Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > OS MIMOS DA VEJA – 1

‘Não’ ao desarmamento, ‘sim’ ao facciosismo

Por Alberto Dines em 04/10/2005 na edição 349

A matéria de capa da Veja (nº 1925, 5/10/2005, págs.78-86), sob o título geral ‘7 razões para votar não’, é um clássico do jornalismo panfletário, capaz de convencer alguns indecisos por algum tempo e confundir outros para sempre.


Para começar: a matéria é prepotente e precipitada. Deliberadamente facciosa, sequer tenta uma isenção formal. Neste início da temporada de debates sobre o referendo das armas, com ainda três edições antes do 23 de outubro, ao invés de ensaiar uma progressiva troca de idéias capaz de suscitar o contraditório e algum esclarecimento antes de se acionar a urna, a revista berra para o leitor – ‘Cala boca, você não sabe nada’.


Nas edições seguintes será obrigada a subir de tom, esgoelar-se, pisotear a razão, apelar para emoções ainda mais fortes. Em algum momento desta cruzada o leitor perceberá que foi ludibriado, não lhe deram tempo para pensar nem lhe ofereceram alternativas para exercer o seu discernimento.


É evidente que a questão preparada pelo TSE foi mal escolhida e mal formulada. Também é evidente que a omissão do governo em matéria de segurança – como em outras questões cruciais dominadas por palavras de ordem ‘politicamente corretas’ – só favorece o ‘não’ ao desarmamento.


Com a exceção do prefeito paulista José Serra e desde segunda-feira (3/10) da governadora fluminense Rosinha Mateus, ambos favoráveis ao ‘sim’, nenhuma autoridade dispôs-se a discutir a questão com as respectivas comunidades.


O poder público retraiu-se, o Estado lava as mãos, esquecido de que na verdade ele é que está sendo julgado. Entregou a discussão às duas frentes parlamentares, multipartidárias (que, por isso, não conseguem formular uma estratégia argumentativa comum) e às ONGs dos dois campos.


Sob o pretexto de não influir, o governo eclipsou-se. Abriu mão de ser governo. Aos adeptos do ‘sim’ oferece a perspectiva de um milagre, aos militantes do ‘não’ presenteia com a certeza de que ao cidadão só resta a opção de defender-se sozinho.


Papel mediador


O vácuo não é só do governo, também é dos partidos. Nenhum deles conseguiu a unanimidade, todos divididos – o que explica as frentes multipartidárias. O vácuo está sendo preenchido inicialmente por um bonapartismo do tipo Veja, em seguida o será pelo cesarismo de algum demagogo tipo Severino escondido num partido-arapuca.


Veja abdicou da sua capacidade de persuadir. Não confia nela ou não confia no leitor. Prefere o rolo compressor da argumentação curta, frenética e fartamente ilustrada. Aquele recurso das páginas 78-79 é pura propaganda, nenhum parentesco com jornalismo. Ao lado de um ‘inocente’ revolver calibre 38 o título proclama: ‘O referendo pode proibir a venda desta arma…’; e conclui, na página frontal: ‘…mas nada pode fazer para tirar este arsenal das mãos dos bandidos’ – e mostra 32 granadas e sacos de munição de grosso calibre.


A comprovação do facciosismo de Veja foi dada na primeira rodada do horário do TSE, na segunda-feira, quando a matéria de capa publicada dias antes foi exibida pelo partido do ‘não’ como argumento definitivo em favor de suas teses. Parecia jogada ensaiada.


Ao contrário da mídia eletrônica controlada pela Justiça Eleitoral, a mídia impressa — a imprensa — é desregulamentada, livre. Imprensa livre não significa imprensa entregue à licenciosidade. O Jornal Nacional de segunda-feira (3/10) e O Globo do dia seguinte mostraram como se argumenta com competência, como é possível oferecer ao público elementos para a formação de juízos sem impor-lhe conclusões. Ao mostrar que 61% das armas apreendidas no Rio nos últimos seis anos passaram por pessoas sem antecedentes criminais, oferece-se ao eleitor do referendo um elemento para ajudá-lo a tomar decisões. É, em última análise, um argumento favorável ao “sim”, mas é, antes de tudo, um estímulo à reflexão.


Referendos e plebiscitos em países com partidos inconsistentes – e desde que ministrados em doses apropriadas – podem aumentar o grau de participação popular e agilizar a tomada de decisões. Sem uma imprensa lúcida, responsável, capacitada para o seu papel mediador, tanto o ‘sim’ como o ‘não’ podem tornar-se exercícios fúteis, espécie de ‘cara ou coroa’ para decidir o destino de uma nação.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/07/2009 priscila jobim souza

    faculdade severini sombra,maricá,rj

  2. Comentou em 23/10/2005 Tatiana Pinheiro

    A Revista Veja com certeza não deixou o cidadão o direito de julgar a melhor alternativa que lhe convêm no Referendo. Depois da edição da Revista, o Não aumentou entre os eleitores.
    Concordo com o jornalista Alberto Dines ao dizer que a reportagem ajudou a convencer e confundir alguns cidadãos.

  3. Comentou em 10/10/2005 Leandro Vilas

    Caro Fabio,
    Minha diferença em relação a você é que eu acho que tanto Veja quanto a Trip estão CERTAS.
    Bom jornalismo, para mim, não significa escutar ‘burocraticamente’ ambos os lados (até porque como já vimos essa é a melhor tática para legitimar uma), significa passar informação, deixando clara – de antemão – sua opinião sobre o assunto. Se você não concordar e achar um absurdo, cancele a sua assinatura como fez o Carlos Eduardo de Santos e busque informações em outras fontes.
    Aliás, se o NYT tivesse feito o que vc sugeriu (e acho que foi mais ou menos por aí) não penso que estivesse errado.
    Ética, mais do que tudo, demanda transparência.
    Quanto a Afif, a afirmação dele é sim genérica, uma noção de senso comum (obviamente que tem a ver com a matéria, eu não disse o contrário), pronta para ser desmentida pela matéria
    PS: parabéns ao Marcelo Leme de Osasco! Vc foi direto no ponto: eis a irrelevância do plebiscito.

  4. Comentou em 10/10/2005 Leandro Vilas

    Caro Fabio,
    Minha diferença em relação a você é que eu acho que tanto Veja quanto a Trip estão CERTAS.
    Bom jornalismo, para mim, não significa escutar ‘burocraticamente’ ambos os lados (até porque como já vimos essa é a melhor tática para legitimar uma), significa passar informação, deixando clara – de antemão – sua opinião sobre o assunto. Se você não concordar e achar um absurdo, cancele a sua assinatura como fez o Carlos Eduardo de Santos e busque informações em outras fontes.
    Aliás, se o NYT tivesse feito o que vc sugeriu (e acho que foi mais ou menos por aí) não penso que estivesse errado.
    Ética, mais do que tudo, demanda transparência.
    Quanto a Afif, a afirmação dele é sim genérica, uma noção de senso comum (obviamente que tem a ver com a matéria, eu não disse o contrário), pronta para ser desmentida pela matéria
    PS: parabéns ao Marcelo Leme de Osasco! Vc foi direto no ponto: eis a irrelevância do plebiscito.

  5. Comentou em 09/10/2005 José Nogueira Lima

    Gosto muito dos comentários e das reflexões de Alberto Dines. Contudo, discordo de suas opiniões expressas no artigo ‘Os Mimos da Veja – 1’. A ‘Veja’ foi corajosa e publicou uma matéria de cunho editorial, em que a revista assume uma posição. Numa imprensa tão em cima do muro, a ‘Veja’ foi, na minha opinião, formidável. Numa imprensa em que na grande maioria das vezes, as matérias têm apenas uma muito artificial forma de ser neutra – mas que, na realidade, disfarça sua opinião e tenta fazer os leitores de burros – a ‘Veja’ foi singular.

  6. Comentou em 07/10/2005 carlos franco

    Caro Dines, peço apenas que nao divulgue a informaçao que estou lhe enviando antes da sua publicaçao neste domingo no Estadao.

    O predio sede da Editora Abril, em Sao Paulo, e o Birmann 21. Da familia que controla a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), a maior fabricante de muniçao da America Latina. Isso talvez ajude-o a entender o NAO da empresa que edita Veja e paga um bom aluguel pelo predio.

    Mas, por favor, nao use a informaçao antes de sua publicaçao. O que me deixaria em situaçao, no minimo, delicada e constrangedora.

    abraço,

    PS Minha amiga Marinalda Carvalho nunca mais me deu noticias, ainda esta com voce neste Observatorio???

