Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > OI, 10 ANOS

Marcelo Beraba: ‘Meios e a sociedade, uma relação tensa e saudável’

Por Lilia Diniz em 02/05/2006 na edição 336

Esta é a íntegra da entrevista do ombudsman da Folha de S.Paulo, Marcelo Beraba, ao programa Observatório da Imprensa na TV exibido na terça-feira (2/5) pela Rede Pública de Televisão.

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O que a sociedade e a imprensa ganharam com a figura do ombudsman?

Marcelo Beraba – O ombudsman nasce não com o objetivo específico de trabalhar em meios de comunicação. Nasceu como defensor do povo em geral, na Suécia, século 19. E depois surge como uma figura de defensor de leitores junto à imprensa também na Suécia, no início do século 20; mais adiante, na década de 1920, no Japão, os grandes jornais o adotam. Ele só surge nos jornais da Europa e Estados Unidos a partir da década de 1960 – nos Estados Unidos em 1967, exatamente num período de crise, de instabilidade de imprensa. Quando surge na Suécia e no Japão, é também num momento da crise de credibilidade, ou seja, de uma pressão da sociedade, de experiências e queixas da sociedade em relação à qualidade dos jornais. O ombudsman é um instrumento, uma função criada num determinado momento para facilitar essa ligação do leitor com os meios, canalizar esse processo e, de alguma maneira, ajudar a alterar esses meios, [por mais] qualidade.

No Brasil ele surge em 1989, com a Folha de S. Paulo, e também dentro desse ambiente, ou seja, a Folha institui em 1984 um novo projeto editorial, se expõe publicamente com esse novo projeto editorial, lança um Manual da Redação, lança normas internas, valores, quer criar um jornalismo ‘moderno’ como ele diz, crítico, pluralista. Lança mão de vários instrumentos, se compromete publicamente com isso, e um dos instrumentos é justamente. Então, acho que ele está sempre ligado à essa idéia de se criar canais com a audiência, com o leitor, ou com o objetivo de alguma maneira a ajudar a melhorar aquele meio.

E quais são os limites de função?

M.B. O ombudsman não é o único instrumento disponível para os meios de comunicação fazerem esse trabalho de intermediação, de correção, de cobrança, de aceleração no processo de direito de resposta, de exigência de qualidade. É um dos instrumentos. Vários meios de comunicação ao longo do tempo, pelas mesmas circunstâncias de se sentirem compromissados com valores e com respostas à sociedade, foram criando outros instrumentos de prestação de contas, de transparência, de canal de questionamento, como as seções de cartas dos leitores cada vez maiores e mais editados, as pesquisas diárias com leitores, a criação de manuais de redação – [todas] são formas de compromisso. O ombudsman, embora eu considere que seja um instrumento fortíssimo para isso, evidentemente não é o único. O ideal inclusive é que você consiga combinar várias formas de acesso da sociedade, de pressão de sociedade e de reação dos jornais. Alguns jornais criaram, por exemplo, os conselhos de leitores, que também têm esse objetivo de trazer para dentro do jornal a cabeça do leitor, do telespectador.

Todos esses instrumentos, inclusive o ombudsman têm limitações. Um pressuposto do trabalho de ombudsman é a independência e a autonomia em relação à redação. Sem compromissos claros da empresa jornalística e sem essa autonomia e independência, o trabalho de ombudsman não vale nada. Mesmo com essa independência e autonomia, ele não tem uma função executiva dentro de uma redação – esse função continua sendo competência das direções de redação e dos editores. É bom que seja assim, [pois] faz com que o ombudsman tenha distanciamento para fazer a crítica, não esteja diretamente envolvido nessa critica, e vai depender muito da sensibilidade das empresas jornalística, das redações, acatarem ou não as questões levantadas pelos leitores [por intermédio] do ombudsman ou pelo próprio ombudsman.

É claro que o ombudsman não acerta sempre. São pontos de vista que você vai colocando, e em alguns momentos a empresa concorda, em outros momentos acha que não é aquilo. Há limite para isso, mas no final o ganho desses instrumentos todos, seja ombudsman, seja você leitor, é um ganho grande para os meios em termos de melhorar a qualidade e para a sociedade, em termos de influir cada vez mais.

Essa relação da sociedade com a imprensa está muito melhor do que há 30 anos? O que se pode fazer para melhorar o diálogo de sociedade e imprensa a partir de agora?

M.B. O que percebo claramente é que houve uma mudança grande nesse relacionamento. Para mim é nítida a mudança do comportamento das empresas jornalísticas em relação ao seu público leitor. A relação dos leitores com as empresas jornalísticas era mais passiva. Acho que isso foi mudando com o tempo. Acredito que não se deve, apenas, ao trabalho das empresas jornalísticas ou ao trabalho dos observatórios. Acho que se deve às mudanças que ocorreram na sociedade, na democratização do país, na melhoria do nível de conhecimento, ampliação dos meios de comunicação noticiosos, grande concorrência entre esses meios, a politização. Então, são vários fatores que vão fazendo que, com o tempo, as pessoas não dependam mais de um meio de comunicação para se formar, e que elas tenham opinião e um ponto de vista crítico sobre as coisas. Dentro desse ambiente, eu diria que até hoje há uma relação tensa, não é mais uma relação amorfa ou harmônica, apenas neutra entre os meios e a sociedade. Hoje, há uma relação tensa e acho saudável que seja dessa maneira.

Os observatórios da imprensa têm um papel importante nisso, mas que deve ser relativizado – quer dizer, eu gostaria que fosse um papel maior. Acho que o que move principalmente a sociedade na pressão que exerce sobre os meios não é ainda em função dos observatórios. O alcance deles ainda é relativamente pequeno diante da força dos meios de comunicação. O ideal é que fosse uma coisa ampliada. Vejo de uma forma muito positiva, embora eu não concorde sempre com observações ou pontos de vista. Tenho [dado] espaço e voz nas minhas colunas de ombudsman da Folha de S.Paulo a outras entidades que fazem esse tipo de trabalho de monitoração, onde há observação da mídia, e isso é um fenômeno recente, ainda com pouca influência, mas que eu espero que amplie. Estou falando, por exemplo, da Transparência Brasil, que tem um banco de dados com um acompanhamento regular sobre como a imprensa vem cobrindo a questão de corrupção. Na área de violência, por exemplo, o que o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes vem fazendo é um acompanhamento de como a imprensa está cobrindo violência, a polícia, os grandes casos da cidade. Na área de eleições, o laboratório Doxa, do Iuperj, e em São Paulo, o Observatório Brasileiro de Mídia, da ECA-USP, que tem acompanhado como a imprensa vem fazendo a cobertura das eleições; a Agência de Notícias de Direito da Infância, que faz um trabalho de acompanhamento de como a mídia cobre educação, menores e a criminalidade de menores. São várias entidades que vêm surgindo e uma boa parte delas é ligada a universidades. Isso é extremamente positivo, é um sinal de nosso tempo. Mas a gente não deve se iludir com isso, pois é muito pouco ainda. São poucas as entidades fazendo isso, poucas pessoas, poucos recursos para isso e pouca repercussão em relação a esse tipo de trabalho.

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Repórter do programa Observatório da Imprensa na TV

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