Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > ECOS DE MOMO

Mídia, ética e a Globo

Por Ivo Lucchesi em 15/02/2005 na edição 316

Se época há na qual muito não caiba tematizar a moral, é justamente aquela destinada à euforia do Carnaval. É nesse período que mais se permitem certas licenciosidades. O que, talvez, crie algum tipo de embaraço seja o fato de nem sempre ficar claro o que é licenciosidade moral e o que é transgressão ética. Sabe-se que a fixação de uma fronteira rígida entre ética e moral demandaria esforço analítico maior que as pretensões do presente artigo. Todavia, para não se deixar totalmente órfão o pensar sobre a questão, vale timidamente equacionar um mínimo de conceituação.

A moral se refere ao campo do comportamento e costumes, sujeito, portanto, a flexibilizações e mutações no tempo e no espaço; a ética se destina a dar conta do elenco de princípios com que se molda um caráter, seja individual, seja social. Essa básica diferença possibilita compreenderem-se certos procedimentos adotados pela mídia no mais recente e findo reinado de Momo. Para tanto, vamos destacar as relações entre a Rede Globo e o desfile das escolas de samba, particularmente no Rio de Janeiro.

Monopólio e outros detalhes

Para iniciar o que aqui pretendo criticamente sinalizar já serviria pôr em discussão a validade ética a respeito do direito a transmissões exclusivas num país no qual, pela legislação vigente, as emissoras são uma concessão pública. Moralmente o fato em si nada contém de perturbador. Afinal de contas, alguém, por contrato, compra algo que outrem oferece. Juridicamente, também nada a obstar. É um regime capitalista e, como tal, o princípio de compra e venda está previsto e referendado. O problema, entretanto, por um viés ético, surge quando à lembrança vem o fato de ser o desfile uma expressão da espontaneidade popular, a despeito das regras e evoluções marcadas que a legião de alas tenha de cumprir.

Até onde se sabe, os desfilantes não são profissionais pagos por esse ou aquele. São cidadãos de comunidade, turistas e interessados em daquele momento participar. Pelo contrário, além de nada receberem, ainda pagam e caro. Enfim, pelo menos em tese, desfilantes não são contratados nem da escola e, menos ainda, de qualquer rede de televisão.

A argumentação proposta serve para deixar claro que o problema maior não reside no monopólio, e sim na natureza do ‘objeto’. A exclusividade, por exemplo, da transmissão de uma Copa do Mundo já tem outras implicações. Nesse evento, todos são profissionais e, pelos seus contratos, em meio a inúmeras cláusulas, promovem-se acordos. No caso dos desfiles, volto a enfatizar, o perfil é bem outro. Contudo, algo de muito mais grave ocorreu no desfile e, salvo um olhar equivocado deste espectador, nenhum registro na imprensa foi dado em tom de crítica.

O fato não é outro senão indagar que direito tem uma rede de televisão, pelo simples direito à transmissão exclusiva, de escolher uma dada agremiação e nela inserir o enredo de novela que está no ar. Por favor, antes que alguém venha com a história de que novela e realidade se cruzam, é bom lembrar que – aí entra a questão ética – infelizmente o desfile é uma competição a envolver prêmios e prestígio maiores aos vitoriosos. Este aspecto torna inviável e indefensável a possível contra-argumentação.

É óbvio que vários filmes já foram exibidos nos quais filmagens de desfile se fazem presentes. Também isto nada tem a ver com o problema apontado. Quando o filme é exibido, aquele desfile já pertence ao passado e, por conseguinte, nenhuma influência exerce sobre o julgamento. Será que, no caso da relação entre desfile e novela, igual isenção haverá?

Infelizmente, parece caber a este articulista a tarefa que deveria ser de quem profissionalmente se assina como crítico de TV, a menos que – o que será ainda mais grave – nenhum crítico de TV perceba nisso problema. Que respondam os críticos. Todavia, antes de qualquer suposta resposta, nenhuma retirará o manto de um delito ético, simplesmente porque é um delito cujo apagamento não se dá por argumentação. O quadro fica ainda mais eticamente agravado quando outra agremiação é levada a exibir-se – o que já ocorreu em anos anteriores – no Big Brother Brasil.

Muito a aprender

Mais estranho ainda é a carnavalesca de uma das agremiações ser contratada da Globo News. Bem, sem ilações indevidas, o fato é que, coincidentemente, nas quatro primeiras colocações, três mantêm laços com a Rede Globo. Beija-Flor, Grande Rio e Imperatriz Leopoldinense obtiveram, respectivamente, os 1°, 3° e 4° lugares. Como a rede de coincidências ainda não esgotou, atente-se para o detalhe: a agremiação a integrar a novela Senhora do Destino conquistou, na ficção, a mesma colocação da escola de samba que, na realidade, desfilou. Não é a glória? De quem? Como mera ilustração, vale reproduzir um dado jornalístico. Na seção ‘Televisão’, no caderno ‘Ilustrada’ (Folha de S. Paulo, 11/2/05), assinada por Daniel Castro, constava a seguinte matéria:

Frase – De Aguinaldo Silva, sobre a coincidência de a Grande Rio, escola que cedeu seu desfile à Unidos de Vila São Miguel, de ‘Senhora do Destino’, levar o mesmo terceiro lugar da agremiação fictícia: ‘Essa novela é abençoada. Tudo dá certo’. Silva escreveu que a São Miguel ficaria em terceiro muito antes do Carnaval.

De pronto, esclareça-se que nenhuma alusão desabona a criação ficcional do autor da novela. Seguramente, seu depoimento é verdadeiro. O problema ético decorre da decisão que outras esferas tomam, ignorando contaminações que favorecem (ou podem favorecer) desvios de conduta. Em princípio, ninguém está errado. Todavia, o ideal e, eticamente correto, seria não haver monopólio de exibição e, em havendo, nenhuma relação direta com o espetáculo que envolve tantas vidas (muitas delas sofridas e repletas de vicissitudes).

O fato de pagar a exclusividade de uma transmissão de uma festa pública não confere direito a relações que correm o risco de serem promíscuas. Como se vê, o Brasil ainda tem muito a aprender com o que seja a prática da democracia cujo profundo sentido não consiste em digitar um número numa maquininha em dias e horários definidos.

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Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro

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