Domingo, 20 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO > CRISE ECONÔMICA

Muda tudo, inclusive a indústria do jornalismo

Por Alberto Dines em 16/09/2008 na edição 503

Ainda não foi escolhido o cognome com que o último fim de semana (13-14/9) entrará para a história econômica. É uma questão de dias – ou horas – até que se encontre o nome-fantasia apropriado para uma catástrofe que se anunciava claramente há mais de um ano e que os experts (inclusive na imprensa) teimavam em ignorar.


A ruína do banco Lehman Brothers, fundado em 1844, não é simbólica, não se trata apenas do fim do capítulo sobre os gigantescos bancos criados por imigrantes alemães no interior americano. Trombetear o fim do capitalismo é bobagem, instituições ou sistemas só podem ser consideradas tecnicamente encerradas quando há substitutos aptos. O suplente do capitalismo ainda não foi inventado e dificilmente o será algum dia.


No fim de semana arrancaram-se as derradeiras lantejoulas de um sistema financeiro que para se proteger, estufou, estufou até que arrebentou. A crise hipotecária americana não foi avaliada com a devida seriedade – pelas consultorias, agências de risco e a imprensa especializada – porque o sistema financeiro compreende vários níveis de negócio.


Mesmo em dias de quebradeira de bancos hipotecários há gente apostando no futuro, ganhando rios de dinheiro na própria débâcle do mercado.


Perigo das bolhas


O sistema se realimenta continuamente, o negócio de negociar com dinheiro – o próprio ou de outros – não admite lutos ou folias. Bolsas disparam e despencam, mal-humoradas ou bem-humoradas, independentemente da real situação dos mercados. Dentro de dias um especulador pode mudar drasticamente os tétricos índices da segunda-feira (15/9) sem tocar no mercado hipotecário americano ou no sistema mundial de refinanciamentos.


A imprensa não consegue mostrar esta complexidade. Nem jamais teve esta pretensão porque, para isso, deveria adotar uma postura rigorosamente crítica. Não necessariamente marxista, mas cética, militantemente cética. Não apenas no que respeita às crises em si, mas, sobretudo, no tocante ao mecanismo de criação de modismos, tendências e seu produto final, obra-prima do efêmero contemporâneo – as bolhas.


Alertar para o perigo das bolhas equivaleria desestimular o consumismo, o turismo e a falsa noção de que a felicidade só é possível num apartamento duplex com piscina olímpica. Quem agüenta viver sem a esperança de hospedar-se no Crillon de Paris, quem abdica do direito de sonhar com um Land Rover ou mini Sony Vaio?


Nem a mídia nem os mediadores – sobretudo estes – têm suficiente estofo (ou rabugice, dá no mesmo) para dizer aos concidadãos que estão sendo enganados quando governantes, experts e outros jornalistas garantem que uma catástrofe como a do último fim de semana será rapidamente contornada.


***


Os portais de notícias brasileiros no domingo (14/9) à noite eram um show-room do tal jornalismo do futuro. Com exceção de um par de especialistas de plantão, os veículos digitais – estes que estão sendo solenemente apresentados como substitutos dos jornalões e revistões – cuidavam do futebol, da Fórmula-1, da fofoca, dos cataclismos climáticos e da Bolívia; afinal, não se deve desperdiçar fotos de confrontos armados, lembram filmes de ação. Nenhum sinal do que acontecia nos EUA e dentro de horas seria manchete da imprensa mundial. Fácil entender: a bolha hipotecária e a bolha digital foram fabricadas pela mesma febre. Não se sabe exatamente o que vai mudar. Talvez a velocidade.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/09/2008 William Canaris Jr

    Começaram a aparecer os casos de banditismo dentro da ABIN. A íntegra está no site http://www.diariodopara.com.br, de 24/8/2008, pág. A-3:

    (…) A ABIN vive um período conturbado… Denúncias de esquemas de fraudes sendo investigadas e velhos esqueletos do armário da época da ditadura militar querendo ver a luz do sol. Entre os problemas, a denúncia de que no escritório da agência em Belém funcionários falsificavam e vendiam documentos falsos como certidões de tempo de serviço para serem apresentadas nos institutos federal, estadual e municipal de seguridade social, como INSS, Ipasep e Ipamb, com a intenção de facilitar deferimentos de processos de aposentadoria. A denúncia foi feita em 2003 ao Ministério Público Federal. O esquema veio à tona depois que a senhora Raimunda de Jesus dos Santos foi até a sede da ABIN, em fevereiro de 2002, reclamar que a certidão de tempo de serviço, que teria sido elaborada pelo servidor José Alexandre Lima Sanches, não fora aceita pelo INSS, no processo de aposentadoria do marido dela, João Barbosa dos Santos. Segundo a denúncia, Raimunda de Jesus informou que José Alexandre Lima Sanches atuava em conjunto com alguém chamado Raimundo de Oliveira de Araújo Filho, que se identificava como oficial de justiça. As certidões públicas seriam falsificadas e vendidas por 150

    Por que não publicam esta noticia?

  2. Comentou em 17/09/2008 josé paulo kupfer

    Meu caro Dines,

    Acho que sou um desses do seu par de jornalistas de plantão que foram exceção no domingo passado. Acho, aliás, que não é só um par.

    Acho também que devo ser uma exceção nessa ‘imprensa especializada’ que não avaliou bem a crise. Aliás, acho que não é de hoje que sou, como dizem os economistas, um ponto fora da curva.

    Enfim, imagino que você nem saiba de esforços, como os meus, para fazer um trabalho sério e honesto. Assim, fica o convite:

    http://colunistas.ig.com.br/jpkupfer/www.colunistas.ig.com.br

    Aqui, um texto, publicado às 23h42 do domingo, com um título que talvez você possa considerar entre os nomes que você procura para o fim de semana passado.

    http://colunistas.ig.com.br/jpkupfer/2008/09/14/domingo-sangrento-em-wall-street/

    Aqui, um texto já procurando avaliar os efeitos sobre o Brasil, sem catastrofismos, mas também sem oba-oba,

    http://colunistas.ig.com.br/jpkupfer/2008/09/15/calma-que-o-brasil-e-nosso/

    Seria uma honra a visita. Abraços. ZéPaulo Kupfer

  3. Comentou em 16/09/2008 Thomaz Magalhães

    É mesmo uma bobagem trombetear o fim do capitalismo numa hora dessas, quando despencam os valores da empresas. É a hora mais feliz para os capitalistas, que ficam ‘compradores’. Compram os prejuízos aplaudidos pela esquerda. Depois, quando ela se resigna diante da reação capitalista, ficando triste, eles ficam contentes de novo, aí vendedores. Realizando lucros. Numa hora como essa agora, os capitalistas nem notícia precisam ler. É só sair comprando. Notícia só precisam para para saber se ficou caro e vender. Gente feliz. E nós jornalistas, feito nossos ancestrais os trovadores, temos que fazer notícia na alta e na baixa, com o mesmo humor. Ou amor pelos leitores, se me entendem.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem