Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > SÃO PAULO FASHION WEEK

Mídia e moda, uma nova linguagem

Por Ligia Martins de Almeida em 25/01/2005 na edição 313

Já está se consagrando um novo concorrente para os tradicionais lugares-comuns da mídia impressa, como os da Páscoa (‘Não vai faltar pescado na Semana Santa’), do Dia de Finados (‘Movimento recorde nos cemitérios’) ou do Natal (‘Shoppings esperam crescimento nas vendas’). Há alguns anos, apareceu um novo título: ‘Fulana é destaque na Fashion Week’.

Se é uma feira de moda, o destaque deveria ser para as roupas, supõe-se.

Claro que todo ano surge uma novidade. Nesta feira, foi um costureiro de apenas 14 anos, filho de duas grifes importantes da moda brasileira – Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço. Ficamos sabendo que o pequeno gênio gostava de brincar com bonecas e fazer roupinhas desde criancinha. Encantados com a jovem promessa da moda, os repórteres nem se preocuparam com o fato dele ser menor de idade – e, pelo menos em teoria, estar roubando tempo da escola, onde se espera que uma criança passe pelo menos cinco horas do seu dia. Os jornalistas também não se importaram com outro fato: ele estaria sendo estimulado e explorado, prematuramente, pelos pais?

Será que temos aí um pequeno Einstein ou mais uma jogada de marketing de chiques e famosos? A verdade é que alguém sustenta – com costureiras, tecidos, modelos – os desvarios infantis transformados em moda. Falando de grafismos, babados, roupas fluídas, a entrevista do menino é exatamente igual à de todos os outros costureiros desta e de outras fashion weeks.

Quanto custa?

Como se sentem os profissionais que estudaram moda, os que lutam para conseguir um pouco mais de espaço na cobertura, os que foram à escola estudar e não conseguem o primeiro sucesso? Isso não interessa aos jornalistas de moda.

Para eles, o importante é deixar claro que são iniciados nos mistérios dessa sociedade secreta, usando uma linguagem quase cifrada em que, em vez de descrever roupas, usam os termos dos estilistas e deixam o leitor sem entender o que se passa.

Pelo que a imprensa mostra, a Fashion Week (Rio e São Paulo) é um grande desfile de egos, com caras mais ou menos bonitas, corpos famosos, com seus acompanhantes mais famosos ainda e discussão sobre quem tem mais ou menos curvas. Dinheiro só é mencionado quando se trata do cachê das modelos. Roupas, ao que tudo indica, não têm nada a ver com dinheiro. É uma questão de ficar bem, chamar a atenção dos outros e aparecer. Quanto custa uma roupa? Não é chique perguntar preço.

Só para quem é fashion

Essa linguagem cifrada deixa bem claro para o leitor comum que ele não faz parte do ‘fechado círculo da moda’ – onde, com certeza, as pessoas sabem o que significa ‘uma inspiração medieval cruzada com cultura de rua’. E também entendem como ‘capuzes conferem o viés histórico, atualizado por zíperes, numa silhueta controlada’. E sabem, ainda, porque os ‘capuzes de paetê preateado fizeram o militarismo relax entrar para a história’.

Quando trabalhei em revistas femininas, tive, algumas vezes, que reescrever texto e legendas de moda. E não posso negar que era uma experiência enriquecedora. Descobri coisas como o ‘pretinho básico’ (um vestido preto sem enfeites), ‘a força dos grafismos’ (qualquer roupa em tecido com riscos ou desenhos) e as ‘peças-coringas’ (aquelas que combinam com qualquer outra).

Descobri também que as editoras de moda conceituadas não eram as que ensinavam as leitoras a usar a roupa certa para o seu tipo. Boas eram as que sabiam usar a palavra certa para se comunicar com o estilista e com as outras produtoras de moda. A leitora que se danasse. E descubro agora que, infelizmente, o que antes parecia exclusividade das revistas especializadas acabou virando norma até nos grandes jornais.

Os maiores jornais de São Paulo, neste domingo (23/1), tiveram apenas duas matérias, entre laudas e laudas de non sense, que fugiram da cobertura tradicional: uma, no Estado de S.Paulo (‘Visitantes dizem que ainda falta estrutura para negócios no país’) e outra na Folha (‘Grife cria coleção na sala de apartamento’), falando do estilista que trabalha com 10 funcionários em comparação com uma outra grife, que tem 250 pessoas a seu serviço.

É muito pouco para um evento que apresenta 47 desfiles e mobiliza um exército de criadores, produtores, modelos, maquiladores, faxineiras, passadeiras de roupa, cabeleireiros. O batalhão de fotógrafos (batalhão mesmo, mostrado numa bela foto de Cristiano Mascaro publicada no Estadão) cumpre, mal ou bem, seu papel: mostrar roupas. Mas repórteres e comentaristas apenas mostram seu conhecimento das palavras-chave do esquisito linguajar fashion. Parece que a ordem que recebem do editores é do tipo: ‘faça um texto-legenda e estamos conversados’. Ou, antes, estamos pautados.

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Jornalista

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