Lixo em estado puro | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DA FOLHA

Lixo em estado puro

30/11/2009 na edição 565

Vamos criar uma igreja e deixar de pagar impostos? A manchete da Folha de S.Paulo de domingo (29/11) foi a mais comentada dos últimos tempos. Nem parecia ser o mesmo jornal que dias antes, na sexta-feira, produziu um lixo jornalístico dos mais repugnantes e que desde então está ocupando a seção de cartas dos leitores quase inteira.


A propósito da estréia do filme Lula, o filho do Brasil, a Folha publicou um depoimento do seu colunista Cesar Benjamin, dissidente do PT, a propósito de um comentário cabeludo feito há 15 anos pelo então candidato à presidência Lula da Silva (FSP, 27/11, pág. A-8).


Como foi constatado no dia seguinte, o comentário foi efetivamente feito mas em tom de troça, conversa de fim de expediente. A Folha rasgou e tripudiou sobre todos os seus manuais de redação, pisoteou 20 anos de trabalho dos seus ouvidores ao aceitar como verdadeira uma fofoca estapafúrdia sem qualquer diligência sobre a sua veracidade.


Não foi desatenção, erro involuntário, tropeço de um redator apressado: a Folha reservou uma página inteira para que o colunista contasse a sua saga nos cárceres da ditadura iniciada quando contava apenas 17 anos. Seu relato é impressionante, mas de repente, para desqualificar os 30 dias em que Lula passou no xadrez, Cesar Benjamin conta a sua anedota em três enormes parágrafos e com ela fecha o artigo.


Imprensa marrom


À primeira vista, parece mais um golpe publicitário da família Barreto (que produziu o filme), em seguida percebe-se que a denúncia é a vera, fruto de um ressentimento pessoal que um jornal do porte da Folha, que se assume ‘a serviço do Brasil’, não tem o direito de perfilhar.


A direção da Folha simplesmente não avaliou o tamanho do desatino. No dia seguinte, tentou consertar: mancheteou uma de suas páginas com o justo desabafo de Lula classificando o texto como ‘loucura’ (FSP, 28/11, pág. A-10). No domingo, certamente arrependida, a direção da Folha providenciou a evaporação do assunto. Ficou apenas a reprovação do seu ouvidor Carlos Eduardo Lins da Silva.


Tarde demais. Já no sábado (28/11) o Estado de S.Paulo repercutia o episódio com destaque e, no mesmo dia, a Veja já o incorporara à sua edição. O Globo manteve-se à distância desta porcaria.


Se o leitor não sabe o que significa ‘imprensa marrom’, tem agora a oportunidade de confrontar-se com este exemplo – em estado puro – do jornalismo de escândalos e achaques.

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/12/2009 carmen Vieira

    Dines, que surpresa me causou sua posição! Será que se o candidado a presidência, em 95, contasse uma ‘piadinha’ do tipo ‘negro quando não c… na entrada, c… na saída’ você chamaria o jornal e o articulista que contasse essa história de ‘lixo’? Mas uma atitude machista, retrógrada, que remete a uma virilidade autoritária, tosca é normal, até desejável para um ‘cabra macho’ que veio salvar o pobre povo abandonado pelas elites… Razão tem Caetano: o analfabetismo é muito mais grave quando é cultural…. Isso é tão arraigado na cultura brasileira, que já vimos esse filme no episódio do filho de FHC fora do casamento. As mesmas reações falsamente moralistas. Pobre América Latina católica e ignorante…

  2. Comentou em 01/12/2009 Eduardo Panda

    Ate em textos opinativos deve haver um codigo de conduta e etica. Nao assinar um texto mas dar publicidade a ele sob os auspicios da liberdade de opiniao e de imprensa deve vir acompanhado, mais ainda, de todas as cautelas possiveis para se evitar qualquer tipo de injustica. Muito mais quando se envolve um Presidente da Republica que e uma instituicao e que representa toda uma nacao, um pais.
    A Folha nao deu publicidade pelo oficio de bem informar, mas sim pelo desejo de denegrir ou degenerar a imagem de um Presidente com indices estratofericos de aprovacao. Deu mais um tiro na propria credibilidade (se e que ainda tem alguma nesta seara).
    Os contorcionismos que tentam justificar tal afronta esbarram numa pergunta: porque dar publicidade a algo sem a menor importancia, vez que os proprios detratores entendem que se esta conversa tenha ocorrido, ocorreu em forma de galhofa?
    Por fim, so o esgoto deu algum destaque a esta baboseira. Nem o Globo (ou a Globo) tocaram no assunto. Realmente, passaram dos limites!

