Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Mídia, quarto poder ou ‘buraco da memória’?

Por Fernando Dias Campos Neto em 08/06/2004 na edição 280

Quem tenha lido o livro de Orwell, 1984, ou assistido ao filme baseado nele, de Michael Radford, com Richard Burton (1984), não hesitaria em identificar bin Laden com Emmanuel Goldstein. Com a diferença essencial de que o Big Brother não coincide exatamente com o dirigente do Estado, principalmente no Terceiro Mundo, mas é produto das redes do capital transnacional na forma de misteriosos poderes paralelos. Isso vem se adequar ainda melhor à tirania criticada por Orwell em sua sciencie fiction. Por quê? Porque, na sua criação, a realidade é vaga e inacessível, submetida ao ‘buraco da memória’, um forno onde se queimava toda a documentação histórica conforme a ‘realidade’ imposta a uma classe oprimida de comandados, apenas acima dos ‘proles’ mais miseráveis.

O livro cria ironicamente outras absurdidades tecnológicas, como ‘a tele-tela’, ‘o duplipensar’, ‘a polícia do pensamento’, ‘a crime-idéia’ etc. Mas, do ponto de vista do ‘quarto poder’, que é a ilegitimidade de uma imprensa em sua aliança com o mais forte, é ‘o buraco da memória’ o responsável por um eterno presente em que o real é o ditado pelos déspotas. Quando torturado, Winston Smith ‘aprende’ de O’Brien que 2 + 2 não são sempre 4, podem ser… 5! E, nos ‘momentos de ódio’, uma classe submissa ao poder exercita a sua emoção diante da ‘tele-tela’, a injuriar um judeu supostamente chefe da resistência contra o amado Big Brother.

Mas quem era Goldstein ninguém sabia. Nem mesmo se existia, como a tal resistência que ele chefiaria, e que, durante a história, mostra-se uma armação do poder para apanhar os rebeldes e destruí-los antes de matá-los. Não se tinha contato com a realidade, vivendo-se embebido num fluído, ambivalente e escorregadio, pelo qual se deslizava aos poucos à desgraça. Mutatis mutandis, apenas com pequeno exagero, temo que o nosso bin Laden seja uma espécie de Goldstein. Afinal quem é ele, mesmo? Será, sem qualquer dúvida, o líder da al-Qaida que é responsável pelo 11 de Setembro? E, depois disso, onde andou? Onde anda? Quanto mais o tempo passa, e famoso fica, não se parece mais com Goldstein?!

Quando O’Brien recebe Winston, isso é bem central no filme, ele nos faz crer que a resistência existe. Mas não como uma organização. Um movimento espontâneo e anárquico de desajustados. Mas Winston não percebe a contradição: se Goldstein os liderasse, se tivessem um líder, a resistência não poderia ser assim. O’Brien coloca nas mãos de Winston a obra de Goldstein, Teoria e prática do coletivisno oligárquico‘, mas que ele mesmo e outros teriam escrito para iludir e confundir as mentes menos avisadas.

As aparências enganam! De modo que não se fica sabendo quem era o Big Brother, que não fosse um O’Brien por um torturador mais próximo! Ou um Goldstein, por uma imagem duvidosa na ‘teletela’! Justamente como parece formam a nossa opinião sobre bin Laden. A mídia, enquanto aliada à perversidade de uma globalização armada, a mídia enquanto o ‘quarto poder’, não estaria a se tornar, mais e mais, um ‘buraco da memória’? Como mudou depois do 11 de Setembro! Inclusive entre nós.

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