Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Militância digital

Por Dora Kramer em 26/11/2010 na edição 617

O presidente Luiz Inácio da Silva convida quem quiser para suas entrevistas individuais ou coletivas. Do mesmo modo, vê, ouve ou lê o que é dito quem quer.


Portanto, o encontro que reuniu alguns autores de blogs para entrevistar o presidente da República não se pode dizer que tenha pecado pelo excesso de governismo. Inclusive porque ninguém é obrigado a ter senso crítico em relação a pessoas, objetos ou situações que lhe sabem bem ao paladar, à visão, ao tato e ao olfato.


O Palácio do Planalto e Lula resolveram retribuir os serviços prestados por um grupo de ‘blogueiros progressistas’ (o pressuposto é que os demais sejam reacionários), ativistas da campanha de Dilma Rousseff e não seria de esperar outra atitude que não a da benevolência.


De todo modo, chamou atenção o entusiasmo. Na saudação ao ‘primeiro presidente do Brasil a receber representantes da blogosfera’ – como se não fosse ele o primeiro a conviver com a modalidade –, no silêncio reverencial diante de respostas quilométricas e/ou incongruentes, nas gargalhadas cúmplices, na docilidade nas repetidas referências à ‘imprensa golpista’ ou ‘velha mídia’ [clique para ler a íntegra da entrevista].


Grampos ilegais


Nas entrevistas tradicionais, em que não há seleção ideológica, não se vê, por exemplo, o entrevistado precisar corrigir o entrevistador que estranha o fato de as indicações ao Supremo Tribunal Federal não terem deixado a Corte com ‘a cara do governo Lula’.


‘Graças a Deus o Supremo não ficou com a cara do governo’, respondeu o presidente a um rapaz que se identificou como representantes de um ‘blog jurídico’, ensinando-lhe, em seguida, algo sobre a independência dos poderes inerente à República.


Fora isso, os autodenominados ‘blogueiros progressistas’ passaram batidos por repetidas afirmações de Lula de que não fazia ideia das realizações de seu governo em diversas áreas: comunicações, legislação trabalhista e direitos humanos.


O presidente, depois de oito anos de governo, disse que só teria a real noção de suas realizações depois que ‘desencarnasse’ da Presidência. Pôde dizer sem ser contestado que o ex-diretor da ABIN, Paulo Lacerda, deixou o governo e a PF porque ‘estava na hora de sair’. A ninguém ocorreu lembrar-lhe que Paulo Lacerda foi mandado para Portugal em meio ao escândalo dos grampos telefônicos ilegais, por sugestão do ministro da Defesa, Nelson Jobim.


Machismo consentido


Quando afirmou que a sociedade ao controle social da mídia, defendendo iniciativas como a Ancinav e o Conselho Nacional de Jornalismo, não precisou explicar a razão de seu governo ter recuado de todas elas. Inclusive retirando propostas semelhantes do Plano Nacional de Direito Humanos 3.


Dissertou sobre enormes resistências à reforma política sem que lhe perguntassem quais são elas. Não foi questionado sobre a razão de ter aprofundado velhas práticas contra as quais agora promete lutar ao ‘desencarnar’ da Presidência.


Esteve à vontade para ressaltar sua altivez em reuniões internacionais (permanecer sentado, enquanto os outros chefes de Estado se levantavam para receber George W. Bush), e relatar a amargura por ligações feitas entre o desastre da TAM e a crise aérea de 2006/2007.


Tão à vontade que, ao repetir que a agressão de petistas ao então candidato José Serra foi uma ‘farsa’ – na abertura havia provocado muitos risos ao ‘ameaçar’ os blogueiros com ‘bolinhas de papel’ – deu-se ao desfrute do machismo consentido. Na ocasião, contou, resolveu responder no lugar de Dilma, comparando ao adversário ao goleiro chileno Rojas, ‘porque ela é mulher e não entende nada de futebol’.


Cada um fala com quem quer, mas respeito, inclusive aos fatos, é bom e todo mundo gosta.




Leia também


Bastidores de uma entrevista histórica – Renato Rovai 


***


A blogueiros, Lula critica ‘mídia antiga’


Leonencio Nossa # reproduzido do Estado de S.Paulo, 25/11/2010


Em entrevista a blogueiros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem ataques à ‘mídia antiga’ e, ao mesmo tempo, exaltou a liberdade de imprensa. ‘Com todos os defeitos, eu sou o resultado da liberdade de imprensa deste País’, afirmou. ‘Eles pensam que o povo é massa de manobra como era no passado, eles se enganam. O povo está mais inteligente, mais sabido.’


Ao final do encontro, Lula confidenciou que, após deixar o governo, pretende retomar o debate sobre a crise política de 2005. ‘Quando eu desencarnar da Presidência, vou resgatar essa questão do mensalão no Brasil com profundidade’, afirmou, segundo um dos entrevistadores.


A entrevista foi concedida a Renato Rovai, articulador do encontro, José Augusto Duarte, do Blog Os Amigos do Presidente Lula, Rodrigo Vianna, do Blog Escrevinhador, entre outros.


Mensalão


Descontraído, depois da entrevista, Lula confidenciou que, quando deixar o governo, quer retomar o debate sobre a crise política de 2005. ‘Quando eu desencarnar da Presidência, vou resgatar essa questão do mensalão no Brasil com muita profundidade’, afirmou, segundo um dos entrevistadores. O presidente demonstrou não estar satisfeito com os esclarecimentos sobre o caso que atingiu o Planalto e o PT no terceiro ano do primeiro mandato, avaliou o blogueiro que relatou a declaração dele.


Informação


‘Vocês sabem que eu parei de ver revista, parei de ver jornal. A raiva deles é que eu não os leio. Então, pelo fato de não os ler, eu não fico nervoso. Mas podem ficar certos de que eu trabalho com muita informação, mas não preciso ler muitas coisas que eles escrevem.’


Liberdade de imprensa


‘Com todos os defeitos, eu sou o resultado da liberdade de imprensa neste País. Quem tem que julgá-los não sou eu, não vou ficar xingando. O que eles se enganam é que eles pensam que o povo é massa de manobra, como era no passado, que eles podem derrotar um candidato, tirar candidato, pôr candidato, eles se enganam. O povo está mais inteligente, está mais sabido, e eles agora têm que lidar com uma coisa chamada internet que eles não sabiam como lidar.’


Controle da mídia


‘Acho que é diferente ser dono de banco e ser dono de um meio de comunicação. Nós precisamos ter claro: um trabalha com o bolso e o outro trabalha com a cabeça das pessoas. Então, eu acho que nós temos que ter um certo controle da participação de estrangeiros, sim. A gente não pode abrir mão do controle, essa é a minha tese.’


Futuro multimídia


‘Pode ficar certo que eu serei tuiteiro, que eu serei blogueiro, que eu serei… vou ser um monte de coisas que não fui até agora.’


Araguaia


‘Nós estamos para apresentar o resultado de uma investigação em que participou não apenas o governo, mas a sociedade civil. E o resultado vai ser o de que não encontramos aquilo que nós queríamos encontrar. Eu ainda não (tenho) o resultado das investigações, mas parece que até agora não foi encontrado nada. Essas pessoas vão ter que apresentar o relatório para mim para que eu possa passar o relatório para a Dilma. (…) Eu fiz o que eu sabia e o que eu podia fazer na questão de direitos humanos. Gostaria de ter encontrado os cadáveres que as pessoas queriam que encontrasse. Espero que a Dilma tenha mais sorte do que eu.’


Tristeza


‘O dia em que eu sofri mais aqui na Presidência foi o dia do acidente da TAM no Aeroporto de Congonhas. Eu nunca vi, nunca vi tanta leviandade. (…) Ninguém falava de erro humano. Esse foi o dia mais nervoso, mais triste da minha vida. Eu não quero nunca mais que isso se repita.’


Plano de direitos humanos


‘Eu cometi um erro, porque eu disse textualmente que, para aprovar um texto daquela magnitude, a gente deveria ter feito um debate dentro do governo e não foi possível fazer isso. Então, refizemos algumas coisas que era preciso fazer, sem ferir aquilo que era a principalidade do texto.’