  3. Comentou em 01/12/2009 Jorge Cid

    Acho inútil ficar dialogando com gente como o Sr. Angelo. Não é que ele acredite no Benjamin, ele acredita em qualquer coisa que denigra a imagem do presidente. Ele é leitor assíduo, e disso sou capaz de apostar duas décadas de vida, de Veja, FSP e Mainardi. Desminta ser for capaz, mas não pense que acreditaremos. Hoje no blog do Nassif existe texto excelente sobre as contradições do Benjamin da FSP e parte de sua biografia que mereceu anos atrás fazer parte em tese de Doutorado. Mesmo assim, o Angelo continua acreditar. Mas, entre a verdade e o que Benjamins, angelos e mainardis acreditam, de que lado ficamos?

  4. Comentou em 01/12/2009 Edison Lozano

    Sr Angelo, por favor leia a notícia direito. Não há depoimento algum do presidente, há uma denúncia falsa visando destruir sua imagem pública, coisa que Leandro Fortes não fez. Ao contrário de Benjamin, ele se limitou a contar a verdade: o filho bastardo (não-reconhecido) de FHc foi mesmo desterrado no bucho (ventre) da mãe. Você pode não gostar das palavras do missivista, pode até achá-las grosseiras, mas ele tão somente descreveu a realidade. É uma pena que a sua indignação com o linguajar alheio não seja tão grande quanto aquela diante de uma injustiça verdadeira, quando alguém é caluniado sem chance de defesa, tal como Lula foi e FHc não.

  5. Comentou em 30/11/2009 Angelo Azevedo queiroz

    Os comentários do senhor Marcelo Idiarte , reproduzem declarações de João Batista dos Santos e. Paulo de Tarso Santos .Nenhum dos dois desmente Benjamim. Um disse que não fala sobre o assunto, o outro diz que não se lembra. Já Tendler disse que ocorreu a conversa e confirma o conteúdo. Benjamim não mentiu e o único depoimento conclusivo é de Tendler que confirma a história de benjamim. Tendler acrescenta que , para ele, Tendler, aquilo foi uma brincadeira. Dines também não discute que Lula falou aquela barbaridade. Tendler disse que foi piada. Benjamim não entendeu assim. Dines compra a versão de Tendler.. Ora se Benjamim é um notório desafeto de lula, por outro lado Tendler é um notório companheiro de lula. Não é por aqui que vamos desqualificar um e qualificar o outro. Dines está sendo parcial, pois não tem elementos objetivos para afirmar quem está falando a verdade.

  6. Comentou em 30/11/2009 Marcelo Idiarte

    Paulo de Tarso Santos (que, segundo o próprio Benjamim, seria uma das três pessoas que teriam presenciado o diálogo fantástico): ‘Não compreendo qual a intenção do articulista em narrar os fatos como narrou (como disse, sequer me lembro de sua presença na mesa)’. http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,lula-reage-a-acusacao-de-violencia-sexual,473364,0.htm

  7. Comentou em 30/11/2009 Fernando Puga

    Obrigado Dines, por se manifestar a respeito deste episódio, e com esta veemência. Há tempos tenho observado que seus artigos tangenciam estes arroubos da imprensa marrom, mas desta vez não. Tu foi o Dines que eu admiro. Um abraço.

  8. Comentou em 30/11/2009 Celso Arantes

    Mais que indignado, fiquei triste. A Folha desceu ao fundo do poço. Uma vergonha. O canalha do ‘Otavinho’ deveria ser abolido do jornalismo brasileiro. É um irresponsável, moleque, inconsequente.
    Ele é o maior reprensentante da imprensa marrom. Parabéns pelo artigo Dines.

  9. Comentou em 11/12/2004 Omar Taha

    Tenho acompanhado a polêmica das indenizações milionárias aos ‘perseguidos’pela ditadura de 64 e este artigo esclarece bastante sobre a ótica destes premiados.

    No caso do escritor Carlos H. Cony, alguns detalhes chamam a atenção: o fato do valor ser milionário mesmo,o fato de Cony nunca ter aparecido durante os anos de chumbo como oposição – escrevia em revistas que funcinavam como porta-voz dos delírios ditatoriais da época , como era o caso da Manchete e , mais ainda, é o único que têm tido a coragem ou desfaçatez de vir a público defender esse tipo de locupletação…

    Se não recebeu nada ainda , Cony me desculpe !

    Mas seria de bom alvitre não receber. Seria um pouco mais engrandecedor para sua biografia , que vêm sendo tão bem trabalhada nestes últimos anos.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem