Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > TABLOIDIZAÇÃO DA IMPRENSA

Mais problemas do que soluções

Por Carlos Castilho em 16/01/2006 na edição 364

Acaba de ser publicado o primeiro estudo sobre as conseqüências da migração de um grande número de jornais europeus e norte-americanos para o formato tablóide, que durante anos foi associado ao jornalismo sensacionalista.

O estudo intitulado ‘Extra, Extra‘ foi produzido pelo Projeto pela Excelência do Jornalismo (Project for the Excellence of Journalism) para medir as conseqüências junto aos leitores de um fenômeno que está associado à crise do modelo de produção dos jornais provocada pela internet.

Os autores do estudo mostram que houve uma mudança na percepção do formato tablóide pela maioria do público. Ele já não é mais visto como sinônimo de imprensa marrom, mas continua intimamente associado à leitura superficial, rápida e impressionista.

A pesquisa comprovou que em 20 minutos um leitor de tablóide consegue entrar em contato com mais notícias do que o leitor de um jornal em formato standard (grande). Esta rapidez na leitura foi concebida originalmente para tentar reconquistar o público entre 20 e 35 anos que migrou para a internet mas o esforço não funcionou.

O informe ‘Extra, Extra’ constatou que o número de leitores jovens não cresceu significativamente no formato tablóide, que acabou roubando mais leitores ainda dos jornais convencionais. Este fenômeno imprevisto, mais a disparada dos preços do papel no mercado mundial, acabou levando alguns bastiões do formato standard, como The New York Times e The Wall Street Journal, a acelerar estudos para a redução de tamanho visando economizar papel.

Pouca notícia local

No fim do ano passado, a tonelada de papel para a imprensa chegou aos 650 dólares, quase 200 dólares a mais do que em 2002. Só entre setembro e outubro de 2005, o aumento foi de 11% na tonelada. Consultores como o norte-americano John Morton acham que, com os preços atuais do papel, a lucratividade dos jornais está chegando ao zero, caso não haja um aumento significativa na receita publicitária.

Mas a mudança de formato não se limitou a uma questão de economia ou de público-alvo. Os pesquisadores do Projeto pela Excelência do Jornalismo constataram que a preocupação com a rapidez de leitura acabou solapando as bases da credibilidade do noticiário. Nada menos que 74% das notícias publicadas nos tablóides norte-americanos pesquisados, inclusive as mais extensas, tinham apenas uma única fonte ou um único ponto de vista.

Outro fato que preocupou os autores do estudo foi a pouca importância dada ao noticiário local e comunitário, tido como um dos elementos cruciais para os tablóides recuperarem leitores perdidos para a web e a TV. Em média, apenas 22% das notícias publicadas tinham origem na região em que o jornal é editado. Ironicamente, os jornais standard dedicam em média 57% de seu espaço à informação local.

Estudo amplo

Pior ainda. Apenas 17% do noticiário publicado é produzido pela equipe de jornalistas dos tablóides. Nada menos que 73% das notícias são compradas de agências, enquanto nos jornais standard cerca de 93% do material é próprio.

Estes e outros dados levaram os autores do estudo a uma visão pessimista do fenômeno tablóide. Eles não chegam a afirmar taxativamente, mas fica claro que a mudança de formato, em vez de resolver problemas, acabou por aumentar os dilemas dos executivos da imprensa.

Os pesquisadores estudaram três tablóides distribuídos gratuitamente a usuários de transportes públicos, um tablóide para assinatura domiciliar e três jornais em formato standard em quatro cidades grandes dos Estados Unidos, entre abril e agosto do ano passado.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/01/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Excelente artigo. Já tinha tido a oportunidade de ler o mesmo no blog do autor. Sua reprodução é oportuna pois ontem o History Chanel passou um documentário sobre os ‘repugnantes’ tabloides americanos dos anos 20 e 30.

    Ao contrário de alguns especialistas, que admitem a hipótese de coexistência dos jornais tradicionais com a Internet, acreditamos que a extinção da mídia em papel é uma questão de tempobits. O processo de tabloidização dos grandes jornais pode ser apenas o prenúncio do fim de uma era. Desesperados os donos de jornal apostam no formato tablóide para tentar compensar suas quedas de vendas atingindo um novo público alvo. Mas isto não quer dizer que estão salvos do armagedon editorial.

    O estudo dos efeitos da Internet nos centenários tablóides ingleses pode nos dar uma clara idéia das tendências futuras. Além disto, não se pode desprezar o argumento econômico/ecológico. À medida que a exploração da madeira chegar ao limite, o preço do papel tenderá a subir de tal forma que a impressão de jornal se tornará economicamente inviável. A poluição produzida pela indústria de papel é um problema ecológico tão grave quanto o lixo diário produzido pelos jornais descartados. O movimento ecológico ainda não percebeu este nicho de atuação, mas num futuro bem próximo se tornará ecologicamente incorreto comprar jornal impresso.

    A fórmula encontrada pelos grandes jornais pode dar certo por algum tempo. Mas além de estarem fadados a enfrentar os efeitos da escassez de papel, as empresas jornalísticas enfrentarão outro problema. À medida que mais e mais pessoas crescerem tendo acesso à informação ‘on line’ a custo zero os jornais impressos pagos serão considerados caros mesmo que impressos a um baixo preço. Num futuro próximo (daqui a 50 ou 100 anos) só os museus se interessarão pelos jornais escritos, mas creio que os acervos destes dinossauros da informação estarão disponíveis na Internet.

  2. Comentou em 19/12/2004 Adelle Moade Souza

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