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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > IGNACIO RAMONET

Mídia, o aparato ideológico da globalização

Por Henrique Costa em 31/05/2008 na edição 487

‘O mais difícil de perceber não é a informação distorcida, mas a informação oculta’. Em torno dessa e de outras idéias o jornalista, escritor e teórico da comunicação Ignacio Ramonet apresentou, na noite de segunda-feira (26/05) no Instituto Cervantes, em São Paulo, a palestra ‘Informação, poder e democracia’, como parte do ciclo ‘Pensar Iberoamérica’ do instituto espanhol. Com a mediação do sociólogo Emir Sader, o tom foi não apenas de denúncia da grande imprensa, mas também uma reflexão sobre a indústria cultural e as possibilidades de uma imprensa alternativa.


Membro do conselho editorial do Le Monde Diplomatique – um dos exemplos mais bem-sucedidos de imprensa alternativa no mundo – e diretor do jornal até recentemente, Ramonet foi descrito por Sader como um ‘intelectual da esfera pública’. De fato, as inúmeras atividades deste galego que foi aluno de Roland Barthes comprovam sua vocação para o ativismo público, como a fundação das ONGs internacionais ATTAC e Media Watch Global e como um dos fomentadores do Fórum Social Mundial.


O evento no Instituto Cervantes serviu fundamentalmente para reafirmar suas posições para um público restrito, mas, em geral, pouco familiarizado com o debate sobre democratização da comunicação. Inclusive porque, em uma de suas primeiras afirmações, Ramonet diria que ‘muitos militantes de esquerda que tomaram consciência da luta contra o neoliberalismo não tomaram a consciência da necessidade de democratizar os meios de comunicação de massa’. Ou seja, é evidente para ele que qualquer transformação social depende da desconcentração dos meios de comunicação das mãos de poucos afortunados que os usam para seus fins particulares. No entanto, os obstáculos para isso são imensos.


Emir Sader colocou em pauta um outro ponto grave na cobertura jornalística, que diz respeito à impossibilidade de negar ou mentir sobre pontos inegavelmente positivos, como, por exemplo, os ganhos sociais do regime cubano ou os avanços da nova constituição boliviana. A saída, considera, é simplesmente omitir. ‘Como não tem como falar mal, não falam. E essa omissão é gravíssima’, afirmou Sader.


Kane e Murdoch


Ramonet listou uma série de exemplos que colocam em destaque o cinema blockbuster americano, para traduzir a idéia de que a estratégia de distração pode ser muito mais eficaz para o status quo. Na cultura de massas se reconhece o direito à distração, ou seja, a possibilidade de assistir a um filme desarmado, sem ressalvas. E é justamente nessas ocasiões que as idéias dominantes penetram com mais facilidade, diferentemente do que aconteceria se assistíssemos a um filme ‘político’.


Dentro desse esquema, a dominação cultural é tão importante quanto a militar. A idéia exposta tanto por Ramonet quanto por Sader de que a guerra imperialista hoje se faz tanto pela via militar quanto pela cultural acusa que é justamente através dos meios de comunicação que se produz os consensos e legitimações. ‘Em vários processos de dominação, a violência é usada numa primeira fase, mas a guerra não pode durar tanto. A segunda fase é justamente conquistar mentes’, afirmou Ramonet. A última investida, conta, é oferecer a idéia de que globalização financeira é igual à modernidade. ‘Os meios de comunicação têm a função de ser o aparato ideológico da globalização.’


Muito distante disso está o conceito verdadeiramente francês de que a imprensa se constituiria em um ‘quarto poder’. Poder este que, diferentemente do que se compreende nos tempos atuais, seria o responsável por fiscalizar os três poderes de Montesquieu, lembra Ramonet. Curiosamente, assume o jornalista, a concentração cada vez maior dos meios de comunicação tem, inclusive, deixado obsoletos os grandes arquétipos da mídia tradicional. O Cidadão Kane, de Orson Welles, nada mais era do que um magnata do final do século 19 estabelecido em seu próprio país e eivado de alguma ética. ‘Comparem Kane com Rupert Murdoch!’, enfatiza Ramonet, citando o bilionário dono de canais de TV, jornais, revistas e todos os tipos de mídias nos cinco continentes, algumas delas acusadas de dar suporte, por exemplo, a já comprovada farsa da invasão do Iraque pelo governo norte-americano.


