Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > VEJA & ÉPOCA

Meio ambiente, o acessório em lugar do principal

Por Luciano Martins Costa em 09/01/2007 na edição 415

A observação de duas das mais destacadas revistas semanais brasileiras, pelo critério de circulação, nos dá a oportunidade de analisar os paradigmas adotados para a edição dos chamados grandes temas – que incluem, obviamente, a macroeconomia, as reformas do Estado, os comportamentos de massa e, claro, o estado do mundo.


Veja e Época têm procurado acompanhar os debates sobre o estado do mundo, que dominam a agenda internacional, da mesma forma que os grandes diários. Mas, como toda a imprensa, limitam sua visão ao problema do terrorismo, do potencial de risco do programa nuclear do Irã e da Coréia do Norte, e resvalam pelo problema ambiental global. Pelo fato de se tratar de revistas semanais, é de esperar que contribuam com reportagens mais consistentes do que as dos jornais. No entanto, observa-se no material das semanais a mesma limitação que se pode constatar nos diários. É como se os editores trabalhassem com o freio de mão puxado: nada além dos lugares-comuns.


Elas nos abriram essa vitrina, por exemplo, em suas edições de fim de ano, ambas tratando dos grandes problemas produzidos pela exploração indiscriminada do meio ambiente e pelos efeitos sociais daninhos do sistema econômico global. Ambas adotam um viés claramente conservador do tema, e nenhuma delas, por isso mesmo, se aprofunda nas razões pelas quais a humanidade enfrenta a pior crise de toda sua história. É como se a crise ambiental e social que vivemos não tivesse culpados.


Mudanças em curso


Na verdade, o que transpira da imprensa em geral é uma insuperável resistência a colocar em xeque o sistema econômico mundial. Como se os editores quisessem evitar cair num viés ‘esquerdista’. Os problemas são abordados de maneira linear e pontual, embora se saiba que não há soluções simples para os grandes e complexos desafios que se apresentam à humanidade neste começo de século.


Tem esse sentido a pretensiosa reportagem de Veja sobre algumas propostas mirabolantes de projetos para a redução do problema do aquecimento global. Escudos para rebater de volta ao espaço as radiações solares, pulverizadores de nuvens para ‘impermeabilizar’ a atmosfera terrestre, bilhões de guarda-sóis destinados a compensar os buracos na camada de ozônio, são algumas das curiosidades apresentadas pela revista.


Como entretenimento intelectual, nada a opor. Os editores de Veja, como a direção da maior rede de televisão do país, devem considerar seus leitores mais ou menos no padrão Homer Jay Simpson, o atrapalhado funcionário da usina nuclear de Springfield, na popular série de desenhos animados. Sim, a humanidade corre grandes riscos por causa da exploração indiscriminada dos recursos naturais. Mas Veja quer nos convencer de que não é preciso radicalizar. A qualquer momento, um cientista vai inventar um jeito de quebrar o galho do planeta. O resto é catastrofismo desses ecochatos.


É unanimidade na comunidade científica internacional – e fato aceito pelos organismos multilaterais, entre eles o Banco Mundial – que não há como remediar com medidas paliativas a enorme crise em que metemos o planeta. É verdade aceita pelas grandes corporações, pelo sistema financeiro global e pelos órgãos encarregados de prevenir catástrofes, que o sistema precisa mudar.


E o sistema está, de fato, passando por grandes transformações. A lei Sarbanes-Oxley, criada para colocar sob controle social as ações das grandes empresas, as novas diretrizes de contabilização financeira, social e ambiental disponíveis desde o mês passado e o processo de criação da norma de sustentabilidade ISO 26000 são algumas evidências dessas transformações. O próprio sistema econômico mundial aceita a idéia de que precisa se reciclar, mas nossos mais importantes órgãos e imprensa se mostram mais realistas que o rei.


Debate escondido


Nossa imprensa, como mostra Veja, sintetizando o pensamento da maioria das grandes redações, ainda trata o tema sustentabilidade sob a ótica das ações sociais filantrópicas e das iniciativas pontuais em relação ao meio ambiente. Para nossa imprensa, a vanguarda da sustentabilidade são aqueles empresários que financiam escolas de batuque em bairros pobres ou que aparecem na fotografia plantando um pé de flamboyant. Depois, distribuem seus ‘balanços sociais’, com a indefectível fotografia da creche com crianças de variadas etnias, e com o funcionário negro na frente do grupo, na foto da festa de confraternização da firma.


