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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > iG

Mario Vitor Santos

06/05/2008 na edição 484

‘A crônica das trapalhadas de certos policiais nas investigações do caso Isabella Nardoni já havia incluído até o caso da delegada que, num acesso, xingara em público o suspeito Alexandre Nardoni de ‘assassino’, tendo sido em seguida criticada por seus superiores e devidamente afastada do caso.

O clima apaixonado com que as investigações são conduzidas chega agora ao auge com a divulgação do relatório da delegada que realiza o inquérito. A representação encaminhada ao Ministério Público, tem tom emocional. Desvia-se para fazer apreciações ofensivas aos suspeitos. Perde a cerimônia, e abandona o caráter técnico e objetivo que deveria manter.

Com base em reportagem de ‘O Estado de S.Paulo’ o iG registrou o tom inusitado da autoridade (clique aqui). Este relatório é o melhor serviço à defesa dos suspeitos que a polícia poderia fazer. Justifica o pedido de prisão preventiva dos suspeitos com base num estado de ‘comoção social’ que estaria afetando o país.

O mais desagradável é constatar que são autoridades com esse grau de despreparo que ditam, em última instância, o tom da cobertura jornalística, por meio de vazamentos, favorecimentos e insinuações.

Trabalham para criar um ambiente de linchamento policial e contam com a excitada cumplicidade de jornalistas, especialmente editores e seus chefes. Estes deveriam aferrar-se ao que ensinam as técnicas jornalísticas mais básicas. O problema das técnicas jornalísticas não é sua dificuldade. É que para serem aplicadas demandam esforço, competência, clareza de valores e coragem.

O grande jornalismo brasileiro é, portanto, atrasadona obediência a essas técnicas. Nos momentos mais importantes, a mídia não acredita, não confia e não leva a sério ações relativamente simples como checagem rigorosa e equilíbrio na audição de todos os lados.

Em troca de audiência, facilmente se abandonam o distanciamento e a imparcialidade. As televisões comandam. Seus repórteres têm acesso à cúpula da polícia e a toda a sua estrutura. Ávidos de publicidade e poder, polícia e imprensa logo rompem o sigilo decretado pela Justiça, o que nunca é apurado.

O padrão resultante é coerente com as acusações que seria a polícia infiltrada por uma mentalidade justiceira. Vendem as mágicas milagreiras da modernidade técnica das perícias, mas, na verdade exercem, métodos atrasados de manipulacão indutores de ritos sumários de desruição moral e psicológica. Polícia e imprensa, fracas tecnicamente, unem-se e assim simplificam seu trabalho, tão essencial quando é realizado como deveria. Neste quandro, o iG vem fazendo um esforço, especialmente nos últimos dias, mas ainda não mostra segurança, especialmente na obtenção de informações, para se diferenciar do tom geral.

Veja abaixo o vai-vem das manchetes sobre a suposta detecção de sangue e vômito pelos peritos e o uso que a polícia fez dessa notícia, que, segundo os advogados do casal, é falsa.

18 de abril

UOL

Polícia diz que havia vômito na camisa do pai

G1

Laudo revela que havia sangue de Isabella no carro do pai

22 de abril – iG

Delegados não usaram laudos para interrogar

25 de abril – iG

Para especialistas, provas não fecham caso Isabella

e

Laudo não prova sangue de Isabella no carro, diz defesa

26 de abril

Casal não explica vômito e sangue em depoimento

28 de abril – iG

Inquérito pode ser questionado, dizem advogados do casal Nardoni

29 de abril – G1

Parte da perícia foi usada incorretamente em interrogatório no caso Isabella

Dia 30 de abril – iG e UOL

Laudo não confirma sangue nem vômito de Isabella

***

A voz do povo é a voz do povo (30/4/08)

 

 

Pesquisa CNT/Sensus diz que a grande maioria (71,8%) avalia positivamente a cobertura da mídia para o caso Isabella. Chega a 98% o índice dos que acompanham a cobertura. Não poderia ser de outra forma. O caso tem grande apelo, estimulado pela cobertura. Uma coisa, porém, é a atitude do público, outra deve ser a dos profissionais da informação.

Jornalistas não podem se confundir com o público. Devem ter um comportamento diferenciado, ou seja, manter a distância, cabeça fria, evitar envolvimento, procurar fazer um trabalho justo, afastado das paixões e o mais isento possível. Devem contemplar todos os lados envolvidos, não podem prejulgar.

Sensacionalismo e populismo podem trazer audiência, mas não são jornalismo. Jornalistas devem entender que são pessoas especiais, ou escolher outra atividade. Já os espectadores não têm esse tipo de compromisso, como indicam as pesquisas.

O sangue e o vômito

Depois de todo o encantamento com as maravilhas do trabalho da perícia e seu ‘luminol’, eis que agora vem a público a constrangedora informação de que os especialistas não constataram a presença de sangue no carro nem vestígios de vômito na bermuda de Alexandre Nardoni.

Quer dizer, então, que policiais interrogaram os suspeitos, o pai Alexandre e a ‘madrasta’ Anna Carolina, confrontando-os com constatações da perícia que na verdade não existiam? Não foi com base nos relatos desses interrogatórios que foram extraídas transcrições que mostravam que Alexandre e Anna Carolina diziam não saber como havia sangue e vômito, como se fossem uma realidade.

Seria interessante e jornalístico agora tentar descobrir como diabos a versão do laudo pericial sobre as gotas de sangue no carro e o vômito na bermuda foram aparecer no interrogatório dos suspeitos, depois derivaram para os jornalistas da TV que cobrem o caso e acabaram estampados com destaque nos jornais televisivos e daí para os sites jornalísticos, jornais e rádios. Será que todos que, na semana passada, deram títulos, escaladas, chamadas afirmando que a situação dos suspeitos estava complicada em função de constatações da perícia vão agora publicar desmentidos e correções?

Se não havia sangue nem vômito, o que afinal foi confirmado pela perícia? Será que as conclusões agora são para valer e são mais firmes do que as anteriores? A confusão fica maior, beneficiando a defesa, que declara que os laudos dos peritos a beneficiam e aposta no desgaste dos afoitos.

O pai de Alexandre diz que a ‘reconstituição’ mostra que não há correlação entre a posição de quem jogou Isabella pela janela e as marcas na camisa do filho. A credibilidade do jornalismo continua na berlinda.

Quanto a este iG, vale um elogio. Desde o dia 26 publica, lado a lado, story-boards com as versões da polícia e dos suspeitos. Chamada para falhas da perícia ficaram por muito pouco tempo na capa do portal hoje.

Veja abaixo a cronologia do vai-vem dos títulos sobre a perícia:

18 de abril

iG: Havia sangue de Isabella no carro do pai, diz TV

G1: Laudo revela que havia sangue de Isabella no carro do pai

21 de abril

Isabella: polícia aponta contradições de pai e madrasta

22 de abril

iG: Delegados não usaram laudos para interrogar

25 de abril

iG: Para especialistas, provas não fecham caso Isabella

Laudo não prova sangue de Isabella no carro, diz defesa

26 de abril

iG: Casal não explica vômito e sangue em depoimento sobre caso Isabella

UOL: Polícia diz que havia vômito na camisa do pai

Isabella: casal não explica vômito e sangue em depoimento

29 de abril

G1: Parte da perícia foi usada incorretamente em interrogatório no caso Isabella

30 de abril

iG: Laudo não confirma sangue nem vômito de Isabella

‘Journal’ critica na própria capa a demissão de seu chefe

Um comitê especial nomeado para supervisionar a integridade editorial do ‘Wall Street Journal’ divulgou uma resolução afirmando que o órgão deveria ter sido avisado antes que o secretário de Redação Marcus Brauchli vinha sendo pressionado para se demitir. A crítica do comitê foi publicada ontem na própria capa do ‘Journal’, o diário norte-americano de maior circulação.

A crítica, divulgada pelo comitê na terça-feira, apareceu junto a um relato cronológico dos eventos que levaram à surpreendente demissão de Brauchli, em 22 de abril. Neste dia, os membros do comitê ‘expressaram a visão de que saber da demissão depois que ela ocorreu, equivale a deixar de cumprir a letra e o espírito do acordo que estabelece os poderes do comitê’.

O órgão, de cinco membros, foi criado como uma condição para o acordo de compra da Dow Jones & Co. pela News Corp, do empresário Rupert Murdoch.

Ainda de acordo com a reportagem, um porta-voz da Dow Jones declarou não haver ‘qualquer sugestão de que a integridade do jornalismo ou de seus repórteres tenha sido comprometida de alguma forma’.

Seja qual for o desfecho (não cabe otimismo, vale registrar), o caso demonstra como, nos EUA, um veículo pode ser obrigado a compartilhar com o público as ameaças que pairam sobre sua independência e valores. Não é possível prever se a estratégia de Murdoch pode levar a transação a ser desfeita. Seu poder talvez seja apenas moral. Murdoch havia dito que não iria desfigurar o jornalismo do ‘Journal’, mas, pelo jeito, não cumpriu.

***

A mania do terceiro mandato (29/4/08)

A insistência com que os meios de comunicação tratam do tema do terceiro mandato do presidente da República está ultrapassando os limites razoáveis. O tema, a rigor, não tem sido levantado pelo maior interessado pelo maior interessado, o próprio presidente Lula. Seu partido também nega insistentemente essa possibilidade. Os ministros também. Os meios de comunicação, porém, insistem no assunto todos os dias, haja ou não haja fatos e declarações que justifiquem. A atitude dos veículos é de crítica e rejeição ao terceiro mandato, mas eles acabam reforçando a hipótese inexistente até agora.

A impressão que dá é que muitos veículos acabam agindo em conjunto, como tem sido tão comum. Faltam criatividade, disposição e coragem para procurar caminhos alternativos para o noticiário. Uma razão desse comportamento é a frustração da mídia diante do crescimento constante do apoio – justificado ou não- ao presidente. Afinal, os veículos gastaram muita tinta para apontar as mazelas do seu governo. A resposta do eleitorado parece ignorar o esforço da mídia, alimentado pelos partidos de oposição. Com pouco espaço para denunciar, resta a este setor acenar com o fantasma do terceiro mandato. Funciona como um atenuante ao desagradável sucesso de Lula. As intenções podem até ser defensáveis. Governante muito forte pode não ser bom. Mas não se deve temperar seu poder com balões de ensaio cheios de hipóteses e negativas, que se repetem num ritual marcado pelo tédio.

***

O espetáculo da imperícia (28/4/08)

A fase de depoimentos no caso Isabella passou. A cobertura da mídia tem sido de excesso e pobreza. Excesso de assédio e manipulação de emoções. Pobreza de jornalismo. Pai e ‘madrasta’ não foram tratados como suspeitos, o que a lei determina.

Vazamentos de notícias da polícia e outros envolvidos dirigiram o ‘noticiário’, especialmente das televisões que, em guerra, deram o tom para o conjunto. As perícias baseiam-se em novas técnicas e instrumentos, razão de ufanismo para comentaristas embasbacados quando lhes vendem a excelência de geringonças espalhafatosas.

As ‘reconstituições’ merecem destaque. Há as remontagens ficcionais feitas pelas TVs, com modelos e locações. Essas deveriam ser banidas por editores conscientes.

Há também as ‘reconstituições’ feitas por peritos em meio a valentões de preto e óculos escuros posando para as câmeras. Como podem afetar competência em meio a tanto desperdício de tempo, de recursos e de assunto?

Um jornalismo sério deveria questionar os peritos. Submeter suas técnicas ao crivo de outros. Alguém ouviu Ricardo Molina e seus colegas da Unicamp? Mas quem se arrisca a duvidar da polícia, se ela é a grande ‘fonte’?

Os acusados terão direito a realizar a sua própria perícia alternativa?

Quanto aos policiais e jornalistas, já passou da hora de reverem suas éticas. A polícia tem que estabelecer procedimentos de neutralidade e segui-los com rigor e punição aos transgressores, geralmente instalados na cúpula. Idem para o Ministério Público.

Os jornalistas deveriam ser remetidos de volta à escola para reaprender que também têm valores a preservar. A mídia está perdendo a credibilidade que lhe dava supremacia para falar ao público e não apenas entre os mais escolarizados.

Editores não devem ser cúmplices, mas reagir à manipulação e não apenas quando ela vem dos outros veículos.

O público precisa ter uma voz nesse ‘debate’. É obrigação dos veículos abrir espaço de discussão de seus métodos. Várias parcelas repelem a manipulação dos veículos. Recusam-se a prestigiar o espetáculo imposto sem consulta e sem critério. Mas como debater algo quando os envolvidos são quem deveria organizar o debate?

‘Noticiar’ é sempre questão de decisão sobre a justa medida, opção que só pode ser tomada pelos veículos e seus jornalistas. É preciso, além disso, justificar as decisões com argumentos racionais baseados em valores. Antes que o boicote, ativo ou passivo, venha e cresça. A audiência de hoje, colhida por meios espúrios, ameaça sacrificar a de amanhã.’

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