  7. Comentou em 06/10/2005 Marcelo Carvalho

    Finalmente, depois de muita demora, vejo na TV os comerciais sobre o referendo, porém, com apenas duas opções de voto. Fico sem saber se posso votar nulo ou em branco. E se alguém apertar a tecla 3 e confirmar? Isto anulará o voto ou fará com que a máquina ‘peça’ o voto outra vez? Moro num país dito ‘democrático’, mas não sei se posso votar nulo.

  8. Comentou em 05/10/2005 Luciano Orlando

    O que vcs têm a dizer sobre o escandaloso apoio da D. Globo ao SIM no referendo, cedendo(obrigando) seus atores e divulgando todo tipo de coisa diariamente no JN? Apareceu até D. Rosinha Garotinho dizendo q vota SIM. Não era para o Ministério Público tirar essa emissora do ar por, pelo menos, um mês? Não disseram que o STJ não permitiria, de forma nenhuma, alusões ao referendo nos veículos de comunicação que não fossem as propagandas oficiais do TSE?

  9. Comentou em 04/10/2005 Nathalie Teyssonneyre

    Não acho que a matéria da VEJA tenha sido tudo isso que o Sr. Alberto Dines escreveu. Acho sim, que alguém deveria se expor e explicar (como fez a VEJA) os perigos do desarmamento.
    Infelizmente, no Brasil de hoje, essa não seria a melhor forma de se controlar a violência. Não tenho e não pretendo ter armas em casa, mas prefiro que bandido nenhum saiba disso…
    Além disso, em um pais onde o índice de analfabetos é enorme, vi pessoas, com o terceiro grau completo e uma professora se confundirem com a pergunta que tem sido vinculada no país. Acho que, isso sim, foi feito propositalmente, para que as pessoas votem sem saber em que estão votando.
    Acho, então, que deveriam criticar o governo e não aqueles que tentam esclarecer.

  10. Comentou em 04/10/2005 Leoni Boa Sorte

    Por via das dúvidas, seria pertinente que a Policía Federal vasculhasse as contas da Veja/Abril, seus editores etc., não de agora, e dos fabricantes de armas. Nada de mais, apenas para conceder-lhes o atestado de isenção (já que nada vão encontrar, e ninguém vai saber de nada!!!)

  11. Comentou em 04/10/2005 Arnaldo Mansur Jorge

    É Sr.Dines eu tenho lá minhas reservas com relação à Veja, mas no quesito desarmamento levando-se em consideração a situação atual da segurança pública do Brasil, tantas vezes discutida e mal resolvida; eu fico desta vez com o NÃO, porque de hipocrisia eu já ando no limite.

  12. Comentou em 04/10/2005 Ernani Adriano de Almeida Camargo

    Ninguém, relativamente bem informado, ciente e cioso dos seus deveres, pode ser favorável à proibição das armas. O cidadão deve ter o direito, em última instância, de defender seu país de agressões externas e dos sistemas ditatoriais. A respeito de um possível desarmamento, Augusto Zimmermann, professor de Direito Constitucional, afirma: ‘Como consequência, o cidadão honrado ficará absolutamente à mercê de criminosos comuns e do próprio estado, quando este se transformar em instrumento de tirania e opressão.’ in Curso de Direito Constitucional, pág. 638, ed. Lumen Juris. E prossegue: ‘Ademais, como é sabido que o criminoso é comumente chamado de fora-da-lei, exatamente por não respeitá-la, nós ousaríamos afirmar que tais medidas podem até mesmo agravar a escalada de violência, porque incentivam criminosos a atacarem cidadãos indefesos.’
    Ou seja, a proposta de desarmamento é própria de pessoas totalmente desinformadas sobre a realidade. Acidentes com armas poderão ser evitados, sim, mas então é melhor proibir também o tráfego de automóveis, pois eles matam muito mais em acidentes e até propositalmente, que as armas de fogo…

  13. Comentou em 04/10/2005 Fernando Barretto

    Senhor,

    Antes de mais nada, mas de fundamental importância aos meus comentários: eu não tenho armas de fogo, nunca tive e não pretendo ter. A única classificação para quem resolve as coisas pelas vias de fato é a de criminoso. Posto isto, vamos lá:

    Não se trata de facciosismo. Qual seria seu posicionamento se a Veja tivesse publicado ‘Sete razões para votar sim’ ?

