Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > CHACINA DA FAMÍLIA YONEKURA

Mídia torna tragédia ainda mais traumática

Por Heloisa Maya Sassaki em 04/10/2005 na edição 349

Virou clichê nas faculdades de Jornalismo dizer que os repórteres de polícia, muitas vezes, não têm tato com os parentes de vítimas de grandes tragédias. Mesmo assim, a lição não é aprendida. A falta de sensibilidade de alguns jornalistas é capaz de tornar um fato já traumático em algo mais insuportável ainda, com seus questionamentos fora de hora, informações imprecisas e notícias que atrapalham as investigações policiais e mesmo a segurança das pessoas.

A chacina da família Yonekura aconteceu na manhã de um domingo (11/9). E a imprensa, antes dos parentes, ficou sabendo do fato. Primeiramente, relatou o incêndio que havia acontecido na casa e não se falou sobre latrocínio. Depois, reportaram as cinco mortes, dizendo haver dois sobreviventes: um bebê e um dos filhos dos aposentados Futaba e Tadashi Yonekura, que acabara de voltar do Japão.

Faltou bom senso

Enquanto isso, por volta das 18h, os parentes das vítimas eram informados da tragédia por um amigo de Nilton (outro filho do casal, que também foi assassinado). Daí começou a odisséia pela procura de informações sobre os sobreviventes e sobre os mortos. Só não se imaginava que, além dessas preocupações, a imprensa também seria um problema.

Na noite do domingo, um dos sobreviventes, de 29 anos, estava internado num hospital da zona leste de São Paulo, perto do local em que aconteceu o massacre. Alguns sites, como o do provedor Terra e a edição online de O Estado de S.Paulo, davam o nome do lugar onde o jovem se encontrava. Será que não era óbvio que a divulgação dessa informação colocava em perigo a vida da vítima? A família soube disso e teve que ligar para os órgãos de imprensa pedindo que não se veiculasse essa informação. Ainda assim, o deslize dos jornalistas os obrigou a transferir o sobrevivente às pressas para outro hospital.

No dia seguinte, todos os jornais de São Paulo davam destaque à chacina. Só a Folha de S.Paulo publicou o nome de um dos sobreviventes, mesmo com o pedido do delegado que cuidava do caso de que não fossem divulgados quaisquer nomes. Segundo o pauteiro do caderno Cotidiano, o jornal desconhecia o pedido de omissão de nomes, mesmo sendo o veículo impresso de maior circulação do país. O apelo seria necessário? Faltou bom senso.

Trégua de um dia

Amigos da família ligaram para o jornal, mas até a quarta-feira o nome ainda vinha sendo veiculado. Como se não bastasse, a mesma publicação divulgou que haveria tantos mil dólares na conta do sobrevivente. Quem revela quanto possui em sua conta bancária? Muitos jornalistas ainda tentaram confirmar esta informação com a família, que fez a mesma pergunta: ‘E os jornalistas, quanto ganham? Você seria capaz de publicar no jornal quanto tem na sua conta bancária?’. Os profissionais se calaram.

Mais uma vez, a família teve que intervir. Em meio a visitas ao Instituto Médico Legal, a funerárias, cemitérios e hospitais, os parentes tiveram que arranjar tempo para contatar o jornal e mais uma vez reclamar de sua falta de sensibilidade. O repórter que cobria o caso mostrou-se solícito e deixou de escrever tais informações. Contudo, o estrago já estava feito. O Estado de S.Paulo, percebendo que o concorrente publicava os nomes e a suposta quantia de dólares havia dias, resolveu veicular a notícia. Mais ligações tiveram que acontecer. ‘Mas todo mundo já sabe o nome dele’, argumentava a editora do jornal, em referência ao sobrevivente. Segundo ela, os leitores do veículo sabiam que o valor dos dólares seria uma estimativa dos policiais que investigam o caso, mas não é isso que se pensa. A idéia que fica é de que seria a quantia exata trazida pelos dekasseguis (descendentes de japoneses que vão trabalhar na terra do Sol Nascente). E isso se espalhou aos demais meios de comunicação.

O mesmo O Estado de S.Paulo, após trégua de um dia, voltou a publicar as informações indesejadas pela família. A reportagem do Fantástico (Rede Globo), mesmo avisada com antecedência da vontade dos parentes, colocou no ar não só o nome completo do sobrevivente, como uma cópia de sua cédula de identidade. Imagine se a foto fosse mais nítida… Ninguém pensa que a veiculação de uma informação como essa pode ser perigosa para a única testemunha desse massacre?

