Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > QUARTA-FEIRA, 12/09

Mídia virou partido, diz Wanderley Guilherme

Por Textos selecionados por Luiz Antonio Magalhães em 13/09/2007 na edição 450


Leia abaixo a seleção de quarta-feira para a seção Entre Aspas.


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Conversa Afiada


Quarta-feira, 12 de setembro de 2007


MÍDIA & POLÍTICA
Paulo Henrique Amorim


IMPRENSA NO BRASIL VIROU PARTIDO POLÍTICO


‘Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil.


. A imprensa no Brasil é um partido político. É o que diz o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos (*).


. A imprensa no Brasil se considera indestrutível porque ela resiste à democratização, à republicanização do Brasil.


. Os militares brasileiros hoje se submetem mais à lei do que a imprensa.


. Para Wanderley Guilherme dos Santos, restou à imprensa brasileira ter a capacidade de gerar crises, instabilidade política.


. No Governo Lula, a imprensa pratica o ‘quanto pior melhor’, que, antes, atribuía à esquerda: ela combate políticas que, sabe, são benéficas ao país, mas não tolera que sejam praticadas por um líder comprometido com as classes populares.


. ‘Isso (o compromisso com as classes populares) é algo que irrita e, conseqüentemente, faz com que aumente a disposição da imprensa para acentuar tudo aquilo que venha a dificultar e comprometer o desempenho do governo’, continuou o professor.


. Essa entrevista faz parte de um projeto sobre a mídia conservadora (e golpista!), que chegará ao seu final em 2008.


Leia a íntegra da entrevista com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos:


Quando se fala em mídia como o ‘Quarto Poder’, qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?


A primeira coisa que me vem à cabeça: não é uma particularidade nacional. Porque, na verdade, na teoria democrática clássica, não havia previsão para o aparecimento de um lugar institucional com poder político relevante. Então, você tinha o Parlamento e você tinha o Executivo. O Parlamento podia ser dividido em duas Casas, como quando tem Senado e Câmara, ou ser unicameral. O Executivo podia ser ou de gabinete ou uma Presidência da República. Mais o Judiciário, quando árbitro dos conflitos eventualmente surgidos entre as duas estâncias anteriores. Mas não havia, não há previsão em nenhuma teoria, de algo, de uma instituição que veio a ser a imprensa. Como também, aliás, não havia para as Forças Armadas. Não se concebia que as Forças Armadas viessem a ser um ator político relevante.


Mas, sobretudo, a imprensa. Porque, de certo modo, ela encarnaria não um poder, mas a vigilância do poder. Era a garantia do direito de opinião, a garantia do direito de expressão de idéias e a garantia de vigilância dos poderes constituídos. Então, era muito mais um órgão defensivo e reflexivo do que interferente. A partir do momento em que você tem uma sociedade de massa, ou seja, o tamanho do eleitorado traz novidades para o funcionamento da democracia – ninguém jamais imaginou eleitorado de mais de dez milhões de pessoas -, isso também trouxe uma modificação do papel das instituições. Em princípio, elas interagem com estas massas que têm peso.


O resultado foi que aquelas instituições que, de certa maneira, condicionam e influenciam a formação de opinião das massas, fazendo com que a disposição delas se altere ou se incline numa direção ou em outra, aquelas instituições passaram a ter um papel de importância.


A imprensa, os órgãos de comunicação e informação, na medida em que condicionavam e orientavam a inclinação desta população, e o peso delas se tornando cada vez maior dentro do funcionamento das democracias, fizeram com que esta instituição, a imprensa, passasse a ter um papel híbrido: de um lado, refletia o real; e de outro, ao mesmo tempo, interferia, interfere e condiciona as alternativas deste real.


É necessário deixar claro que isso não aconteceu por nenhuma conspiração, nenhum plano previamente estipulado. Foi assim, numa democracia de massa, com o problema do populismo, por exemplo. Este novo papel desempenhado pela imprensa, envolvida no seu papel constitucional, teórico, de expressão de opinião, controle e vigilância da ação dos poderes públicos, e, ao mesmo tempo, cobrar responsabilidade desta instituição pública, tem que ter norma a que deva obedecer, tem que ter instâncias de julgamento – com o qualquer agente público. E não se trata de julgamento estritamente policial, trata-se de julgamento político. Não existe consenso sobre como conciliar esta responsabilidade, que deve ser cobrada neste ato público, com o que é fundamental também numa democracia – que é o respeito à liberdade de imprensa, à liberdade de opinião.


Quer dizer, a liberdade de expressão de opinião é crucial e essencial na definição do que é democracia. Quando esta expressão de opinião pode de alguma maneira trabalhar contra a democracia, cria um problema. É o mesmo problema que se coloca em relação a partidos revolucionários. Democraticamente, é necessário que se permita a organização em partidos as diversas opiniões, correntes. Agora, em que medida este direito deve ser ou pode ser assegurado a partidos cujo objetivo é fazer com que desapareçam as instituições que permitam que ele exista – isso é uma complicação numa teoria democrática. Então, esse é um problema contemporâneo da imprensa, não é só no Brasil: como conciliar os dois papéis que a imprensa tem. Primeiro, como instituição da sociedade privada de exprimir o que se passa no mundo e a opinião da população. Por outro lado, na medida em que se comporta como ator político, ter instâncias que cobrem responsabilidade política dessa instituição.


Este problema já foi resolvido em algum país ?


Institucionalmente, não. O que você encontra é uma evolução da cultura política e também do poder da sociedade civil, do poder privado. Na verdade, até agora não se criaram instituições consensuais para a solução deste problema. Tem sido resolvido pela idéia gradativa de redução da importância da imprensa, como condicionador das atitudes da população. Isso é o que tem acontecido nas sociedades ricas, porque dependem cada vez menos das políticas de governo. Porque são ricas, porque a sociedade é abundante, então, a opinião que os jornais e as televisões começam a distribuir – dizer que o governo é isso, que o governo é aquilo, isso não tem conseqüência sobre a vida privada dos cidadãos. E por isso mesmo a opinião da imprensa deixa de ser relevante. Então, o que tem acontecido nos países mais estabilizados, não é que se tenham criado instituições de controle ou de chamada à responsabilidade, mas que os jornais e as televisões vêm perdendo importância.