Observatórios de mídia


A questão é que a imprensa trocou a cidadania pelo espetáculo. Para o jornalista, a lógica em que atuam as grandes empresas de mídia não mais diz respeito ao velho esquema de vender informação ao público, mas sim vender público aos anunciantes, citando o exemplo dos jornais gratuitos. ‘Há uma tendência de baixar o nível para atingir uma faixa maior de público. Além de tudo, se você vai dar a informação de graça, não vai querer gastar muito para produzi-la’. Isso mesmo que, de modo geral, o nível educacional melhore e essa contradição fique ainda mais evidente.


A globalização é uma máquina de frustração, esclarece Ramonet. Mas contra a hegemonia do pensamento único, é possível a constituição de uma imprensa alternativa viável? ‘Muito difícil’, diz ele, justamente pelo que dizia há pouco. Essa mídia estaria disposta a baixar sua qualidade para atingir o grande público? O jornalista, no entanto, vê boas perspectivas quando se fala nos observatórios de mídia e acredita que o Brasil está bem servido nesse quesito. Além disso, se entusiasma com as TVs públicas, desde que se entenda que elas não podem ser governamentais. ‘Não se pode ter medo da democracia’.

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Do Observatório do Direito à Comunicação

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/06/2008 Alexandre Weiss

    Certamente que ele diz sobre a mídia e a imprensa como poder ideológico da globalização está correto, certamente que hà alienação tanto na nossa sociedade capitalista como na sociedade Stalinista, isso hà. Não podemos confundir Socialismo com Stalinismo, que muita gente ocorre desse erro. Quando falamos em democratizar os meios-de-comunicação, não falamos em estatizar totalmente, em sim desconcentrar e permitir que cada segmento da sociedade possa ter seu canal e seu jornal ou suas revistas. Precisamos criar uma cultura contra-hegemônica para cabar com essa dominação de mentes por meio do STATUS QUOU das classes mais afortunadas. Infelizmente quando falamos em democratizar os meios de comunicação e a terra pela reforma agrária, acham que queremos instaurar uma ditadura Stalinistam o que não é verdade, somos anti-Stalinistas e anti-capitalistas e queremos democracia de verdade. Para os que acham que vamos instaurar uma ditadura, fiquem com sua democracia tola, até parce que tem medo da liberdade, muitos gostam de serem gados, fazer o que?

  2. Comentou em 02/06/2008 Marcello Pereira

    Infelizmente aqui no Brasil nossa ‘midia’ se concentra na mão de 5 ou 6 Familias. Veja bem, eu disse FAMILIAS e não EMPRESAS, por estas Empresas serem 100% na mão de famliares, Familias ricas que se beneficiram muitas delas de concessões obitidas no governo militar. Entre essas famlias destacariam a do Roberto Marinho (Organizações Globo) , Frias de Oliveira (Folha), Civita (Editora abril e revista Veja), Mesquita (Estadão). São essas famlias que DOMINAM a midia brasileira. A quem vcs acham que elas beneficiam?? O povo???

  3. Comentou em 02/06/2008 antonio barbosa filho

    Por falar em pensamento único, e em termos da nossa mídia: a TV Band está entrevistando neste domingo o membro do MST, João Stédile. O jornalista Bóris Casoy, que há anos ataca violentamente o movimento (como todos os movimentos sociais), chamando-o de terrorista, não participa. Fosse um FHC ou um banqueiro qualquer, lá estaria ele fazendo perguntas doces, ‘levantando a bola’para o entrevistado. É essa falta de contraditório, e a transformação do jornalista num militante político em campanha, é que agridem o direito à informação no Brasil. Além de ser uma covardia. Uma vergonha!

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