Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > APARTHEID SOCIAL

Mídia reforça a exclusão

Por Mário Augusto Jakobskind em 18/01/2005 na edição 312

O conservadorismo e elitismo dos principais jornais brasileiros é cada vez mais acentuado. Nos últimos dias, além de editoriais ululantes, alguns colunistas amestrados demonstraram indignação pelo fato de nos próximos exames para o ingresso no Itamaraty a língua inglesa não será mais eliminatória. Consciente ou inconscientemente, esses senhores da grande mídia colaboram no sentido de que a classe média se torne cada vez mais preconceituosa e, como bem afirmou Chico Buarque de Holanda, tenha um do gênero apartheid ao lidar com os pobres.

Um dos mais vendidos jornais do Rio de Janeiro chegou até a sair com um mini-editorial intitulado ‘Analfabetismo diplomático’. Em um outro diário carioca, um jornalista que já foi banqueiro desancou o chanceler Celso Amorim, o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães e o assessor internacional da presidência da República, Marco Aurélio Garcia. Outros menos votados acusaram a troika de anti-americanismo.

Jornalisticamente e sem preconceitos de classe, os pauteiros da grande mídia poderiam propor matérias que, certamente, levariam o leitor a refletir. Primeiro: quanto custa um curso de inglês no Brasil? Procurar saber que classe social em sua maioria freqüenta esse tal curso. Além disso, especialistas no tema poderiam ser acionados para que explicassem em quanto tempo alguém medianamente dotado pode aprender uma língua estrangeira, anglo-saxônica ou latina.

Tem mais: quantos brasileiros em idade para prestar concurso público viveram no exterior e têm domínio do inglês ou outra língua qualquer? A que classe social pertencem esses cidadãos? As respostas não são difíceis de serem dadas e seriam ainda reforçadas com uma pesquisa mais detalhada.

Essa pauta seria apenas para contrabalançar a mesmice das críticas, ao estilo pensamento único, contra a medida adotada pelo Itamaraty. Na verdade, o inglês, como o espanhol e o francês, continuará como matéria classificatória – o que elimina o argumento primário, levantado pela grande mídia conservadora e elitista, sobre o ‘analfabetismo’ em relação ao inglês. Até porque, depois de cursar o Instituto Rio Branco e quando for para o exterior, o diplomata terá domínio absoluto do idioma inglês.

Na verdade, a medida adotada pelo Itamaraty é de inclusão social, ou seja, a partir de agora as vagas para o Instituto Rio Branco não serão destinadas em sua quase totalidade apenas aos cidadãos de mais alto poder aquisitivo. A raiva desses senhores da mídia é sintomática.

Além do elitismo, pesa também ódio direitista pela condução da política externa do atual governo. Os colunistas amestrados fazem mais o estilo tirar o sapato passivamente ao entrar nos Estados Unidos, como fez o chanceler do governo Fernando Henrique Cardoso, Celso Lafer.

Preconceito estético

Este esquema elitista da grande mídia nacional remete à matéria feita pelo The New York Times sobre a freqüência de mulheres obesas nas praias cariocas. Mais uma vez, o correspondente do jornal, Larry Rother, também um conservador elitista com agravante de que pensa que conhece o Brasil, deveria circular por praias em outros países e constatar que a freqüência de gordas ou gordos nas praias não preocupa quem quer que seja – com a exceção, é claro, dos provincianos.

Vale com sugestão a Rother uma circulada em Ibiza, uma ilha espanhola paradisíaca, no Mediterrâneo, ou na Riviera Francesa. Por aquelas bandas não há nenhum tipo de preconceito estético. É bom lembrar que a única estética que vale é a ética, que talvez ande em baixa nos jornalões daqui e no The New York Times.

Confirmação

Se alguém estava em dúvida sobre o caráter elitista e conservador da grande mídia, as matérias sobre os flanelinhas, divulgada com todo o alarde pelo jornal O Globo e pela TV Globo, talvez se convença. O que dizer então de uma chamada de primeira página ‘Flanelinhas têm antecedentes criminais’?

A matéria, que falava da prisão pela PM de 32 guardadores de carros no centro do Rio, na verdade remete o leitor a concluir que todos os flanelinhas, alguns trabalhando há 15 anos no mesmo local, têm passagem pela polícia. Mesmo que alguns tenham sido condenados por algum eventual delito, perguntem, senhores pauteiros, a religiosos integrantes da Pastoral Penal, se não se pode dar oportunidade social a qualquer cidadão que porventura tenha delinqüido em algum momento de sua vida. Por que então ‘Flanelinhas têm antecedentes criminais?’

Em outros termos, quem passou pela polícia nunca terá a oportunidade de retornar ao convívio social? Para o jornal, parece que não: preso é preso e está acabado.

Por estas e outras, não adianta os senhores da mídia dizerem que não têm preconceito e que estão fazendo jornalismo. A prática demonstra justamente o contrário. Estão, isto sim, estimulando a sociedade do apartheid social, que cidadãos com sensibilidade como Chico Buarque de Holanda detectam e chamam a atenção.

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Jornalista, integrante do Conselho Editorial do jornal Brasil de Fato

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