    De fato, com este referendo, houve uma mudança de foco da situação segurança e criminalidade. Os dois lados estão fazendo desinformação mas, sem dúvida, é bonitinho, é politicamente correto, fica bem dizer que vota ‘sim’. O que um artista de televisão sabe mais de sociologia, de democracia, de política, de economia etc do que eu ? A maior parte sabe muito menos, de fato são incultos na grande maioria dos temas sociais que defendem ou que são pagos para defender. A escolaridade da maioria dos artistas é muito baixa. Mas é ‘bacana’ aparecer na mídia de ‘bonzinho’ defendendo o desarmamento. Volto a dizer, ninguem tem que andar armado, ninguem tem que ter armas, mas o que está havendo é uma mudança de foco. O que é importante para a sociciedade não está sendo discutido, o governo não está vindo referendar junto aos eleitores suas ações executivas ou legislativas. Por exemplo, que tal discutirmos o Modelo Político, quantos representantes por estado, forma de representação, fontes e forma de campanhas, escolaridade dos candidatos, vida pregressa dos candidatos, remuneração etc. Ou, que tal referendarmos a ‘transposição do Rio São Francisco’ . Bilhões vão ser gastos e, tecnicamente posso discutir com qualquer um desses governistas a viabilidade deste projeto. Mas vamos que vamos, ‘se vai dar certo isto não tem a menor importância, o que interessa é que bilhões vão ser gastos e isto significa uma boquinha’, é assim que pensam os políticos. Aliás, que bocão, será que teremos mais valerioduto, delubioduto, malufioduto ? A reforma da educação, se é que isto pode ser chamada de reforma, está sendo empurrada goela abaixo da população, ninguem veio me perguntar se eu concordo. O tráfico, as guerras de quadrilhas, os arrastões estão correndo solto e o governo não veio me perguntar quais ações são adequadas para estancar o problema.

    Outro aspecto é a patrulha ideológica: já que é assim, não precisa gastar esta dinheirama com este referendo e já se proibe a comercialização.

    A grande pergunta é: ‘A quem interessa este referendo neste momento’ ?

    Atenciosamente

    Fernando Barretto

  14. Comentou em 04/10/2005 Jacob Salzstein

    Meu caro Dines (permita-me a familiaridade, já que lhe acompanho os comentários pela Cultura): a equação é simples: a polícia, quando existe, é inepta, quando não corrupta; o cidadão de bem vive atrás de grades domésticas, amedrontado, apavorado, cercado pela bandidagem; a bandidagem, sim, é que deveria estar atrás de grades – da cadeia, não de seu lar. Diante desse desolador panorama, qual a solução? Desarmar o honesto e não fazê-lo (por pura covardia) com o bandido, está certo isso? Se querem desarmar, tudo bem: incluam a bandidagem também, caso contrário, será o caos!

  15. Comentou em 04/10/2005 Francisco Sanchez

    Sr. Dines, não acredita estar na hora de se discutir a posição da mídia no Brasil ,seus direitos e obrigações , sua verdades e seus erros, seus interêsses, sua obrigações sociais , etc, para seu próprio bem e muito mais para o nosso?
    Como isso poderia a ser feito sem que o ‘poder’ não se colocasse como vitima de um movimento intimidatório para calar a ‘imprensa democrática’?
    Como acabar com as mazelas existentes , as notícias plantadas e como fazer para que tenhamos o contraditório dentro da mídia?
    Como nós podemos nos expressar e sermos ouvidos?
    Quando poderei dois jornais?

    Francisco Sanchez

  16. Comentou em 04/10/2005 Luis Augusto Orleans

    Dines, o que que é isso? E O Globo qeu já antes mesmo do início da campanha ,já fazia, como ainda faz, propaganda do ‘SIM’.
    Do ‘SIM’ pode ? Escreva algo contra O Globo também!

    A propósito aonde que no Rio se compra armas e munições legalmente? Eu não conheço . ( Dizem que na baixada tem – mas quantas ?) Aonde ficam? Quanto custam? Conheço toda a Zona Sul e não vejo nenhum anúncio de armas. Acho este referendo ridículo. Há assuntos muito mais importantes como por exemplo a pena de morte, mais disso nem se cogita consultar o povo porque sabem que passaria com facilidade. Democracia é o respeito da vontade da maioria seje esta vontade politicamente correta ou não.

    Acompanho seus artigos desde os tempos da ditadura ,pelo Pasquim,e sempres apreciei o seu discernimento. Continue.

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