Estado independente. Um Iraque liberto, de maioria xiita e aliado ao Irã, seria com certeza tolerante para com as aspirações curdas.

** Israel – A saída das tropas norte-americanas do Iraque seria catastrófica. Fortaleceria as posições do Irã e da Síria, principais inimigos de Israel e colocaria o próprio país sob ameaça concreta.

** Iraque – Divididos, os grupos políticos iraquianos ainda procuram consolidar suas forças e seus programas. Apesar da maioria xiita, não é o momento propício para um confronto. A presença das tropas norte-americanas adia o problema e permite a busca de um engajamento político mais sólido e profundo.

** Al-Qaeda – A organização cresceu com a ocupação das tropas norte-americanas. Além disso, para os sunitas, a presença das tropas norte-americanas impede uma tomada total do poder pelos xiitas.

Seria gratificante se os editores do noticiário internacional de nossos jornais lessem um pouco mais. Quem sabe, escapariam da rotina facciosa, parcial e medíocre que, objetivamente, em nada contribui para a informação.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/05/2007 Pedro José Sibahi

    Consequências catastróficas?
    Mas para quais interesses?
    Econômicos, norte-americanos, não?
    O debate não deve se ater à uma única visão, por isso concordo com o 1o comentário. A discussão se amplia.
    Mas na minha opinião o que foi exposto nessa matéria mostra o quanto os interesses de elites políticas e economicas tentam se sobrepor ao social.

  2. Comentou em 22/05/2007 JOSÉ ORAIR Silva

    Todas as razões apontadas podem ser verdadeiras mas o autor esqueceu-se do mais importante: Até quando a juventude americana estará disposta a trocar o seu sangue por petróleo? Muito embora não exista mais nos Estados Unidos o recrutamento obrigatório, e as vítimas da guerra sejam basicamente os jovens pobres das periferias, será muito difícil à sociedade americana suportar por um longo período de tempo uma guerra de desgaste contra um inimigo muito motivado e lutando em seu próprio território.

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