Segunda-feira, 27 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Muita declaração, pouca elaboração

Por Rolf Kuntz em 15/06/2010 na edição 594

Muita informação parece atrapalhar os jornais. Três grandes notícias chegaram à mesa dos editores de Economia no dia 8/6, terça-feira. A mais importante era sobre o crescimento espetacular do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre: 2,7% em relação aos três meses finais de 2009, ritmo equivalente a 11,2% ao ano.

A segunda era o relatório conjuntural da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em abril, segundo o levantamento, a indústria de transformação faturou 4,9% menos do que em março, descontados a inflação e os fatores sazonais. Os dados pareciam confirmar a tese do governo de uma acomodação dos negócios depois forte expansão entre janeiro e março. Mas o mesmo relatório indicava 83% de utilização da capacidade instalada, praticamente o mesmo de antes da crise.

A terceira notícia era um pouco mais fresca. Em maio, a produção nacional de veículos foi 2,9% maior que o de abril, quando houve retração de 7%. Acomodação, mesmo, e em que nível?

Parte fácil

Na velha e boa técnica do ‘lidão’, os jornais teriam combinado as três informações ao apresentar o quadro geral da economia e depois contariam cada história separadamente. Isso ajudaria o leitor a juntar as peças para formar sua opinião sobre o estado da economia. Mas os grandes jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro cuidaram dos assuntos como se fossem matérias estanques e alguns menosprezaram os números divulgados pela associação das montadoras.

Além disso todos mencionaram na chamada de capa um crescimento de 9% do PIB no primeiro trimestre. Essa informação é uma impropriedade, embora tenha aparecido também no press release do IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A notícia correta é outra: essa comparação apenas mostra um PIB 9% maior que o do trimestre inicial de 2009, não um crescimento de 9%, porque os períodos são descontínuos, embora a distância entre os dois seja de apenas um ano.

A impropriedade fica mais clara quando se toma o exemplo de dois períodos também descontínuos e mais distanciados: ninguém diria que o PIB de 2009 cresceu X por cento em relação ao de 2000, mas apenas que foi X por cento maior.

O dado preciso – e de fato muito mais impressionante – é outro: a expansão de 2,7% entre dois trimestres consecutivos. Mantida essa velocidade, o resultado seria um crescimento chinesíssimo de 11,2% num ano.

Embora desprezando ou sub-utilizando os números da CNI e da associação das montadoras, os pauteiros mandaram repórteres atrás de economistas do setor financeiro e de consultorias para ouvir opiniões sobre o ritmo atual de atividade, sobre a sustentabilidade do crescimento e, é claro, sobre a decisão provável do Comitê de Política Monetária (Copom) no dia seguinte. Esta parte era a mais fácil: dificilmente o aumento de juros anunciado na quarta-feira (9) seria diferente de 0,75 ponto porcentual.

Alvo oficial

Poucos jornais deram destaque à relação entre o acelerado crescimento do PIB e o descompasso entre o aumento das importações e o das exportações. O Valor acentuou esse dado no título da última página do primeiro caderno, dedicada inteiramente ao noticiário sobre as contas nacionais. O Globo dedicou um texto de uma coluna ao assunto na quarta página do caderno econômico e retomou-o no dia seguinte.

A maioria dos economistas, principalmente do mercado financeiro, tem dado relevo aos possíveis efeitos inflacionários do aquecimento e pouca importância à erosão do superávit comercial e ao aumento do déficit na conta corrente do balanço de pagamentos. Não haverá, segundo seu argumento, dificuldade para financiar essa diferença. Mas a experiência brasileira conta uma história menos simples e menos tranquilizadora, mas boa parte dos jornalistas parece havê-la esquecido.

Por falar em inflação, a maior parte dos jornais foi parcimoniosa ao citar os dados de maio do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o indicador usado como referência para a política de metas de inflação. A variação de maio, 0,43%, foi a menor do ano, como todos informaram, mas ainda suficiente para produzir em 12 meses uma taxa acumulada de 5,28%, bem acima do centro do alvo oficial (4,5%). Continhas como esta são simples. Não há mistério em taxas compostas, mas é mais cômodo ouvir algumas fontes e registrar suas opiniões. 

Fazer a diferença

Mas até as fontes foram pouco usadas. Economistas do setor privado calcularam de várias formas o chamado núcleo da inflação. Todos os cálculos apontaram pressões maiores que as indicadas pelo índice cheio (0,43%). O indicador de difusão mostrou aumentos em 60,94% dos componentes do IPCA. Esses detalhes, divulgados em textos curtos pela Agência Estado, poderiam ter alimentado matérias bem mais interessantes que as produzidas pelos jornais.

Em suma: os jornais continuam produzindo bem menos do que poderiam, se o objetivo fosse oferecer material mais trabalhado que o das emissoras de rádio e TV. Para isso, nem seria preciso um esforço excepcional. Para marcar a diferença, bastaria elaborar um pouco mais a matéria-prima já disponível.

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