Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > NOTAS DE UM LEITOR

Miriam apurou, Lessa ofendeu

Por Luiz Weis em 23/11/2004 na edição 304

Demitido Carlos Lessa do BNDES, toda a imprensa ‘recuperou’, como se diz, as suas tiradas contra o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, as manifestações públicas de sua recusa a se subordinar ao ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, a quem o banco responde, e os (insuficientes) desembolsos da instituição nesses dois anos – as causas ostensivas do afastamento do economista.

Mas, salvo melhor juízo, só um jornalista – a colunista Miriam Leitão, do Globo, foi escarafunchar o que ele fez dentro do banco. E apurou que a gestão Lessa ‘mudou critérios de decisão que existiam desde a criação da instituição, realizou uma intensa troca de pessoas em todos os postos e desperdiçou a inteligência que o Estado construiu em 52 anos de BNDES’.

Segundo a nota ‘Tormento’, publicada na sexta-feira, 19, ‘foram 244 pessoas afastadas’ (até o quarto escalão do banco). ‘Em nenhuma empresa do mundo, estatal ou privada, um novo presidente chega e muda todo mundo desta forma.’

Lessa não negou a informação. Na entrevista que deu nesse mesmo dia, confirmou-a e disse que a colunista não tinha ética, o que ela se apressou a registrar, com o seguinte comentário: ‘Para ele, só há uma forma de ser ético: submeter-se ao seu pensamento retrógrado.’

Pode ser, pode não ser. Mas enquanto o ex-presidente do BNDES, ou alguém em seu nome, não contestar, com fatos e argumentos, o assombroso retrato que a colunista traçou de sua gestão, com base em seis revelações ‘em off’ de funcionários e ex-funcionários do banco, o leitor só haverá de concluir que certa está ela e errado, ele.

‘Nada de bonito’ na bela entrevista

Entrevistas pingue-pongue estão para os jornais dominicais brasileiros assim como a pizza e o Fantástico para muitos de seus leitores. Mas, como não poderia deixar de ser, raras fazem história.

É o caso da que Eliane Cantanhêde e Iuri Dantas, da Folha, fizeram com o ministro de Segurança Institucional, general Jorge Armando Félix, no último dia 14.

Já ficou famosa a sua frase ‘Não tem nada bonito ali’ [nos arquivos da ditadura guardados na Agência Brasileira de Inteligência (Abin), sucessora do SNI, a cuja divulgação ele se opõe].

O que tem de feio ali, segundo o general, não são as evidências da rotina dos porões da repressão. Nas suas palavras:

‘Tem gente que naquela época estava na clandestinidade, tinha outra mulher e hoje não tem, está com a antiga. Se isso aparecer, você pode destruir uma família. Tem os companheiros que entregaram, está escrito ali. Aquilo ali é problema daquela pessoa. Ninguém mais deve tomar conhecimento disso a não ser com autorização da pessoa ou da família, se ela tiver morrido.’

Se isso não é ameaça ou chantagem, como observaram jornalistas e ativistas de direitos humanos, esses termos perderam o sentido.

Diante disso, o que tem sentido – todo o sentido, aliás – são as declarações do brazilianista e estudioso da ditadura de 64, Alfred Stepan, da Universidade Columbia, a Merval Pereira, do Globo. Não há como evitar o clichê: o sua coluna da última quarta-feira (17/11), ‘Democratizar a questão militar’, é leitura obrigatória.

Para Stepan, o governo Lula errou ao não demitir o comandante do Exército tão logo soube da nota oficial que justificava a tortura, depois que o Correio Braziliense publicou fotos identificadas como do jornalista Vladimir Herzog pouco antes de ser morto no DOI-Codi de São Paulo.

‘Stepan acompanhou de perto a crise envolvendo o ministro da Defesa’, escreve Merval. ‘Ele está convencido de que os militares saíram fortalecidos do episódio, e que o governo Lula retrocedeu na relação do governo civil com os militares, caminhando na direção oposta à que os especialistas internacionais (…) indicam ser a melhor maneira de lidar com essas questões.’

‘Na imprensa’, senador?

O senador José Sarney diz que tirou o seu dinheiro do Banco Santos ‘em face dos rumores publicados na imprensa e existentes na praça’. Na praça, pode ser. Na imprensa, não parece.

Segundo o ombudsman da Folha, Marcelo Beraba, ‘nenhum veículo noticiou com clareza que a situação do banco era difícil. A revista Exame do dia 13 de outubro tem uma reportagem que dá a entender que a instituição tinha problemas, mas não é explícita. Seu enfoque é o mesmo das [duas] notas da Folha [que ele reprova]: positivo e acrítico.

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