Especificamente no Brasil, como é que esse cenário se desenvolveu? Quem se aproveitou?


Quem se aproveitou eu não sei. No Brasil, você tem uma circunstância peculiar que é o fato de que as empresas jornalísticas têm os interesses empresariais também fora do circuito de informação. Então, isso faz com que as opiniões da imprensa não se apoiem apenas, como se diz, pelos preceitos de seus comentários, mas pelo interesse de matérias econômicas também, que são defendidos sob a desculpa, o contexto de que está sendo defendido o interesse da população. Então, este aspecto é o aspecto que não se encontra muito nos países desenvolvidos: a distância entre empresas, empresas jornalísticas que têm interesses comercias e empresariais, além dos interesses jornalísticos.


E isso cria uma situação muito particular, porque, afinal de contas, os interesses econômicos e empresariais de proprietários de jornais deviam ter suas instâncias de defesa e não utilizar a imprensa para isso. Mas, esta é a peculiaridade do Brasil. E é isso o que se mistura com freqüência no Brasil: as campanhas políticas desenvolvidas pela imprensa, sob o pretexto de que são questões que se quer públicas, mas, na verdade, são interesses privados dos próprios empresários jornalísticos.


Paulo Henrique Amorim costuma dizer que em nenhuma democracia importante do mundo os jornais e uma só emissora de TV têm a importância política que têm no Brasil.


Quer dizer, só em países mais ou menos parecidos com o Brasil. Fora países, digamos, com renda per capita inferior a 30 mil dólares, fora países desta faixa, isso não existe. Ou seja, em todos os países (com renda superior a 30 mil dólares), a imprensa não tem esta capacidade de criar crises políticas, como tem nos países da América Latina.


Aqui no Brasil, com esta importância política que os jornais e a Globo têm, como é que eles exercem este poder?


O modo tradicional de exercer o poder em países como o Brasil, e isso tem acontecido historicamente com freqüência, é a capacidade que a imprensa tem de mexer na estabilidade, ou seja, de criar crises, cuja origem é simplesmente uma mobilização do condicionamento da opinião pública. O que a imprensa nos países da América Latina, e particularmente no Brasil, tem é a capacidade de criar instabilidades. É a capacidade que a imprensa tem de criar movimentação popular, de criar atitudes, opiniões, independentemente do que está acontecendo na realidade. Isso é próprio de países latino-americanos, mas particularmente no Brasil, em que as empresas jornalísticas têm poder econômico e capacidade e disposição para a intervenção política. Então, a arma da imprensa no Brasil, o seu recurso diante dos governos: esta capacidade de criar instabilidade política.


Como é que o senhor vê o papel da mídia no governo Lula ?


Tem dois aspectos. O primeiro aspecto é fato de o governo Lula ser um governo inédito no Brasil. É realmente um governo cuja composição de classe, cuja composição social é diferente de todos os governos até agora. Isso não foi e dificilmente será bem digerido. Agora, em acréscimo a isso é que, ao contrário do que se teria esperado ou gostariam que acontecesse, este é um governo que até agora tem se mantido fiel à sua orientação original, independentemente das discussões internas do grupo do PT. A verdade é que as políticas do governo têm prioridades óbvias, que são as classes subalternas. Isso é algo que irrita e, conseqüentemente, faz com que aumente a disposição da imprensa para acentuar tudo aquilo que venha a dificultar e comprometer o desempenho do governo.


Em que outros episódios da Historia do Brasil a imprensa usou a arma da instabilidade ?


No Brasil, tivemos em 1954, com a crise que resultou no suicídio de Vargas, em que tudo foi utilizado. Documentos falsos que foram apresentados como verdadeiros, testemunhos de estrangeiros que seriam associados a confusões internas…


Houve em 1955, na tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek. E em 1961, na crise de Jânio, na sucessão do Jânio. E em 1964.


Depois, durante o tempo do período autoritário, evidentemente, houve uma atuação explícita da imprensa. Não se falava a favor, mas também não se desafiava. Com o retorno da democracia, a imprensa interveio outra vez, na sucessão de Sarney, com todas as declarações e reportagens absolutamente falsas em relação ao candidato das forças populares, que já era Lula. Isso se repetiu nas duas eleições de Fernando Henrique, mas mais moderadamente. Foi bastante incisiva durante a primeira campanha. Na segunda, a imprensa se comportou razoavelmente. Houve certas referências, mas nada escabroso.


Mas, os dois últimos anos foram inacreditáveis em matéria de criação de fatos sobre nada: foi inacreditável. Para 50 anos de vida política, é uma participação à altura dos partidos políticos e dos militares. Quer dizer, fazem parte da política brasileira os partidos, as Forças Armadas e a imprensa.


Destes episódios que o senhor listou qual o senhor acha que é o mais emblemático ?


Eu acho que dois episódios. Primeiro, a tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Por quê? Porque Juscelino não era intérprete ou representante de uma classe ascendente. Ele pertencia à elite política. Era um homem do PSD – Partido Social Democrata. Juscelino era um modernizador. Portanto, a tentativa de impedir a sua posse mostra o radicalismo e a intolerância das classes conservadoras brasileiras. Quer dizer, naquele momento, não aceitava nem mesmo um dos seus membros, porque era um modernizador. Este episódio é bem emblemático. Não houve nada de dramático, de trágico ou suicídio, mas é um exemplo de até onde pode chegar a intolerância do conservadorismo brasileiro. É impressionante. Esse foi pra mim um episódio que define muito bem até onde o conservadorismo é capaz de violar os escrúpulos democráticos.


E o segundo ?


