Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

IMPRENSA EM QUESTãO > DIÁRIO MERCANTIL

Muito admirado, pouco conhecido

Por Matías M. Molina em 05/09/2011 na edição 658
Reproduzido do Valor Econômico, 2/9/2011; intertítulos do OI

O Diário Mercantil, de São Paulo, foi um dos jornais mais admirados e elogiados no século XIX. Segundo as referências, era bem escrito, bem apresentado, de bom gosto e uma das plataformas literárias da época. Vários dos melhores escritores passaram por suas páginas. O historiador da literatura brasileira Brito Broca escreveu que a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro era o jornal “que abria o maior espaço à colaboração literária no Brasil e que melhor pagava os escritores, só encontrando concorrente nesse terreno: o Diário Mercantil de Gaspar da Silva em São Paulo”.

Um historiador da imprensa paulista, Affonso A. de Freitas, o considera um dos melhores diários de São Paulo pela correção de linguagem e escolha de assuntos literários. Outro, Lafayette de Toledo, diz que era um dos jornais mais bem-feitos de São Paulo e contava com a colaboração das mais brilhantes penas do mundo literário luso- brasileiro. Segundo Paulo Duarte, era “um jornal muito bem feito, (…) um dos melhores diários paulistas pela correção da linguagem e boa escolha da colaboração”.

A curiosidade despertada pelos elogios e o interesse em conhecer melhor esse jornal literário com nome de publicação econômica ficam frustrados pela escassez de informações sobre ele.

Vida curta

O Diário Mercantil foi fundado em abril de 1884 por Buenaventura Gaspar da Silva Barbosa, um português “liberal e rebelde”, e Leo d’Affonseca, também português, com Eduardo Salamonde como redator. Um relato da época diz que era impresso numa tipografia situada num “antigo prédio na rua do Commercio, esquina do beco do Inferno, hoje travessa do Commercio nº 50.” (Antes deste jornal, de 1824 a 1827 tinha sido publicado no Rio de Janeiro outro Diário Mercantil, que deu origem ao atual Jornal do Commercio).

Olavo Bilac, estudante do curso de direito em São Paulo, teve no Diário Mercantil seu primeiro emprego para custear os estudos, por recomendação do poeta parnasiano Raimundo Correa. Outro poeta, Alphonsus de Guimaraens, também estudante de direito, escreveu para o Diário. O jornalista conservador França Júnior mandava crônicas do Rio de Janeiro.

Júlio Ribeiro publicou nele as polêmicas “Cartas Sertanejas”. Ao começar a série, ele deixou claro que agia com total independência, até porque o Diário Mercantil não era solidário “nas opiniões a manifestar, nos juízos a emitir”, o que lhe dava total liberdade para escrever sem restrições, e que, “se me aprouver, irei até o paradoxo, chegarei até ao absurdo”. As dez “Cartas” que escreveu eram um ataque frontal ao Partido Republicano Paulista (PRP), que dominava a vida política da província. A reação veio na forma de artigos igualmente violentos escritos por Alberto Salles, que tinha adquirido o controle do jornal A Província de S.Paulo, que depois mudaria o nome para O Estado de S.Paulo.

Max Leclerc, em Lettres du Brésil, diz que o Diário Mercantil publicou umas poesias do poeta José-María de Heredia em francês, mas sem tradução. “Por que trair?”, disse o diretor, numa referência à célebre frase “traduttore, traditore”.

Em 1886, o Diário, com 3 mil exemplares, era o segundo jornal em circulação de São Paulo, atrás dos 3,3 mil da Província, porém à frente do Correio Paulistano, com 2,5 mil cópias. Pouco antes da proclamação da República, o presidente da província, general Couto de Magalhães, subvencionava o Diário com 500 mil réis mensais. O pagamento, aprovado pela Câmara, era disfarçado sob a rubrica “auxílio à imprensa para propaganda de imigração em Portugal”.

Gaspar da Silva (que alguns escritores insistem em chamar “da Silveira”) foi o primeiro dos fundadores a deixar o jornal. Não ficaram registros dos motivos. Ele passou a escrever no Jornal do Commercio de São Paulo, uma folha de vida muito curta, antecessora do Diário Popular, e em várias outras publicações; voltou a Portugal como correspondente de O Estado de S.Paulo. O Diário Mercantil ficou aos cuidados de d’Affonseca e de Salamonde. Mas em 1891 eles também saíram para trabalhar em O Paiz, do Rio, do qual Salamonde seria diretor.

Memória coletiva

O Diário fechou e no ano seguinte foi relançado por Felippe Gonçalves com o nome de O Mercantil; a redação ficou aos cuidados de João de Araujo e Adolpho Araujo. O Mercantil foi sucedido pelo jornal político A Federação, que utilizou as instalações e a tipografia de Felippe Gonçalves. O novo jornal foi lançado para apoiar o governo de Américo Braziliense. João de Araujo e depois Pedro Gomes Cardim ficaram no comando da redação; Adolpho Araújo foi seu primeiro diretor-gerente, substituído por Pedro Cardim. O jornal foi empastelado duas vezes. Na última, em 1901, suas instalações foram destruídas. Adolpho Araujo fundaria A Gazeta de São Paulo em 1906.

O Diário Mercantil, apesar da atenção que despertara em seus primeiros anos e das qualidades que os contemporâneos lhe atribuíram, desapareceu da memória coletiva. Um jornal com esse nome foi lançado em Juiz de Fora (MG) em 1912 e outro é editado pelos Diários Associados no Rio de Janeiro desde 1991.

***

[Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem