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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / IBSEN PINHEIRO

‘Mau jornalismo se combate com bom jornalismo’

Por Luiz Egypto em 17/08/2004 na edição 290

Ibsen Pinheiro teve seu momento de glória ao presidir a sessão da Câmara dos Deputados que aprovou o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 28 de agosto de 1992. Glória e ampla exposição na mídia. O parlamentar do PMDB gaúcho, também jornalista e promotor aposentado, era tido como reserva moral do Legislativo. Seu nome chegou a ser aventado como potencial candidato à presidência da República nas eleições de 1994.

Em setembro de 1993, um furo de reportagem da revista Veja revelou a existência de um bando de parlamentares predadores do Erário que passou a ser conhecido como ‘máfia dos anões do Orçamento’. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi instalada na Câmara e, depois de dois meses de trabalho, as investigações, por meio de nós em pingos d’água, associaram o nome de Ibsen Pinheiro à tal máfia. Tudo falso. Uma transação financeira corriqueira foi tomada por alta maracutaia, uma foto de Ibsen em companhia de alguns dos ‘anões’ investigados considerada prova de crime de formação de quadrilha, e uma movimentação financeira de 1 mil dólares transformou-se numa megaoperação de 1 milhão de dólares.

Outra vez a imprensa vocalizou as denúncias. Em 11 de novembro de 1993, a manchete de capa da Veja bradava: ‘Até tu, Ibsen?’. No miolo, uma devastadora matéria assinada por Luís Costa Pinto sustentava as acusações contra o deputado com base, sobretudo, na tal movimentação de 1 milhão de dólares — de todo incompatível com os rendimentos declarados do parlamentar. Resultado: no ano seguinte o deputado teve seu mandato cassado pela Câmara, malgrado as evidências que insistia em apresentar contra as acusações.

Dez anos após a cassação, o ex-deputado (agora candidato a vereador, em Porto Alegre) prepara um livro sobre seu martírio político, ainda sem título, com lançamento previsto para 2005. Em contato com o jornalista Luís Costa Pinto, hoje consultor, recebeu uma inusitada confissão de culpa revelada pelo repórter Weiller Diniz, da revista IstoÉ (veja íntegra da reportagem na rubrica Entre Aspas, nesta edição). A matéria da Veja estava errada, os números não batiam, aquele 1 milhão de dólares não existia, Ibsen tinha razão.

O ex-deputado comenta o episódio para o Observatório na entrevista que se segue.

***

O que passa pela cabeça, o que sente, como se comporta e como vive uma pessoa atacada com virulência pela mídia? À época de sua cassação, a opinião pública convencera-se de que se tratava mesmo de um corrupto, mais um; ilibado, quem diria? Como fica o ânimo de uma pessoa sob pressões como essa?

Ibsen Pinheiro – Às vezes não sei quem é a maior vítima, nos processos rumorosos – se o alvo, se a opinião pública. A experiência demonstra que as posições massivas da imprensa massificam o sentimento comum, inclusive antes mesmo do surgimento da imprensa com a feição e o sentido moderno da expressão. Nos processos políticos, a repercussão pública é essencial; o momento seguinte é o da destruição da credibilidade do seu alvo – aconteceu com todos, de Sócrates a Dreyfus, passando pelo próprio Cristo, sem esquecer a Prestes. Destruída a imagem, a defesa é inviável – é como se a vítima perdesse a voz. Ela fala, mas ninguém escuta. Isolada, só lhe resta tomar cicuta ou silenciar.

Como seu nome foi vinculado à máfia dos ‘anões do Orçamento? Quais as acusações e que base tinham? Quantos processos sofreu?

I.P. – Nunca, em nenhum momento, eu tive a graça de uma acusação formal ou precisa, o que é outro traço dos processos políticos, que se alimentam da atoarda ou da insinuação, às vezes só da mera sugestão, que lavra num imaginário coletivo já condicionado. Quando meu caso chegou às instâncias judiciais e administrativas, sucederam-se decisões favoráveis a mim, e unânimes: no Conselho Superior do Ministério Público do Estado, na Receita Federal – inclusive seu órgão mais alto, o Conselho Nacional de Contribuintes – e, por fim, no Judiciário, através do Supremo Tribunal Federal. Mas estas quase não repercutiram, pois os processos escandalosos rejeitam qualquer instância recursal do seu veredicto definitivo.

Doze anos atrás, quando o deputado Ibsen merecia destaque no noticiário, como era o relacionamento do jornalista Ibsen com a imprensa? Como avalia hoje seu modus operandi de então?

I.P. – Jornalista toda minha vida adulta, sempre compreendi o trabalho da imprensa, até compreendia melhor o do repórter chato, insistente, furungador. Quando divergi de qualquer jornalista, sempre procurei corrigir com civilidade o que me parecia errado. Sobretudo, nunca, jamais, em momento algum me ocorreu procurar um patrão para me queixar de qualquer profissional – sei na pele o que isso significa.

Como ficaram suas relações com o jornalista Luís Costa Pinto, que tinha o sr. como fonte habitual, depois da matéria de capa incriminadora da Veja?

I.P. – Até pela diferença de idade e posição, nunca foram relações próximas, muito menos íntimas. Foram sempre respeitosas e me tornei admirador do seu talento, especialmente um traço que eu sempre valorizei, antigo copidesque que sou – a limpeza e a elegância do texto. Depois de sua revelação, no ano 2000, e depois do seu depoimento para o meu livro, admiro a integridade pessoal, moral e profissional de sua atitude.

Em novembro de 2000, Costa Pinto assinou na Época matéria centrada num almoço seu com o ex-ministro Alceni Guerra e ele, repórter. Como se restabeleceu a confiança fonte-jornalista?

I.P. – Eu não era mais fonte, como hoje não sou. Eu era pauta, provavelmente da sua própria inquietação profissional, talvez alimentada pelo conhecimento que ele tinha da gênese de tudo.

Quando e em que circunstâncias tomou conhecimento do erro jornalístico que desencadeou o processo de cassação do seu mandato?

I.P. – Do erro, tomei conhecimento na hora em que ele foi perpetrado. Afinal, eu sempre soube que não havia na minha conta nem 1 milhão de dólares, nem de cruzados ou cruzeiros, como agora não os tenho em reais. Mas de que fosse um fato manipulado, com intencionalidade ou irresponsabilidade, só tomei conhecimento pela revelação de Luís Costa Pinto.

Em maio de 2000, o programa de TV Observatório da Imprensa tratou do comportamento da mídia na cobertura de seu caso. Por que essa história do erro não pôde vir à tona naquele momento?

I.P. – Não lembro se, em maio de 2000, eu já tinha ou não ouvido o relato de Costa Pinto, mas isso é irrelevante: mesmo depois de conhecê-lo, nunca o revelei, por preferir guardar para o meu livro. Mas como a história vazou, precisei confirmá-la ao repórter Weiller Diniz [da IstoÉ], para que os fatos fossem conhecidos de modo cabal, e não fragmentário.

Qual sua opinião sobre a criação do Conselho Federal de Jornalismo? A autarquia, da forma como está proposta, evitaria casos semelhantes?

I.P. – Posso supor que a iniciativa da Fenaj seja de boa-fé, na intenção de regular as relações do setor, internamente e com a sociedade, mas o instrumento escolhido é inadequado e muito perigoso. Uma autarquia, corporativa e estatal, poderá ser instrumento de lideranças políticas ou profissionais que nem sempre contemplarão o universo inteiro da área, composto bem mais do que de jornalistas e empresários, para incluir a figura central, que é o leitor-ouvinte-telespectador, diretamente ou representado pelas instituições públicas e comunitárias que atuam na matéria. Mas é certo que discussão atual tem um molde objetivo: todos queremos a liberdade e todos pregamos a responsabilidade. Como construir o binômio é o desafio que temos. Teria sido imensamente melhor se o governo, em vez de mandar o projeto de uma parte, abrisse a discussão entre todas elas, para, eventualmente, a seguir, bancar um projeto consensuado. Como está a proposta, o mais prudente é o governo agir como no episódio do correspondente americano: voltar atrás.

Há algo que gostaria de ter dito e não lhe foi perguntado?

I.P. – Sim: que o mau jornalismo se combate com o bom jornalismo, e que o regime da liberdade de imprensa é o único que dá pelo menos a esperança de reparação. No regime da imprensa censurada, a infâmia é eterna.

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