Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Limites da imprensa digitalizada

Por Luciano Martins Costa em 02/06/2014 na edição 800

Algumas mudanças produzidas no último fim de semana pelos jornais O Estado de S.Paulo e O Globo em suas páginas na internet oferecem a oportunidade para analisar como a tecnologia digital de comunicação e informação tem sido apropriada pelo jornalismo tradicional. Interessante observar que os dois veículos adotam lógicas diferentes para buscar um melhor aproveitamento das possibilidades oferecidas pelos novos meios, mas seguem reproduzindo o modelo que orienta as edições de papel.

O advento dos sistemas de edição multiplataformas, que permitem preparar o mesmo material jornalístico para ser distribuído de variadas maneiras, vem sendo apresentado nos últimos quatro anos como o principal avanço da imprensa em sua luta para sobreviver no ambiente hipermediado. Junto a praticamente todas as iniciativas anunciadas recentemente, pode-se ler a palavra “inovação” como uma espécie de mantra a invocar uma aura de vanguarda para essa indústria que se encaminha para a obsolescência. Mas nem tudo – ou quase nada – é realmente inovação no penoso processo de adaptação dos jornais.

Na apresentação do novo formato e das utilidades oferecidas em seu portal, o Estado de S.Paulo destaca uma melhora na organização do conteúdo e a oferta de mais recursos para compartilhar trechos de notícias nas redes sociais. No Globo, o destaque também é para a organização das informações, mas há uma predominância crescente de conteúdos audiovisuais, como resultado natural da dependência do jornal em relação à principal empresa do grupo, a TV Globo.

As mudanças evidenciam o drama de origem da inserção da imprensa nos meios digitais: os dois portais continuam parecidos com páginas de jornal digitalizadas, como no nascimento da internet. Entre os dois projetos anunciados no final de semana e comentados por leitores na segunda-feira (2/6), a principal diferença é que o Estado alargou a coluna da esquerda, onde aparecem as reportagens principais, e o Globo estreitou a coluna da direita, onde exibe os blogs e curiosidades, abrindo a coluna do meio de preferência para os vídeos.

Pouca novidade para tanta festa.

O papel da mediação

As mudanças apresentadas tentam dissimular o fato de que há um limite para a inserção de notícias na tela plana, que emula o jornal de papel. Há um grande desafio na necessidade de quebrar a lógica da informação linear, imposto pela natureza dos fatos, ou seja, a realidade que a imprensa tenta reproduzir não acontece num plano só, mas em múltiplas dimensões ao mesmo tempo, o que dificulta, se não impossibilita, sua organização de acordo com uma hierarquia fixa.

O recurso de criar planos variados com o uso de links que abrem novas janelas, mantendo a página principal disponível, ainda funciona bem em computadores, mas se torna problemático nos aparelhos móveis. A superposição de telas resolveria o problema nos aparelhos móveis, mas cria desconforto para o usuário – e conforto é essencial para quem digita num teclado virtual de poucos centímetros quadrados. Por outro lado, é preciso oferecer um cardápio variado ao leitor, para que ele constate a diversidade de informações, que deve ser valorizada num jornal.

O outro aspecto problemático se refere à abordagem que os dois diários dão à questão da interatividade. Na prática, o recurso que seus portais oferecem é o de compartilhar alguns conteúdos ou parte deles, pois, como se sabe, o acesso pleno é restrito a assinantes. Um punhado de serviços, como acesso ao Twitter para acompanhar, por exemplo, a situação das linhas do metrô, ou para observar o trânsito, tenta facilitar a conexão do sistema jornalístico com os serviços oferecidos por uma profusão de aplicativos para telefones celulares.

No geral, o que o Estado e o Globo estão oferecendo como novidade está presente nos serviços do UOL, que há mais tempo vem se desligando da lógica do papel e deixando a Folha de S. Paulo ao seu próprio destino.

Olhados em conjunto, os produtos resultantes do sistema multiplataformas nascido nos três principais diários de circulação nacional demonstram que o dilema é mais complexo: aquilo que costumamos chamar de imprensa tem que enfrentar o fato de que, numa sociedade hipermediada, o que está em crise é justamente o papel da mediação, não a mediação no papel.

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