Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA E CRISE POLÍTICA

Lula ainda tem apoio do Le Monde

Por Leneide Duarte-Plon em 25/07/2005 na edição 339

Uma coisa é ler jornal e revista na internet, num país estrangeiro. Outra é estar no Brasil e ter o papel nas mãos, constatar o número de páginas destinadas a cada assunto, as opções da diagramação. A percepção de uma edição fica totalmente diferente.


Ao ver in loco, papel na mão, o espaço dado às denúncias de escândalos que envolvem o PT, fica-se impressionado com a desmedida. No sábado (23/3), a Folha de S.Paulo dedicou 12 páginas de seu primeiro caderno a declarações de Lula e aos desdobramentos dos escândalos. Não seria um exagero?


Infelizmente, esse tipo de edição não é exclusiva da Folha. Os outros diários, revistas semanais e jornais de televisão estão praticamente monotemáticos. ‘Quem lê tanta notícia?’, perguntaria Caetano Veloso. Quem suporta tanta lama? Até onde vai o masoquismo de se comprazer na própria desgraça?


Seguramente, esse gozo patológico em doses diárias é o que leva os jornalistas a minimizar a importância de notícias que revelam um mundo à beira do abismo para se ocupar exclusivamente das nossas mazelas paroquiais, com um zelo de caça às bruxas nunca antes visto no Brasil. Esse gozo que contamina os leitores talvez seja reforçado pela autodepreciação tipicamente brasileira : somos realmente nulos, o Brasil não passa de uma republiqueta de bananas.


Nivelando por baixo


O gozo é a conseqüência. Cabe perguntar-se o que pode levar a grande imprensa a esta cobertura desmedida das denúncias. Há quem sugira que o operário Lula jamais será digerido pelas elites, mesmo tendo assinado compromissos para governar segundo a cartilha do FMI e os interesses dos banqueiros nacionais e internacionais. Segundo esse raciocínio, as elites não perdoam ao metalúrgico o fato de estar sentado no ‘trono’, comunicando-se através de um discurso muitas vezes tosco.


Alguns membros dessas elites de ‘doutores’ não sabem sequer conjugar o verbo ser no subjuntivo, mas isso não impede que seus representantes liderem empresas, elejam-se para os mais diversos cargos e dirijam entidades de classes. Aliás, nesse significante pode estar a explicação do ódio que perpassa o noticiário da mídia brasileira: a luta de classes é um dado para entender nossa tragédia mais recente, que paralisa o país e nos faz andar para trás como caranguejos.


MV Bill, o excluído que virou músico, em entrevista publicada na CartaCapital desta semana deu uma pista:




‘Não me lembro desde que me conheço por gente, na história do país, de uma quantidade tão grande de desembargadores sendo exonerados, de pessoas importantes entre aspas, intocáveis sendo tocados, investigados e indo para a cadeia’.


E mais adiante:




‘Se a dona da loja está sendo acusada de algum tipo de banditismo, ela que se explique, como a gente tem de fazer nas favelas. (…) Quando vejo o mesmo aparelho e aparato destinado aos pobres sendo usado contra os ricos, começo a visualizar uma possibilidade diferente’.


Parte desse ódio que a mídia destila atualmente não seria uma reação da oligarquia instalada no poder há séculos contra a pretensão de alguns de pensar que a Justiça deve ser igual para todos? O que é isso senão a velha e sempre atual luta de classes? Mas apesar de filósofos como Jacques Derrida terem apontado a atualidade de Marx, virou quase uma obscenidade falar da luta de classes, no Brasil como na França.


Ao tentar provar que até mesmo o PT é corrupto, a imprensa não disfarça um grande deleite mas, perversamente, nivela a classe política por baixo. Nesse jogo perdemos todos, pois numa democracia é aos representantes do povo que cabe governar a coisa pública. Não podemos ter democracia sem políticos.


Defesa em editorial


Enquanto no Brasil o presidente Lula se defende e tenta dissociar seu nome da grave crise de seu governo, em Paris sua biografia ainda alimenta os sonhos de uma esquerda órfã de nomes carismáticos, que viam no metalúrgico brasileiro um ‘herói da esquerda latino-americana’. Foi assim que o definiu o jornal Le Monde no editorial do fim de semana seguinte à recente visita de Lula a Paris para as festividades do 14 de Julho, data nacional francesa [veja remissão abaixo]. O texto lembra que o PT não pôs fim à corrupção endêmica que reina no país e assinala que ‘o antigo operário metalúrgico tenta compensar por sucessos diplomáticos os problemas internos’.


Dias antes da publicação do editorial, a visita de Lula a Paris ganhara duas páginas inteiras no mais respeitado jornal francês, com chamada na primeira página. A visita oficial do presidente brasileiro no contexto do Ano do Brasil na França foi mais bem coberta pelo Le Monde do que pela imprensa brasileira, mergulhada até o pescoço na apuração dos episódios paralelos dos escândalos. Mas o jornal francês não poupou Lula: a matéria principal, assinada por Paulo A. Paranaguá, resumia todo o processo de denúncias e apurações de irregularidades no governo petista e tinha como título ‘A experiência Lula no Brasil está comprometida por casos de corrupção’. Outra matéria falava da decepção de eleitores de esquerda. Outras resumiam o noticiário dos encontros oficiais e shows de brasileiros.


Na noite de quarta-feira (13/7), depois de jantar com o prefeito de Paris, Lula e Bertrand Delanoë foram à Praça da Bastilha e subiram no palco onde se apresentavam, entre outros, o ministro Gilberto Gil, Gal Costa, Daniela Mercury, Lenine e Jorge Benjor. Lula foi ovacionado por cerca de 100 mil franceses e brasileiros. Bertrand Delanoë foi vaiado.


O citado editorial do Le Monde, intitulado ‘Lula depois da festa’, publicado quatro dias depois do baile na Bastilha, dizia que o presidente enfrenta, além das denúncias de escândalos, um outro front, do seu próprio eleitorado, decepcionado pelas promessas de campanha não cumpridas – como a redução das desigualdades sociais, a distribuição de terras e a reforma agrária, além do Fome Zero um tanto empacado.


Apesar de não esconder as dificuldades do governo Lula, Le Monde ainda aposta no operário que ‘há três anos representava em seu país como no estrangeiro a esperança de uma nova via entre a esquerda revolucionária sem prestígio e o liberalismo triunfante. Um segundo mandato não será demais para mostrar que o respeito à realidade [respeito às regras do FMI mencionadas um pouco antes] não rima necessariamente com o abandono das boas causas’.


Atualmente, só a imprensa estrangeira ainda faz editorial para defender a reeleição de Lula.

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