Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > TEMPO & LEITURA

Meu pirão por último

Por Lúcia Guimarães, de Nova York em 22/03/2011 na edição 634

Em quanto tempo você lê esta coluna?

Eu demoro quase tanto tempo quanto as pessoas que precisam mover os lábios com a leitura. Meu tempo: 1 minuto e 46 segundos, cronometrados no celular.

Agora, quanto tempo você tem para ler esta coluna?

A) Nenhum.

B) Todo o tempo do mundo.

C) O tempo que os meus quatro filhos aguentarem no closet, sem sufocar.

D) Não leio jornal, achei esta página no chão, na fila do Detran.

E) A colunista não tem mais o que fazer?

O tempo e o espaço foram tema de uma discussão no auditório da New School em Manhattan, na semana passada. Os debatedores não eram físicos discutindo a Teoria da Relatividade. Eram todos jornalistas – de rádio, TV e revistas. Não é preciso ser nenhum Einstein para notar que há uma escassez crônica de ambos – tempo para ler e espaço para publicar. Mas, como diria o próprio físico de cabelos rebeldes, o tempo pode ser subjetivo (Por que ela não vai direto ao assunto?) ou subordinado a condições externas, como o preço do papel. (Não foi bem isso que Einstein disse).

Novos protagonistas

No mês passado, fiquei impaciente durante um dia, evitando o telefone. Fui ao salão aqui perto e recusei uma manicure, só aceitei pedicure porque precisava das mãos livres para ler um artigo no iPad. Com 24.635 palavras, a reportagem de Lawrence Wright, na New Yorker, sobre a crise existencial de um diretor de cinema americano que se desligou da cientologia, me consumiu o dia todo, precisei lutar contra as interrupções. O repórter passou mais de um ano às voltas com a investigação do caso e fez um trabalho magistral.

Lembrei da reportagem quando um dos debatedores da New School citou o comentário que ouviu de um mentor no início de sua carreira no rádio: ‘Cada nova história é uma resposta à pergunta: como devo viver minha vida?’ O tema da noite era ‘Narrativa Longa num Mundo de Atenção Curta’.

Mas os participantes não eram carpideiras no perene funeral do jornalismo e sim bem-sucedidos produtores de conteúdo, amplamente reconhecidos com Pulitzers e outros prêmios. A comunicação em 140 caracteres para essa gente é, no máximo, um instrumento para chamar atenção para reportagens, documentários ou programas de uma hora.

A New Yorker tem circulação de 600 mil exemplares. O programa This American Life tem 1,8 milhão de ouvintes semanais (e mais 600 mil de ouvintes em podcasts). Não parece faltar leitor, ouvinte, espectador para abrir mão da manicure quando uma boa história, bem contada, se apresenta.

‘Não há falta de audiência’, concluiu o esperado relatório anual do Pew Research Center sobre o estado da mídia, publicado há uma semana. Nem há falta de fontes experimentais de renda. O problema, afirmam os relatores do centro, é que, no mundo digital, os produtores de conteúdo – os contadores de histórias – cada vez menos controlam seu destino. Cada novo avanço tecnológico tem acrescentado uma nova camada de complicação e novos protagonistas no teatro onde se faz a conexão da notícia com anunciantes e consumidores. Dominar a evolução dessa trama depende menos de produtores de conteúdo e anunciantes e cada vez mais da indústria de tecnologia, o intermediário que quer sua fatia do bolo que não assou.

Ligada no conteúdo

A indústria do disco tornou-se moribunda quando entregou a rapadura – a música – aos gadgets e a tecnologias de distribuição. Imagine se, no começo da produção em massa de livros, os moinhos de papel, reunidos num cartel, cobrassem participação nos direitos autorais de Voltaire? Ou se a família Wurlitzer, a das famosas jukeboxes, abocanhasse boa parte dos direitos autorais das big bands?

O relatório do centro segue dizendo que cada nova plataforma requer novos programas de software e novos intermediários aparecem para cobrar sua fatia. Às vezes, esses intermediários controlam toda a coleta de dados sobre o público. O controle dessa coleta talvez seja hoje a commodity mais importante da cadeia de produção, afinal, trata-se da chave do paraíso do acesso ao leitor-ouvinte-espectador. É um cenário orwelliano tanto para quem vive de contar histórias como para quem não acha graça em viver sem ouvir boas histórias.

Ao contrário da indústria musical, a indústria da notícia cresce, mesmo com a produção tradicional de jornalismo passando por mudanças traumáticas. O diagnóstico do Pew Research Center não deve surpreender: a indústria no jornalismo demorou a se adaptar e é culturalmente mais ligada ao conteúdo do que à engenharia. Por isso, encontra-se hoje mais seguidora do que líder do seu destino.

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