É agora com Lula, porque a posse de Lula realmente revela uma nova etapa histórica no país. E revela o quanto o conservadorismo se dispõe a comprometer o futuro do país, pelo fato de o governo estar sendo exercido pelo intérprete de uma nova composição social. Isto é, há um grupo parlamentar e há grupos privados – e neles se inclui a imprensa – dificultando a implementação de políticas que são reconhecidamente benéficas ao país, porque estão sendo formuladas e implementadas por um governo intérprete das classes populares. Isso é impressionante. Quer dizer, no fundo, aquilo que os conservadores dizem que as forças populares – segundo eles, para a esquerda, quanto pior melhor -, na prática, quem pratica o quanto pior melhor são os conservadores.


Por que, na opinião do senhor, a mídia se considera inatacável, indestrutível ?


Ela se considera indestrutível porque ela tem razões para isso. Ou seja, uma das instituições que até agora vem resistindo à democratização, à republicanização do país é a imprensa. Um país moderno e democrático é um país em que não existe instituição ou pessoa com privilégio de direitos, pessoa que não seja submetida à lei. Na medida em que a democracia se implanta nos países, se reduz o número de instituições e grupos sociais que não se submete à lei. Todo mundo fica, de fato, igual diante da lei. Isso vem acontecendo gradativamente, vagarosamente, mas inapelavelmente no Brasil. Na realidade, nós temos até que as Forças Armadas hoje, no Brasil, estão mais democraticamente enquadradas, mais juridicamente contidas do que a imprensa. Hoje, é muito mais difícil para um representante das Forças Armadas violar impunemente as leis do que a imprensa.


(*) Wanderley Guilherme dos Santos é titular da Academia Brasileira de Ciências, diretor do Laboratório de Estudos Experimentais e pró-reitor de Análise e Prospectiva da Universidade Cândido Mendes, professor titular aposentado de teoria política da UFRJ e membro-fundador do Iuperj.


Seus últimos cinco livros publicados são:


Governabilidade e Democracia Natural (FGV editora, 2007)


O Paradoxo de Rousseau (Editora Rocco, 2007)


Horizonte do Desejo (Editora FGV, 2006)


O Ex-Leviatã Brasileiro (editora Civilização Brasileira, 2006)


O Cálculo do Conflito (UFMG, 2003)’


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RENAN: A MAIOR DERROTA DA IMPRENSA


‘Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil.


. A absolvição de Renan Calheiros é a maior derrota da imprensa brasileira depois da reeleição do Presidente Lula.


. A Veja, a Globo, o Estadão, a Folha e O Globo e seus inúmeros e inúteis colunistas jogaram todas as fichas na cassação.


. Como ensina o professor Wanderley Guilherme dos Santos, a imprensa brasileira se transformou num partido político.


. E jogou tudo contra um político da base de apoio ao Presidente Lula.


. Renan Calheiros cometeu todos os crimes que 99,9% dos políticos brasileiros cometem.


. Renan Calheiros provavelmente pagou a mulher com quem teve uma filha fora do casamento numa operação idêntica à de outro ex-senador de partido da oposição.


. Sobre a operação do ex-senador, a mídia conservadora (e golpista !) se cala até hoje.


. A mídia conservadora (e golpista !) foi atrás de Calheiros também porque ele é nordestino.


. E a elite branca (e no caso da elite de São Paulo, também separatista) não gosta de ninguém da base aliada do Presidente Lula e muito menos se for nordestino.


. Imagine se Renan Calheiros fosse do Piauí…


. Renan Calheiros não é um santo.


. Mas, o Senado mostrou que a mídia conservadora (e golpista !) pode enfiar a faca no pescoço do Supremo, mas não enfia a faca no pescoço do Senado.


. (E de que adiantou o Supremo deixar os deputados assistirem à sessão ? Nada.)


. Se a mídia conservadora (e golpista !) tivesse o poder de enfiar a faca no pescoço do Senado, quantas cabeças ficariam em cima do pescoço ?


. A mídia conservadora (e golpista !) agora vai dizer que Renan Calheiros não tem condições de presidir o Senado.


. É porque para a mídia conservadora (e golpista !) só valem os 35 votos a favor da condenação.


. O Procon tem a obrigação de interpelar a Veja, a Globo, O Globo, a Folha e o Estadão, que transformaram durante um mês e meio Renan Calheiros num cadáver e enganaram seus consumidores.’


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Folha de S. Paulo


Quarta-feira, 12 de setembro de 2007


CASO TIM LOPES
Ruy Castro


Cana máxima


‘RIO DE JANEIRO – Zeu de Tal, um dos sete condenados pela morte do repórter Tim Lopes em 2002, beneficiou-se em julho último da ‘progressão da pena’ que vigora entre nós. É um dispositivo pelo qual, tendo cumprido 1/6 do tempo, o detento pode sair para passear, visitar a velha ou cometer novos crimes, desde que volte para dormir atrás das grades. Zeu, compreensivelmente, preferiu não voltar.


Fora da prisão, o beneficiado pela ‘progressão da pena’ tem uma agitada vida social. Alguns de seus compromissos são com os que contribuíram para a polícia prendê-lo cinco anos antes. Essas pessoas costumam ser gente pobre das ‘comunidades’ por onde o bandido circulava. O dito Zeu não deve estar chegando para as vinditas.


Tim Lopes foi morto no Complexo do Alemão pela quadrilha do traficante Elias Maluco por causa de uma reportagem de TV. Eles o torturaram, amputaram seus membros a frio e, terminado o serviço, levaram-no ao ‘microondas’ -queimaram-no em pneus- para desaparecer com o corpo. Zeu participou fornecendo a gasolina. Pegou 23 anos de cadeia.


Mas, no Brasil, mesmo que o sujeito seja condenado a 300 anos, a sentença cai para um máximo de 30. Elias Maluco, por exemplo, pegou 28. Como já cumpriu mais de 1/6 disso, também está passando da hora de gozar dos privilégios da ‘progressão da pena’. Donde se conclui que, no Brasil, a cana máxima para seqüestrar, torturar, esquartejar, carbonizar e sumir com o corpo é de cinco anos.


Parece que uma nova lei restringiu a ‘progressão da pena’ ao cumprimento de 2/5 da sentença para os primários e 3/5 para os reincidentes. Mas não está sendo aplicada em respeito aos ‘direitos adquiridos’ dos presos. É bom saber que, não demora, teremos Elias Maluco circulando de novo na praça.’


MÍDIA & RELIGIÃO
Elio Gaspari


Bento 16 e o padre polonês anti-semita


‘A rádio Maria informa: em Auschwitz não era um campo de extermínio, mas um centro de trabalho


O PAPA BENTO 16, tão rigoroso na condenação da igreja esquerdista latino-americana, meteu-se numa das piores controvérsias que podem assombrar um pontificado: o anti-semitismo do clero polonês. Na semana passada ele se deixou fotografar com o padre Tadeusz Rydzyk durante uma audiência coletiva em sua casa de verão de Castelgandolfo.


Monsenhor Rydzyk carrega nas costas a rádio Maria, uma das emissoras católicas de maior audiência no país e vocaliza o reacionarismo xenófobo e obscurantista que manchou um pedaço da igreja na primeira metade do século passado.


Duas pílulas do pensamento vivo do padre Rydzyk, gravadas em abril:


Sobre o presidente da Polônia, Lech Kaczynski: ‘Um fraudador que está no bolso do lobby judaico’.


Sobre as reparações que o governo polonês pagará aos judeus espoliados e massacrados durante a Segunda Guerra Mundial: ‘Você sabe do que se trata. A Polônia dando bilhões aos judeus. (…) Eles vêm e dizem: ‘Me dá o teu casaco! Tire as calças! Passe-me teus sapatos’.


Pelas ondas da rádio Maria os ouvintes já foram informados de que em Auschwitz não havia um campo de extermínio, mas apenas um centro de trabalho. As narrativas segundo as quais lá foram mortos 1,1 milhão de prisioneiros seriam coisa da ‘indústria do Holocausto’.


Antes do início da guerra havia 3 milhões de judeus na Polônia. Em 1945 restavam menos de 300 mil (2,5%). Pode-se argumentar que esses números estão na conta dos crimes no nazismo, mas o anti-semitismo europeu é um fenômeno anterior e posterior ao domínio da suástica. Nos 18 meses seguintes à capitulação da Alemanha foram assassinados mais judeus na Polônia, na Hungria e na Tchecoslováquia do que nos dez anos que antecederam a guerra.


O cardeal de Cracóvia, a Conferência dos Bispos da Polônia, o Núncio Apostólico em Varsóvia e o próprio Vaticano condenaram o anti-semitismo do padre Rydzyk, mas não moveram um só dedo para afastar a igreja da sua rádio. Pelo contrário, o papa recebeu o padre depois que suas diatribes tornaram-se públicas. Essa distinção deve-se ao prestígio de Rydzyk no meio rural da Polônia. Bento 16 entrou na zona de sombra que estragou o pontificado de Pio 12 (1939-1952), aquele que fez o que pôde, menos o que era necessário.


O anti-semitismo de boa parte dos católicos poloneses tem raízes fundas e antigas na cultura do país. Em 1936, o cardeal-primaz August Hlond condenou o anti-semitismo, mas aceitou o boicote aos negócios de judeus. Nas suas palavras ambíguas e terríveis para uma época na qual o chanceler alemão se chamava Adolf Hitler: ‘O problema judeu persistirá enquanto houver judeus’. Uma das maiores figuras do clero polonês, o padre Maximilian Kolbe, martirizado em Auschwitz e santificado por João Paulo 2º, deixou dois textos (entre mais de mil) em que deu crédito aos argumentos da falcatrua da conspiração judaica dos ‘Protocolos dos Sábios do Sion’. Isso não fez dele um anti-semita, mas apenas mostrou como os estereótipos da ocasião chegaram a atingi-lo. Kolbe ofereceu-se para morrer no lugar de outro prisioneiro, que teve a graça de assistir a cerimônia de sua canonização, em 1982.


Um jornal ligado à rádio Maria publicou a notícia do encontro do padre Rydzyk com Bento 16 sob o seguinte título: ‘O Santo Padre nos abençoou’.’


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Façam suas apostas


‘As manchetes acordaram ontem, ‘JN’ inclusive, para o ‘destino’ de Renan, a ser selado hoje, sem TV. E a blogosfera brasiliense não tem outra pauta além do ‘cassino’, no dizer de Valdo Cruz na Folha Online, sobre ‘a arte do adivinho, em cada canto da cidade, cada gabinete, cada corredor’. As ‘apostas seguem o desejo’ de cada um, com o ‘Renanzômetro’, no dizer de Helena Chagas no iG, apontando PT ‘rachado’, segundo Ricardo Noblat no Globo Online, e oposição idem. Até mãe de santo se ofereceu ao presidente do Senado, em ‘inferno astral’, ele que aniversaria esta semana. Na ‘contagem regressiva’, Lauro Jardim, na Veja On-line, ironizou o ‘muro largo’, com dúzias de senadores -e registrou a avaliação de sempre de José Dirceu, de que ‘tudo depende da pressão da mídia’.


LULA E OS REIS


Lula ‘almoçou com reis na Suécia e fez visita de cortesia ao parlamento’, em agenda ‘trivial’ -ele que não queria falar de Renan, segundo o blog de Jardim. Só de etanol, até assinou artigo de meia página, em sueco, no principal jornal financeiro. Louvou o ‘carro verde’, pela tradução do monitoramento da BBC.


MAIS CANA


Na dianteira da busca de Brasil nos sites de notícias, como Yahoo News, texto da Bloomberg destaca a projeção do IBGE de alta na produção de cana-de-açúcar no Brasil -assim como de milho e, em grau menor, de outros grãos como soja e café. O aumento para a cana -o etanol- seria superior ao antes projetado.


MAIS QUEIMADA


O IPS, a tradicional agência engajada, vem produzindo uma série sobre os riscos da agricultura, cana em especial, para a Amazônia e o Cerrado. O ‘Miami Herald’, também, ontem inclusive, sobre a soja. Ambos sublinham, no entanto, a busca de ‘desenvolvimento sustentável’ e os esforços de Marina Silva, a ministra.


Já a OCDE, o chamado ‘clube dos ricos’, ontem da agência Reuters ao ‘Le Figaro’, avaliou que ‘a pressão por biocombustíveis está criando tensões que abalam os mercados sem gerar benefícios ambientais significativos’.


ENTRE EUA E A BOLÍVIA


Uma entrevista do diretor internacional da Petrobras, que é apoiado por Renan Calheiros e estaria com o cargo em risco, ecoou mundo afora, da ‘Gazeta Mercantil’ até o site do ‘Wall Street Journal’ e agências. Anunciou que a estatal brasileira vai investir mais nos EUA; que ainda não saiu acordo com a PdVSA para investir num projeto de gás na Venezuela; e que um ‘pólo gás-químico’ previsto para a Bolívia agora vai para outra parte, talvez o Peru.


Já o ministro boliviano dos ‘hidrocarbonos’ garantiu que a Petrobras vai, sim, investir milhões em seu país.


DE VOLTA À RIBALTA


De Thompson até a Prensa Latina, ecoa nova descoberta da Petrobras, em Campos.


E o Relatório Reservado diz que, após Henri Reichstul no etanol e David Zylbersztajn no gás da Vale, agora é Joel Rennó, outro ex de FHC, quem volta ‘à ribalta’ -com a Total, atrás de novos campos.


A GUERRA DAS TELES


No site Infobae e outros, a agência argentina Telám deu que a comissão de defesa da concorrência do país entrou, com o Brasil, na análise dos efeitos da compra da Telecom Itália pela Telefônica. Antes de mais nada, os argentinos querem saber se a operação já teria sido completada, de fato.


BRICS, DAS ARMAS AO ESPAÇO


O ‘Observer’ noticiou que ‘a maior feira mundial de armas’, que abriu ontem em Londres, ‘está ainda maior, com empresas de Brasil, Índia, Rússia’. E o ‘Figaro’ deu que a Europa, França em especial, já distante dos EUA no ‘uso militar do espaço’, ‘pode ser ultrapassada em dez anos pelos novos atores, China, Brasil, sobretudo a Índia’.’


CASO MADDIE
Folha de S. Paulo


Portugal passa a juiz investigação policial sobre caso Madeleine


‘Depois que rastros de sangue aumentaram as especulações sobre a suposta morte de Madeleine McCann, 4, as mil páginas da investigação policial sobre o desaparecimento da menina passaram ontem às mãos de um juiz português. O envio do dossiê pelo Ministério Público ao juiz sugere que há indícios suficientes para aprofundar a investigação contra os pais da menina, considerados suspeitos no caso.


O casal Kate e Gerry McCann afirma que Madeleine sumiu do quarto de hotel em que dormia na Praia da Luz, no sul de Portugal, enquanto eles jantavam em um restaurante próximo em 3 de maio. ‘Kate e eu temos 100% de certeza da inocência um do outro’, disse Gerry anteontem em seu blog.


O foco da investigação se voltou para o casal depois que a polícia encontrou vestígios de sangue que pode ser de Madeleine em um Renault Scénic alugado pelo casal 25 dias depois do desaparecimento. Ambos depuseram separadamente na última sexta e foram declarados suspeitos em Portugal.


Além do sangue -que a polícia não está 100% certa de que seja de Madeleine-, uma ‘quantidade considerável’ do cabelo da menina também foi encontrada no Scénic, segundo o tablóide britânico ‘Evening Standard’. A informação não foi oficialmente confirmada.


O porta-voz da Polícia Judiciária portuguesa, Olegário Sousa, afirmou à Folha que o envio do dossiê ao juiz ‘não significa que a investigação está encerrada’. ‘Não há denúncia. Mas há coisas que só o juiz pode fazer, como emitir mandados de busca em domicílios’, disse. O Ministério Público deverá anunciar os próximos passos em dez dias.


Os McCann voltaram para sua casa no Reino Unido no último domingo. Segundo o jornal ‘The Sun’, a Comissão de Proteção de Menores de Leicestershire estuda retirar do casal a guarda dos gêmeos Sean e Amelie, irmãos de Madeleine. Os McCann já contataram o advogado Michael Caplan, ex-representante do ditador chileno Augusto Pinochet, para estudar uma defesa caso a Justiça de Portugal os acuse pela morte da filha.’


***
Indícios levaram a polícia de Portugal a suspeitar dos pais de Madeleine


‘SANGUE NO QUARTO


No começo de agosto, a polícia encontrou vestígios de sangue no quarto em que Madeleine dormia quando desapareceu. O material foi enviado para análise em Birmingham, no Reino Unido. Os resultados não foram divulgados oficialmente, mas o jornal ‘The Times’ afirmou que o sangue não é de Madeleine


SERINGA NO QUARTO


Em 30 de agosto, policiais encontraram uma seringa no quarto de hotel dos McCann, segundo o ‘Daily Mail’. O jornal especula que a seringa poderia ter sido usada para administrar uma dose de tranquilizantes em Madeleine, para que o casal pudesse sair para jantar, e que a garota teria tido uma overdose acidental


SANGUE NO CARRO


Em 6 de setembro, a polícia informou ter encontrado rastros de sangue em um Renault Scénic alugado pelos McCann 25 dias depois do desaparecimento de Madeleine. Surgem suspeitas de que Kate McCann transportou o corpo da filha no carro. Exames de DNA não foram 100% conclusivos, mas apontam para a chance de o sangue ser de Madeleine


CABELO NO CARRO


Investigadores encontraram uma ‘quantidade substancial’ de fios de cabelo de Madeleine no bagageiro do Renault Scénic alugado -mais do que seria esperado pelo mero transporte de roupas da menina no carro-, segundo o jornal ‘Evening Standard’


INCONSISTÊNCIAS EM DEPOIMENTOS


O casal e amigos que jantaram com os McCann em 3 de maio foram repetidamente chamados a prestar depoimentos à polícia devido a contradições nos relatos sobre a noite do desaparecimento.’


TELEVISÃO
Daniel Castro


Globo encarece futebol para reduzir prejuízo


‘A Globo vai aumentar de cinco para seis o número de patrocinadores das transmissões de futebol a partir de 2008. A medida visa reduzir o prejuízo que vem tendo com o esporte, de cerca de R$ 160 milhões/ano.


Plano comercial a ser lançado no mercado na próxima segunda oferecerá seis cotas de patrocínio por R$ 105 milhões cada. No ano passado, foram vendidas cinco cotas, por R$ 97,4 milhões cada. As seis cotas de 2008 renderão R$ 630 milhões, mas, tirando descontos, comissões, bonificações e impostos, a Globo ficará com pouco mais de R$ 330 milhões. Só os direitos da Série A do Brasileiro custam R$ 270 milhões.


No ano passado, a Record iniciou ofensiva para inflacionar os custos da Globo com direitos de torneios estaduais. Assim, o Campeonato Paulista subiu de R$ 25 milhões para R$ 80 milhões. O Carioca foi de R$ 15 milhões para quase R$ 40 milhões. Os valores do Mineiro e do Gaúcho quintuplicaram.


A Globo ainda não confirma a sexta cota de patrocínio do futebol _iniciativa que irá poluir o vídeo nas transmissões. Executivos da área comercial dizem que o assunto é ‘segredo’.


No mercado publicitário, já se especula que a sexta cota deverá ser comprada pela Coca-Cola, que em 2006 perdeu a sua para as Casas Bahia.


O futebol está em queda no Ibope. Na Grande SP, a média acumulada é de 24,6 pontos neste ano, contra 28 em 2006.


DESÂNIMO Após passar da casa dos 30 pontos, acalmando a cúpula da Globo, a novela das sete da emissora voltou a decepcionar. Na semana passada, ‘Sete Pecados’ registrou média de 26,5 pontos na Grande São Paulo. O feriado de Sete de Setembro e o calor atrapalharam.


LUPA O SBT decidiu investir mais no ‘SBT Repórter’, uma de suas dez maiores audiências. A partir desta semana, a produção do programa (que é independente) ganha reforço com reportagens investigativas e mais profundas produzidas pelo departamento de jornalismo.


MERCHANDISING O ‘Roda Viva’ (Cultura) agora exibe a logomarca do hotel que hospeda seus entrevistados e entrevistadores.


AUSENTE Faz mais de um mês que Carlos Massa, o Ratinho, não aparece no SBT. Na emissora, comenta-se que o apresentador está mais preocupado em comprar as afiliadas do SBT no Paraná do que em voltar ao ar.


HOLERITE A TV JB, cujo sinal foi cortado na última quinta-feira pela CNT, por falta de pagamento do arrendamento de horário, está atrasando também os salários de funcionários. O superintendente Daniel Barbará afirma que o salário de agosto será pago até hoje. Diz que não pagou antes por causa do feriado.


ENQUANTO ISSO Já a CNT, agora sem a programação da TV JB no horário nobre, reprisou anteontem um programa trash sobre uma dupla sertaneja gravado em 1998.’


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Raquel Cozer


Ná e Mehmari levam parceria à TV


‘Ver na televisão uma parceria como a da cantora Ná Ozzetti com o pianista André Mehmari tem suas desvantagens. Sem a acústica de um bom auditório, com o distanciamento que a tela impõe, os trechos do show que a TV Cultura exibe hoje no ‘Imagem do Som’ nem teriam como reproduzir o vigor de um ao vivo.


Para quem se interessa mais pelo instrumento que por dotes vocais, porém, é exatamente a câmera que permite uma proximidade que nem o espectador mais bem localizado teria.


O registro feito em 2006 no teatro Santa Cruz, em São Paulo (que deu origem ao DVD ‘Piano e Voz’, um ano depois do CD de mesmo nome), flagra momentos de virtuosismo do pianista, que baila pelo instrumento na graciosa ‘Nosso Amor’, de Dante Ozzetti (irmão de Ná) e Luiz Tatit, e se multiplica em ‘Felicidade’, de Lupicínio Rodrigues.


Se a voz cuidadosa de Ná Ozzetti não fica devendo ao desempenho de Mehmari no que diz respeito a preparo técnico, é na performance que as diferenças ficam perceptíveis.


O que não interfere em belas interpretações de músicas como ‘Noites do Norte’, melodia de Caetano Veloso sobre trecho do livro ‘Minha Formação’, do abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910), e ‘Suíte Gabriela’, de Tom Jobim.


IMAGEM DO SOM


Quando: hoje, às 20h


Onde: TV Cultura’


MERCADO EDITORIAL
Folha de S. Paulo


Editora Globo vai relançar obra de Lobato


‘A editora Globo anunciou na manhã de ontem que fechou um acordo com os herdeiros de Monteiro Lobato (1882-1948) para ter os direitos exclusivos sobre a obra do escritor paulista até 2018, quando ela cairá em domínio público.


A editora afirmou que vai relançar toda a obra do autor -56 livros, entre infantis e adultos, além de adaptações em quadrinhos- até dezembro de 2008, com tiragens entre 3.000 (para alguns títulos adultos) e 20 mil exemplares (para os infantis).


Os primeiros títulos, que serão lançados na Bienal do Rio e começarão a ser vendidos no próximo sábado, são ‘Reinações de Narizinho’, em dois volumes, ‘Viagem ao Céu’, ‘Dom Quixote das Crianças’ (HQ) e ‘Urupês’. A editora afirma que, até o fim deste mês, já terá lançado também ‘O Saci’.’


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O Povo (Ceará)


Quarta-feira, 12 de setembro de 2007


PREMIAÇÃO FRAUDADA
O Povo


Fraude no prêmio ACI de Jornalismo


‘O mais tradicional prêmio de jornalismo do Ceará, criado há quatro décadas, está sob suspeição. O jornalista Zelito Magalhães, presidente da Associação Cearense de Imprensa (ACI) até a noite da última segunda-feira, 10, denunciou ontem fraude no prêmio ACI de Jornalismo 2007, entregue na cerimônia de posse da nova diretoria, realizada no Náutico Atlético Cearense. Também presidente da Comissão Julgadora, Zelito afirma ter havido manipulação dos votos na categoria Jornalismo Impresso. O prêmio que seria entregue ao O POVO, pelo caderno Documento BR – Histórias de exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias federais, acabou dividido com duas reportagens do jornal Diário do Nordeste.


Dos três integrantes da comissão, Zelito e o jornalista José Carlos Araújo votaram no caderno do O POVO, enquanto que o jornalista J.C. Alencar Araripe optou pela reportagem Fortaleza de contrastes, do Diário. O ex-presidente da ACI acusa os jornalistas Paulo Tadeu, eleito novo presidente, e Luciano Luque, vice-presidente da entidade e editor do Diário do Nordeste, pela manipulação dos votos. ‘Eles mudaram o voto do José Carlos em favor da série Grupo de extermínio, para que os dois jornais fossem contemplados’, afirma Zelito.


O ex-presidente da ACI confessou que vive ‘profunda frustração’ por não ter interrompido a cerimônia de premiação, quando percebeu que o prêmio havia sido fraudado. ‘O Paulo Tadeu e o Luciano Luque já tinham me procurado para falar sobre a divisão do prêmio, mas não acreditei quando vi os diplomas em nome de outras reportagens. Fiquei tão chocado que só consegui fazer algo hoje (ontem)’, justifica Zelito.


José Carlos Araújo não compareceu à cerimônia, mas foi informado na manhã de ontem do resultado alterado. ‘Não entendi nada quando me disseram, pois sabia que dois dos três votos eram para a matéria do O POVO, sem dúvida a melhor. Houve manipulação’, aponta o jornalista. O POVO teve acesso ao registro por escrito de dois dos três votos dos integrantes da Comissão Julgadora. E os dois garantiam ao jornal o primeiro lugar na categoria jornalismo impresso.


Desmentido


Paulo Tadeu negou que tenha feito conchavo em favor da divisão do prêmio. ‘Não compactuo com esse tipo de coisa. Além do mais, sou responsável pela ACI apenas a partir da noite de segunda-feira’, defendeu-se o novo presidente, prometendo reunião com a diretoria da entidade para cobrar maior transparência na entrega do próximo prêmio. ‘Não deixarei que um prêmio de jornalismo com 40 anos de história perca sua credibilidade’.


O caderno Documento BR, publicado em dezembro do ano passado, foi produzido pelos jornalistas Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio, Felipe Araújo e Luiz Henrique Campos. Na mesma cerimônia, na noite da última segunda-feira, O POVO também foi premiado na categoria Fotojornalismo, com o fotógrafo Fco Fontenele.


O POVO não conseguiu contato ontem à noite com J.C. Alencar Araripe e Luciano Luque. Ninguém atendeu o telefone fixo da casa do primeiro. Já o telefone celular do segundo estava desligado. Entre 18 horas e 19 horas, O POVO ligou três vezes para a redação do Diário do Nordeste e deixou recado. Também deixou mensagem na caixa postal do celular de Luciano e não obteve retorno até o fechamento da edição.’


Zelito Nunes Magalhães


Esclarecer, a bem da verdade


‘Foi constrangedor, não só para mim, como para o seleto público que se fez presente aos salões do Náutico Atlético Cearense, na noite de segunda-feira, a maneira como foi anunciado o resultado do concurso de reportagens promovido anualmente pela Associação Cearense de Imprensa (ACI).


O mais grave é que tudo aconteceu durante uma solenidade da qual tomava parte gente da imprensa e personalidades de vários segmentos da sociedade, que ali foram prestigiar a passagem de cargo da diretoria da instituição jornalística. Confesso que fiquei sem ação quando a mestre de cerimônia anunciou como resultado do certame nomes de pessoas que não estavam no rol dos premiados. O ocorrido tirou o brilho da festa.


Sendo a nossa melhor intenção promover o concurso com bastante transparência, convidei dois dos melhores jornalistas da nossa imprensa para, comigo, julgarem os trabalhos: sendo eles J. C. Alencar Araripe e José Carlos Araújo. Este último e eu, na categoria de jornal impresso, optamos em premiar a série de reportagens publicadas no O POVO, Documento BR – Histórias de exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias federais.


Conchavo


Após a obtenção do resultado, ainda três ou quatro dias antes do anúncio, quando maior parte da diretoria havia tomado conhecimento dos nomes dos ganhadores, fui chamado na manhã de segunda-feira para fazer um conchavo em que dividiria o prêmio, na categoria de impresso, com o Diário do Nordeste. Não concordei com os senhores Paulo Tadeu e Luciano Luque, apesar dos argumentos que julguei não convincentes. Cheguei a adverti-los que a atitude seria um tanto perigosa, não obstante a advertência também de outros diretores que o resultado não poderia ser alterado.


Diante do exposto, e no sentido de preservar a minha idoneidade moral, sou de acordo que se faça justiça no referido julgamento, considerando, sem nenhum favor, que o prêmio na citada categoria seja conferido somente à equipe do O POVO. E espero que atitude desse quilate jamais venha a se repetir, para o bem e preservação da nossa entidade jornalística. [Zelito Nunes Magalhães. Membro do Conselho Superior da ACI e presidente da ACI até a última segunda-feira]’


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Agência Carta Maior


Quarta-feira, 12 de setembro de 2007


MÍDIA & POLÍTICA
Gilson Caroni Filho


Dorian Gray e a oposição golpista


‘Moralismo udenista conjugado com defesa intransigente de minimização do Estado continua a ser a fórmula empregada da grande imprensa para deflagrar sua guerra diária contra o governo Lula. Não há dúvidas de que continuaremos a assistir, nos próximos meses, a contínuas tentativas de erodir a legitimidade da ampliação do regime democrático.


