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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > IMPRENSA FRANCESA

Mídia acrítica = controle da opinião pública

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 29/12/2008 na edição 518

Quando as pessoas serão presas por intenções de cometer um crime ou um ato terrorista?


O que se passou na França em novembro de 2008 parece nos apontar perigosamente esse horizonte terrível como não muito longe de nós. No caso da prisão de cinco jovens militantes altermundistas, acusados de terem sabotado linhas de trem, a mídia francesa não se mostrou à altura de um país democrático e maduro, no qual a crítica às verdades oficiais deve ser exercida como um dever para com o leitor e a verdade dos fatos. Nem mesmo Libération, o mais rebelde e crítico dos diários franceses, assumidamente de esquerda, cumpriu o seu papel no início do caso dos ‘terroristas’ de Tarnac, um vilarejo do centro da França.


A prisão de cinco jovens, todos franceses e super-diplomados – um deles é filósofo e foi aluno de Giorgio Agamben, que assinou um belo artigo em sua defesa –, acusados de serem os sabotadores que em novembro prejudicaram algumas linhas de trens de alta velocidade (TGV, o trem-bala) a partir de suspeitas e sem qualquer prova formal, é altamente preocupante.


Libération não escapou à fúria crítica de seus leitores por ter dado uma primeira página com o título ‘A ultra-esquerda que descarrilha’. Nela, o jornal, como o resto da mídia francesa, reproduziu a versão oficial de que os jovens presos em Tarnac numa operação cinematográfica – em que não faltaram as câmeras de um canal público, convidadas para registrar a ação espetacular da polícia antiterrorista – eram perigosos terroristas de uma corrente de ‘ultra-esquerda de tendência anarco-autônoma’.


Passividade da imprensa


Alguns leitores criticaram o fato de a imprensa validar a história divulgada pelo Ministério do Interior sobre os perigosos ‘terroristas’ presos em Tarnac sem investigação alguma. Sem provas formais contra eles, mas apenas suspeitas, os jovens intelectuais militantes altermundistas foram presos e levados à Justiça por terrorismo.


Um leitor indignado chegou a acusar a mediocridade do mundo jornalístico atual, que permite que os jornais se deixem usar para divulgar as ‘verdades’ oficiais sem investigarem o que está por trás de uma ação policial ‘antiterrorista’.


Afinal, os jornais franceses não eram obrigados a aderir sem desconfiança à tese oficial da prisão de ‘perigosos terroristas’ em Tarnac. Esse episódio faz lembrar um passado não tão remoto quando, durante a ditadura militar brasileira, um jornal como O Globo se fazia porta-voz dos órgãos de informação ao divulgar o texto do documento oficial que lamentava o ‘suicídio’ do jornalista Vladimir Herzog na sua cela, em 1975, sem qualquer investigação ou reserva. A alternativa era a publicação da versão oficial sem aderir a ela.


Como na França não estamos (ainda) sob uma ditadura sarkozista e Libération é um jornal de esquerda, diferentemente de O Globo, não se pode aceitar essa passividade por parte da imprensa quando se trata de prisões abusivas.


Paranóia securitária


A propósito da suposta ‘célula terrorista’ de Tarnac, o filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu um artigo publicado no próprio Libération cujo título ‘Terrorismo ou tragicomédia?’ não poderia ser mais explícito:




‘É preciso ter a coragem de dizer com clareza que hoje em numerosos países europeus, particularmente França e Itália, foram criadas leis e medidas policiais que teriam sido outrora julgadas bárbaras e antidemocráticas e que não deixam nada a invejar às que estavam em vigor na Itália durante o fascismo.’


Esse desvio para um cerceamento da liberdade individual e para o controle policialesco dos cidadãos, sob o pretexto de combater o ‘terrorismo’, precisa ser denunciado pela imprensa.


Em vez disso, mesmo a imprensa de esquerda deu provas, pelo menos no início do caso, de uma docilidade lamentável. Nos dias que se seguiram à divulgação do caso pela polícia, Libération fez uma cobertura mais equilibrada e crítica e deu duas páginas de entrevista com um dos jovens acusados, logo depois de sua libertação.


A versão dos acusados de ‘terrorismo’, que demorou a chegar aos leitores (et pour cause, pois eles estavam presos), foi a de que no início do caso – aparentemente montado pelos serviços de informação para manter um clima de insegurança ou para justificar novas leis liberticidas – só conheciam a versão oficial.


Felizmente, os leitores estão atentos e criticaram duramente a imprensa pelo que um deles chamou de suivisme policier, uma espécie de ausência total de espírito crítico que não pode estar em momento algum ausente na cobertura de fatos de ‘terrorismo’. Esta palavra pode servir para desencadear uma paranóia securitária com objetivos escusos, assim como na década de 1960 a acusação de ‘subversão’ serviu para impor a ditadura do AI-5 no Brasil. Nos dois casos, direitos humanos fundamentais são pisoteados.

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