Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > A AGONIA DA VARIG

Mídia ‘mercadista’, governo também

Por Alberto Dines em 17/04/2006 na edição 377

Nossa imprensa sempre foi antiestatal, antiintervencionista, adepta incondicional das forças de mercado. O governo que teoricamente deveria seguir na direção oposta (ao menos para manter uma aparência de força) capitulou ao liberalismo e insiste em repetir que dinheiro público não deve ser usado para salvar empresas privadas.


Acontece que em 2003, tanto a mídia ‘mercadista’ como o governo fingidamente liberal, concordaram em discutir uma linha de crédito especial no BNDES para tirar as empresas de comunicação do aperto financeiro. Só não foram adiante no projeto porque as partes reconheceram que ficariam com suas imagens comprometidas na cena mundial.


No caso da salvação da Varig, mídia e governo voltaram a se aproximar na tese de que o mercado – isto é, as demais empresas de aviação nacionais e internacionais – têm condições de honrar os compromissos da Varig junto a seus clientes. Cada um tem as suas razões para se aferrar a esta entranhada e tardia fisiocracia.


Impermeável ao debate


O governo precisa de dinheiro para outros fins – não quer alterar os seus investimentos ‘sociais’ que tantos dividendos têm lhe trazido ao longo destes onze meses de crise política. A mídia, por sua vez, precisa fazer a apologia do mercado, já que pretende assumir-se como a sua exclusiva porta-voz e porta-estandarte.


Noticiário, entrevistas e comentários batem na mesma tecla: o day-after será decidido pelo mercado. Não se buscam soluções criativas, alternativas, capazes de manter a Varig viva. A própria questão do dinheiro público sendo usado para socorrer uma empresa privada é uma forma simplista de fugir da obrigação de criar soluções intermediárias, imaginativas, capazes de evitar a grande catástrofe que será o fechamento da Varig.


Governos impassíveis não constituem novidade; no ambiente palaciano, os fins sempre justificam os meios. Mas uma imprensa aferrada aos seus interesses, impermeável ao debate, que abdica voluntariamente da sua capacidade de gerar opções, é caso único. Vocação suicida.

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/04/2006 Murilo de Paula Souza

    Uma das soluções, como apontou Luis Nassif, seria separar a parte boa da empresa e vende-la a um investidor. Assim a empresa teria condições de gerar recursos para pagar os credores. Em caso de falência os credores receberiam apenas uma fração de seus créditos.

    Um dos problemas é convencer os curadores da fundação a não atrapalhar o processo de venda. A motivação dos curadores deve ser nenhuma, pois certamente perderiam seus cargos na nova empresa.

    Outro problema é convencer os credores a arcar com a pesada dívida. Conforme declarado em balanço de Set/2005 esta excede R$ 10 bi, basicamente dívidas com o fisco e previdencia, já refinanciadas em sua maior parte sob o PAES.

    A nova empresa teria que enxugar fortemente a atual folha de pagamento. Existem 180 empregados por avião. A relação em empresas saudáveis gira em torno de 40 empregados/avião. Portanto os cortes seriam severos. As demissões agravariam a situação do AERUS, fundo que provê aposentadorias e pensões complementares para os aeroviários.

    A conta da salvação será apresentada aos empregados, aposentados e pensionistas. Melhor talvez, do que apresentar ao contribuinte, que muitíssimo já ajudou a empresa através dos impostos e contribuições pendentes de pagamento.

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