A proclamada desconstrução da imagem do presidente Lula não medirá esforços nem conhecerá limites.O ‘banho de ética na política brasileira’, prometido pela candidatura tucana derrotada ano passado, certamente será o mote recorrente de um jornalismo que, há dois anos, escreve o mesmo texto. Articulistas e blogueiros não cessarão de operar com ardor militante. Transformar-se em house organ do tucanato não é, para muitos veículos, experiência inédita O baronato midiático, ao contrário do caseiro que contradisse Palocci, nunca teve problemas de filiação. Sempre foi o filho pródigo, varão que nunca negou apoio aos retrocessos políticos-institucionais promovidos pelas classes dominantes.


Se as oficinas de consenso tiveram papel de destaque na reeleição de FHC, o ‘príncipe’ tardiamente convertido ao catolicismo da Contra-Reforma, também não houve motivos para negar apoio ao projeto político do chuchu do Opus Dei. Que o distinto leitor não duvide. Entre a prelazia pessoal do papa e os ditames do mercado pode haver mudanças quanto ao deus cultuado, mas as liturgias se assemelham. Ao optar por Alckmin, o núcleo duro do neoliberalismo brasileiro desfez castelos de areia. Ruíram as teses da polarização falsa e o mito do fim das clivagens políticas entre campos ideologicamente opostos. O que tivemos e (teremos) como expressão maior de oposição ao atual governo é a direita sem retoques. Aquela que não hesita em usar jargões do mais extremado conservadorismo ao defender família, religião e tradição.


A tática escolhida, nas última eleições, não foi segredo de Polichinelo. Alckmin foi vendido, segundo relatou o jornalista Kennedy Alencar, como o bom administrador, herdeiro político de Mário Covas. Na medida do possível, a imagem do governador paulista foi descolada de FHC. Sua presença no processo sucessório personificou a vitória da perseverança sobre os desejos da cúpula partidária. Adotando o discurso da competência, defendeu a redução de gastos públicos e a retomada das reformas neoliberais. Coube ao velho PFL intensificar os ataques ao governo , tentando jogá-lo no aparente limbo ético em que estava em 2005. O jogo sujo teve sangue nobre. FHC avalizou o método: ‘A hora é de sangrar o adversário’


O morador de São Paulo conhece bem os ‘banhos de ética’ promovidos por Alckmin. O Banespa deixou de existir como banco de fomento. Além disso, o Estado perdeu a Eletropaulo, a Ceagesp, a Companhia Paulista de Força e Luz, a Comgás e a Fepasa, todos privatizados a pretexto de continuar o ajuste fiscal iniciado por Covas. A venda de ações da Sabesp e do banco Nossa Caixa a preços aviltantes foram exemplos da ação ‘saneadora’ do anestesista de recursos públicos. Os resultado foi assustador. Segundo Márcio Pochmann , ‘em janeiro de 1995, no início do primeiro governo tucano, a dívida pública era de R$ 34 bilhões; hoje, ela é de R$ 123 bilhões’.


Em termos de saúde, educação e segurança pública, a política adotada na mais importante unidade federativa do país foi a de terra arrasada. Os que se chocam com documentários sobre violência urbana deveriam se informar sobre o terror da Febem no governo paulista. CPIs, como todos sabem são abortadas em plenário, Um tucano, por princípio, só é probo por abafamento. E o que valeu para Alckmin continua valendo para Serra.


Pois bem, em meados de 2007, é isso que continua em jogo. Uma agenda que pretende, entre outras coisas, retomar a privatização de patrimônio público transferindo recursos para o setor financeiro. Estancar uma política econômico-social que faz o consumo crescer a uma média de 13% ao ano. Uma economia que vai se ajustando a taxas de crescimento cada vez maior, com aumento de demanda agregada e expurgo da mentalidade inflacionária.


O prefeito César Maia (demo do PFL carioca) não tem qualquer pudor ao explicitar qual a tática a ser adotada: ‘cabe à oposição – em todos os pontos cardeais – jogar novas pedras e garantir a intensidade do movimento dos círculos concêntricos. Será um semestre de ação continuada, que contaminará a opinião e reverterá o quadro de opinião pública’. As probabilidades de êxito são mínimas, mas a intensidade do ataque deve acautelar estômagos sensíveis.


Para julgar o estado de alma dos atores políticos em evidência, a literatura política deve ceder lugar à fina ironia de Oscar Wilde, em O Retrato de Dorian Gray. A certa altura, o personagem Lorde Henry enuncia: ‘Contudo não pretendo discutir política, sociologia ou metafísica com você. Prefiro as pessoas aos seus princípios, e, prefiro, acima de qualquer coisa neste mundo, as pessoas sem princípios’. Daria um excelente editor de política.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.’


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Todos os comentários

  1. Comentou em 13/09/2007 Leonardo Lani de Abreu

    Há muito tempo a mídia deixou de ser um Quarto Poder para se transformar, na precisa expressão de Ricardo Jorge Pinto, num ‘quarto do poder’, espaço onde se digladiam, de forma degradante, os demais poderes.

  2. Comentou em 13/09/2007 eustáquio fernandes

    Quero, diferentemente do cientista político, louvar a mídia, em particular a Veja, que fez seu papel: investigou, denunciou. Ao mesmo tempo lamento a decisão do Senado brasileiro, que não fez a sua parte… Deixem a imprensa trabalhar livremente!!! Viva a imprensa livre (aquela que vive de anunciantes privados e assinantes e não da ‘generosidade’ do governo!!!

  3. Comentou em 09/11/2006 Regina Andreiuolo

    Acho que está faltando nesse observatório um exame do caso do professor Emir Sader, punido pela justiça por delito de opinião. Uma coisa é ter que responder por danos morais, a outra é perder o emprego por expressar opiniões (mesmo que pretensamnete insultuosas) contra políticos. Que tal um voltairezinho na cabeça desse juiz?

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