Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Mídia reivindica desimportância

Por Mauro Malin em 24/08/2004 na edição 291

O Globo, a Folha de S.Paulo e Veja procuraram mostrar, no fim de semana de 21-22/8, que a mídia não foi responsável pela cassação do deputado Ibsen Pinheiro em 1993, como pretendeu IstoÉ uma semana antes. Literalmente, é certo que a mídia não cassou Ibsen. Seus pares na Câmara o fizeram – por 296 votos, contra 139.

Para atenuar o alcance dos desatinos que comete, a mídia não hesita em reduzir sua própria importância no processo político. Qualquer sociólogo de botequim identificaria uma dose excessiva de ‘cretinismo parlamentar’ na idéia de que deputados e senadores votam sem levar em conta as tendências da sociedade que a mídia espelha e alimenta, alimenta e espelha. Sem mídia funcionando, o Congresso perde o sentido.

Esse esforço defensivo não tem nada de surpreendente. Em lugar nenhum do mundo a mídia gosta de reconhecer seus erros ou dar satisfações a quem quer que seja. No Brasil, ganhou um bom pretexto para se esquivar à crítica quando o governo federal encampou infeliz proposta, feita por uma entidade sindical, de se criar uma autarquia capaz de ‘orientar, disciplinar e fiscalizar’ o trabalho da imprensa no país.

Ibsen, o volátil

Em reportagem de Frederico Vasconcelos, a Folha ouviu Ibsen, sob o título ‘Ex-deputado absolve mídia por sua cassação em 1993’. O lead é categórico: ‘A cassação (…) não foi provocada por distorções em informações publicadas pela imprensa’. Em seguida, a asseveração ganha patronos: ‘Quem admite isso é o próprio parlamentar cassado e o relator da CPI do Orçamento, Roberto Magalhães’.

A opinião de Ibsen mudou. Em 19 de maio de 1994, a reportagem da Folha sobre a cassação, votada na véspera, citava:

‘No discurso [feito durante a sessão], Ibsen defendeu a Câmara e atacou a imprensa. ‘Sempre fui um defensor desta Casa. Não permiti que a polícia entrasse aqui para investigar as denúncias de prostituição e tráfico de drogas na Câmara’, afirmou. As duas reportagens foram publicadas pela Folha. Ibsen afirmou que a imprensa tem interesse em criticar o Congresso, sem deixar claro que interesses são estes: ‘É preciso intimidar a Casa, mantê-la acossada’. Segundo o deputado, ao contrário da saúde e dos livros no Brasil, a imprensa tem isenção de impostos e uma ‘convivência espúria’ com as verbas públicas’.

A crítica da crítica

O ombudsman da Folha, Marcelo Beraba, repete Frederico Vasconcelos. ‘Não foi o erro do repórter – que, segundo a Veja, nem sequer foi publicado – que cassou o mandato de Ibsen Pinheiro’. E, como Vasconcelos, refere-se a fatos apurados pela CPI do Orçamento: ‘Ele [Ibsen] foi cassado, segundo a representação da Mesa da Câmara, porque ‘comprovou-se a prática de atos passíveis de caracterizar incompatibilidade com o decoro parlamentar, notadamente o enriquecimento sem causa e prática de infração fiscal’’.

Beraba lamenta não ter tido condições de estudar e analisar melhor o caso. Mas dá as informações principais: Ibsen não teria conseguido explicar sua movimentação bancária entre 1989 e 1993. Na mesma edição dominical da Folha, Janio de Freitas, que classifica como farsa o arrependimento de Luís Costa Pinto via IstoÉ, relaciona denúncias contra Ibsen examinadas pela CPI: transferência de recursos ao Uruguai para escapar ao confisco de 1990; venda não documentada de uma caminhonete; não ter agido, como presidente da Câmara, para permitir o devido curso da primeira CPI do Orçamento, arquivada em 1992; ter comprado um imóvel com ‘dinheiro levado em mala’. Resume: ‘Ibsen Pinheiro foi cassado pelo conjunto de sua obra’. E conclui: todos esses dados foram publicados à época e jamais contestados. ‘Nem mesmo pelo atual denuncismo contra o denuncismo da imprensa, que preferiu ou precisou não os lembrar.’

Veja julga e condena

Veja cobra de IstoÉ (‘Uma farsa chamada IstoÉ’) uma ‘lição de casa’ que não fez. Os três jornalistas da Folha, com graus bem diferentes de profundidade, fizeram. E também O Globo, na reportagem ‘Ibsen foi cassado porque não explicou depósitos’, assinada por Ilimar Franco e Maria Lima (edição de 22/8), onde há uma cifra – espera-se que bem checada: ‘US$ 847.992 não foram explicados e eram incompatíveis com seus vencimentos, que somaram, no mesmo período, o equivalente a US$ 430.359’.

Veja usa um estilo lacerdista de combate. E, a folhas tantas do processo, condena Luís Costa Pinto: ‘Sua carta a Ibsen cortou definitivamente sua trajetória no jornalismo’. Está exarada a sentença. Veja dispensa conselho, tribunal de ética, o que seja. O ‘crime’, note-se, foi ter escrito a carta.

IstoÉ aproveitou-se: ‘Nem um stalinista Conselho Federal de Jornalismo da velha União Soviética faria o que fez Veja‘.

IstoÉ conseguiu a proeza de responder a Veja sem dizer uma palavra a respeito da mais grave acusação que já sofreu, a de ter vendido à Federação das Indústrias do Rio de Janeiro uma reportagem de capa sobre o Rio que favorecia politicamente a governadora Rosinha Mateus e o ex-governador Anthony Garotinho.

Nenhum dos veículos citados faz qualquer referência à questão da propriedade concentrada dos meios de comunicação.

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