***


Em entrevista a blogs pró-governo, Lula faz críticas à imprensa


Breno Costa # reproduzido da Folha de S.Paulo, 25/11/2010


Na primeira entrevista já concedida a um grupo de blogueiros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os entrevistadores se uniram nas críticas à grande imprensa.


Dez blogueiros autoclassificados ‘progressistas’ participaram da entrevista, de duas horas, na manhã de ontem no Palácio do Planalto.


Um dos blogueiros, Altamiro Borges, é filiado ao PC do B. Outro, conhecido como ‘Sr. Cloaca’ [ele não revela o nome], é assessor de imprensa de político do PT no Rio Grande do Sul, cujo nome também não revelou.


O blog Amigos do Presidente Lula, que não estava na lista divulgada pelo Planalto, também participou. O Planalto disse que o blog não entrou na lista por ‘erro’.


Dos 10 sites, 8 têm como linha a defesa do governo Lula e se alinharam, na eleição, à candidatura de Dilma Rousseff, reproduzindo uma série de ataques ao candidato do PSDB, José Serra. Os outros têm uma linha mais neutra.


O blogueiro Eduardo Guimarães, fundador do Movimento dos Sem Mídia, que já fez protestos em frente à Folha, citou a sigla ‘PIG’. Coube ao secretário de imprensa do Planalto, Nelson Breve, traduzi-la a Lula: ‘PIG é o que ele chama de Partido da Imprensa Golpista’.


Ao lado do ministro Franklin Martins (Comunicação Social), Lula voltou a afirmar que não lê jornais e revistas, mas que, quando sair da Presidência, vai ‘reler tudo’.


‘Eu quero saber a quantidade de leviandades, de inverdades que foram ditas a meu respeito, quantas coisas que não foram ditas.’


Ainda sobre a relação com a imprensa, disse que ‘o jogo não é fácil’. ‘Sobretudo quando você não quer se curvar.’ Afirmou que órgãos de imprensa se assustaram com sua popularidade ‘pois trabalharam o tempo inteiro para não acontecer isso’.


Para Lula, que prometeu virar ‘blogueiro e tuiteiro’, ‘não existe maior censura do que a ideia de que a mídia não pode ser criticada’.


O presidente voltou a defender uma regulação da mídia, mas rechaçou a ideia de censura. Ele quer entregar ao menos um esboço de marco regulatório para o setor.


Lula ainda disse que o pior momento vivido em seu governo foi o dia do acidente da TAM, em São Paulo, que deixou 199 mortos. ‘Nunca vi tanta leviandade’, disse, sobre a cobertura da mídia.


Afirmou que sentiu ‘alívio’ ao descobrir que não houve falha do governo e que o acidente tinha sido provocado, essencialmente, por erro humano. ‘Foi uma sensação de alívio por ter descoberto a verdade.’


Serra


Lula também retomou o episódio da agressão a Serra por militantes ligados ao PT em ato de campanha no Rio.


Ele voltou a dizer que o tucano simulou uma agressão grave, e se disse ‘decepcionado’ com a Globo. ‘Foi uma cena patética, uma desfaçatez. Fiquei decepcionado [com a Globo] porque quiseram inventar uma outra história, um objeto invisível que até agora não mostraram.’


Serra, que estava ontem em Brasília, respondeu. ‘Como foi comprovado, foi um outro objeto atirado em mim, inclusive está filmado, e o presidente sabe disso.’


O tucano continuou: ‘Lula talvez já tenha começado sua campanha para 2014, dizendo mentiras inclusive’.


Irã e STF


Lula defendeu a relação com o presidente Mahmoud Ahmadinejad e tentou explicar a posição do iraniano sobre o holocausto. ‘Ele explicou que o que quis dizer, na verdade, era que morreram 70 milhões de pessoas na Segunda Guerra, e parece que só morreram judeus’, disse.


Ele afirmou que deixará a indicação do novo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) para Dilma Rousseff, no caso de o Senado não sabatinar o escolhido até o próximo dia 17, quando o Congresso entra em recesso.


Luís Inácio Adams, a advogado-geral da União, e Cesar Asfor Rocha, presidente do Superior Tribunal de Justiça, são os mais cotados.

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