No resto do mundo real, a questão da sustentabilidade está imersa num profundo debate ideológico. De um lado, os generosos filantropistas que pagam assessorias para colocar na mídia seus projetos ‘sociais’ e ‘ambientais’ – esses não querem mudanças no sistema. Do outro lado, os estrategistas que procuram meios de estruturar a gestão das empresas sobre um arcabouço sustentável – são os novos revolucionários, uma vanguarda que entende a necessidade de discutir as raízes do sistema capitalista.


Há farta literatura a respeito desse embate. A organização norte-americana Rocky Mountain Institute publicou há mais de cinco anos o resultado de pesquisas que apontam a necessidade de transformar o sistema produtivo, indicando um modelo que chamou de ‘capitalismo natural’. A International Finance Corporation, órgão financeiro do Banco Mundial, vem estimulando a mudança nas práticas de governança, exigindo que as empresas não sejam mais tratadas como feudos isolados da sociedade. Mas, para nossa imprensa, a necessidade de reduzir as perversidades do sistema capitalista ainda soa como propaganda comunista.


Quando uma publicação importante como Veja tenta nos convencer de que podemos continuar poluindo o ar, porque algum cientista maluco vai colocar um guarda-sol na estratosfera, seus editores não estão apenas entretendo a sociedade com curiosidades mais ou menos científicas. O que ela está fazendo, na verdade, é tentando evitar que o debate chegue ao ponto em que uma mudança real no sistema capitalista venha a ser exigida pela sociedade.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/01/2007 jonas carvalho

    Hummm. se tudo se resumisse a questões ideólogicas era bem facil. De tempos em tempos as sociedades humanas mudam os modelos economicos e politicos vigentes, todos nós sabemos disso. Daí hoje temos o maravilho e inquestionavel capitalismo. Tivemos já a escravidão, tambem tivemos impérios incontestáveis e assim vai. Mas o ponto crucial deste tema é que estamos falando de vidas humanas. É de gente matando gente que estamos falando. Não é ideologia não! Tá lá no Iraque do Tio Bush, tá na Africa debulhada pela Europa, tá no Oriente Médio onde me nome de Alá e de Deus tem gente ‘ comendo ‘ gente. Aqui na nossa America Latina a herança genetica de nossos colonizadores escravagistas multiplica a miséria todos os dias. Estamos falando de vidas humanas !!!! E não de ideologias , raios !!!! Quando? Quando os homens vão olhar para sí e para o proximo e parar com tudo isso?? Quando vão rasgar suas Constituições Federais, seus ideários escritos por genios que só sabem disseminar cada vez mais e mais discriminações, ódios, separações imbecis??? Quando o SER será mais importante que o TER ?? Me chamem de piegas e do que mais quiserem mas convido a todos ouvirem Imagine de Sir John Winston Lennon.

  2. Comentou em 11/01/2007 jorge cordeiro

    Só pra vc ter uma idéia: a Apple lançou agora uma nova bugiganga, o iPhone. Saíram centenas de matérias. Quantas delas falam do uso de substâncias tóxicas na produção desse e outros aparelhos da marca (iPod, iMac)? Num ranking recentemente publicado pelo Greenpeace, a Apple ficou em 14 e ultimo lugar, por ser a empresa que menos se preocupa com isso e com politicas de reciclagem. Jornalista fica muito deslumbrado com essas quinquilharias eletronicas para se preocupar com questoes importantes como essas….

    ver:

    http://www.greenpeace.org.br/toxicos/?conteudo_id=3071&sub_campanha=0

    ou

    http://www.greenpeace.org.br/toxicos/?conteudo_id=3050&sub_campanha=0

  3. Comentou em 09/01/2007 Rafael Salerno

    Os problemas estão postos…buscamos as soluções…dos problemas e da cegueira de nossa sociedade

  4. Comentou em 09/01/2007 C Rodrigues

    Outro ponto curioso sobre a ‘inocente’ matéria da Veja é que todas as soluções apresentadas para o problema do superaquecimento global somente poderiam ser bancadas pelos países que mais contribuem para o superaquecimento global.

    Não é um primor? Resolveremos o infindável problema de países pobres e ricos torrando os primeiros (com o Brasil no bloco a ser extinto). E ainda batem palmas pra isso!!!

  5. Comentou em 09/01/2007 Paulo Campos

    Veja, época e todas as outras nossas revistas semanais escrevem e publicam para Homer Simpson. Este é o leitor padrão de todas elas. E elas são seu único¨ entretenimento cultural ¨. Ademais, ao se aventurar na leitura de cada matéria publicada, salvo raríssimas exceções, também se pode facilmente identificar o autor pelo traço ainda torto da pena e o baixo intelecto:Homer Simpson, ora!

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