Futuros alvos

Os veículos de televisão também deram sua contribuição para o aumento do trauma. Todos sabem que esse é o meio de comunicação de maior propagação e audiência, nem por isso é o mais responsável. Enquanto a família das vítimas se desdobrava para conseguir achar os documentos dos entes falecidos, noticiava-se que os corpos estavam esquecidos no IML, o que despertou a ira de parentes do interior do estado. Um deles chegou ao ponto de telefonar para o celular de Tsuneto Sassaki (irmão de Futaba, que cuidava de todos os trâmites para o enterro) e disse que ele era um insensível por deixar a irmã e os sobrinhos esquecidos no IML, enquanto ele estava no local, lutando por um funeral decente.

Às vezes os comunicadores se esquecem do tamanho da responsabilidade que carregam, da importância que as notícias têm na vida da população. A família foi retratada como fria e despreocupada com os parentes, o que de maneira nenhuma é verdade. Em momento algum os sobreviventes foram deixados de lado ou esquecidos, quanto menos os mortos. Ninguém sabe quão trabalhoso é enterrar cinco corpos, sendo que dois deles não tinham documentos (queimados junto com a casa). Segue uma sugestão: jornalistas, antes de publicarem uma notícia pensem na força das suas palavras.

Com essa atitude, a imprensa faz com que não só os sobreviventes da chacina permaneçam como vítimas em potencial, mas com que todos os dekasseguis se tornem alvo para futuros delitos. Na comunidade brasileira no Japão a notícia soou como uma ameaça a todos os imigrantes, como se a partir de agora todos estivessem sujeitos à mesma tragédia.

Como o senhor se sente?

Em diversas publicações foi feita a relação do crime com os dekasseguis, com direito a boxes com informações sobre o estilo de vida dos imigrantes, renda etc. Mas não se falou muito sobre o esforço dessas pessoas, que estão longe de amigos e parentes, em jornadas de trabalho intermináveis, para trazer um pouco de dinheiro e ter a chance de viver mais dignamente no Brasil. Fica parecendo que os dekasseguis ganham seu salário de maneira fácil e que não custa nada passar uns bons anos fora do país. Ledo engano.

Após o enterro de todas as vítimas, a imprensa pareceu achar que a família estaria pronta para falar sobre o assunto. Tsuneto Sassaki foi procurado de todas as maneiras pelos mais diversos veículos de comunicação, tanto do Japão como do Brasil, para dar declarações. No próprio funeral, muitos jornalistas se infiltraram no meio dos parentes e amigos em busca de informações sobre a tragédia. E o pior, alguns registraram em fotos esse momento de dor. Insensibilidade pura.

Sassaki deu a desejada declaração e sentiu que a imprensa ficaria satisfeita. Contudo, não foi poupado da pergunta mais imprópria para esse tipo de caso: ‘Como o senhor se sente neste momento?’ A jornalista foi ignorada. O curioso é que, questionado pelos repórteres japoneses, ele não se sentiu tão agredido. Em japonês, a pergunta ganha um caráter mais humano: ‘Como o senhor descreveria o momento pelo qual está passando?’. E a resposta foi dada.

Imaginem-se em nosso lugar

Esses deslizes foram cometidos por veículos de comunicação desacostumados com casos policiais. Ao contrário dos ‘grandes’ jornais, o Agora São Paulo e o Diário de S. Paulo respeitaram o pedido dos policiais e não divulgaram informações prejudiciais às vítimas. E isso foi motivo de surpresa para a família.

Atualmente, a luta dos repórteres de polícia consiste em conseguir uma declaração do sobrevivente de 29 anos. Será que passa pela cabeça de algum desses jornalistas que o trauma de perder mãe, pai, esposa e irmãos já não é o bastante? Sim, tem-se que colocar o dedo na ferida. Para o jornalismo marrom, informar não basta, é preciso prolongar a dor.

A família sabe e entende que o trabalho dos jornalistas é o de informar a população. Por isso, sempre que pôde, prestou declarações à imprensa. Mas, invadir a privacidade de pessoas comuns, atentar contra a segurança dos sobreviventes e fazer perguntas sem sentido não são atitudes toleradas por ninguém. Ainda menos por uma família já tão traumatizada com essa tragédia. O apelo é para que a imprensa seja mais humana e cautelosa. E isso não é difícil. Imaginem-se em nosso lugar.

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Estudante de Jornalismo, sobrinha e prima das vítimas

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