Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & POLÍTICA

Não dá para culpar a imprensa

Por Ivan Berger em 12/02/2008 na edição 472

Faz parte da faina midiática conviver com a má vontade, a falta de reconhecimento público. Mal comparando, seu desempenho está sujeito à mesma implicância e intolerância normalmente encarnada pelo árbitro de futebol, para quem o máximo da aprovação é passar despercebido aos olhos de uma platéia condicionada a reagir muito mais à base da emoção do que pela razão. Sem falar nas generalizações que tendem a transformar tudo em farinha do mesmo saco, quando se toma o todo pelo individual, a regra geral pela exceção, face à conveniência de uma estigmatização que sempre servirá para expiar culpas e delitos inconfessáveis.

Assim como é raro o jogo em que os derrotados não lancem mão do manjado expediente de culpar a arbitragem, na vida pública é praxe que a imprensa arque com o ônus dos podres que divulga. Trocando em miúdos, além de veicular, denunciar, exige-se que o tom seja apropriado, no diapasão certo. Como se isto fosse possível num contexto político de cartas marcadas em que nem sempre é a realidade que conta, mas no que se quer acreditar.

Basta ver que mesmo em exemplos de escandalosa bandalheira, para dizer o mínimo – como a farra dos cartões corporativos – não falta quem considere perseguição o justificado alarde feito pela mídia. Racismo, má vontade para com o governo, são as alegações apresentadas em desagravo a Matilde Ribeiro, que por conta disso demitiu-se do esdrúxulo ministério criado para promover a igualdade racial no país. Da mesma forma como na semana anterior a repercussão dos depoimentos auto-incriminatórios de alguns indiciados no mensalão – pelo menos no que tange à existência do caixa 2 petista – foi recebida com ressalvas nas hostes governistas. Mais especificamente, em relação à forma como o Jornal Nacional, da TV Globo, enfocou as contradições do ex-secretário do partido, Silvio Pereira, acerca do envolvimento na trama do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, a quem reivindicam, ora pois, equanimidade de tratamento.

Prevaricadores convictos

Como sempre, a jogada consiste em tentar desviar o foco dos fatos desabonadores que continuam vindo à tona, mediante a perfunctória teoria do complô midiático, ou seja, a velha conversa para boi dormir que mesmo os mais desavisados não engolem mais. Ainda mais com o matreiro artifício de atrelar as mazelas e vicissitudes atuais à suposição de que tudo teve origem no governo anterior. Como no caso dos cartões corporativos, introduzido por FHC em 2001 e que, sob Lula, para variar, viraram mais um escândalo de proporções grandiosas, altamente lesivas ao erário público. E isto que destinado apenas a despesinhas extras – salário, ajuda de custo, verba de representação e outras subvenções à parte, of course.

A diferença é que desta vez não vai ser possível responsabilizar a imprensa pela repercussão para lá de negativa que esse novo esbulho vem despertando. Até porque, para cúmulo da ironia, a lebre foi levantada pelo portal criado pelo próprio governo para manter a sociedade informada dos gastos da máquina administrativa. O que torna a coisa ainda mais revoltante, pois denota um descaso, um desprezo pelo risco de ser flagrado típico de meliantes profissionais, se é que já não estamos falando deles. De prevaricadores convictos, em todo caso, a própria pivô da crise encarregou-se de vestir a fantasia ao dizer que não se arrepende de nada e que faria tudo outra vez.

A sobra dos tucanos

O curioso é que talvez nunca a imprensa teve seu trabalho tão facilitado como nesta nova tunga, com tudo esmiuçado e disponível no site governamental, dos 8 reais gastos em tapioca pelo ministro dos Esportes, Orlando Silva, aos milhões despendidos pelas grandes corporações, funcionários graduados e seus serviçais, tudo às expensas da perdulária gestão administrativa do atual governo. Que com esta e outras liberalidades fez com que os gastos públicos quase dobrassem desde que Lula assumiu, contrastando com a avareza que vem pautando os investimentos nos setores mais carentes da sociedade. Mas nestas de azeitar a máquina petista, eis que mais uma vez os comensais se excedem no rega-bofe e um novo escândalo vai para a coleção do lulismo.

Pois é, como se já não bastassem as incertezas que turvam os horizontes neste início de ano, mormente o fantasma da recessão que ameaça os Estados Unidos e que já vem causando danos consideráveis às bolsas e colocando em xeque a economia dos países exportadores, tudo indica que o ambiente político, relativamente tranqüilo desde o arranca-rabo da CMPF, viverá dias agitados até baixar a densa poeira que a farra dos cartões está levantando.

Sim, porque as denúncias não devem parar por aí. Ao contrário, todo dia surgem novas extravagâncias – como o 1 milhão de reais torrado na suntuosa decoração da cobertura do reitor da UnB – e é possível que sobre até para o governo anterior e para a oposição em função de gastos exorbitantes com combustível atribuídos ao ex-presidente FHC e mesmo os 108 milhões de reais consumidos no ano passado pelo governo tucano em São Paulo sob a rubrica de despesas miúdas. Aliás, nada mais justo, pois não pode haver imunidade em se tratando de falcatrua.

Chafurdando na lama

Um capítulo à parte é a verdadeira caixa-preta representada pelos 3,7 milhões de reais consumidos pelas famílias dos dois chefes de Estado, distribuídos em dez cartões, mas cujo detalhamento, este sim, é mantido sob sigilo. Prerrogativa obviamente questionável e que, a rigor, só serve para reforçar as suspeitas sobre as mordomias palacianas que, de acordo com outras fontes, estariam perto do sacrilégio. Como, aliás, sugere o gasto de 50 mil reais correspondente à segurança de uma das filhas do presidente.

Motivo a mais para que a imprensa, não obstante a tosca regulamentação do uso do cartão, seja criteriosa na diferenciação do que pode ser considerado gasto aceitável do abusivo, para que se possa separar o joio do trigo e evitar julgamentos precipitados e levianos, injustiças, enfim, impedir que os bons paguem pelos maus.

E, é claro, que se dê curso às investigações, doa a quem doer, pois a sociedade está cansada de ver a sujeira sendo sistematicamente varrida para debaixo do tapete sem que os saqueadores dos cofres públicos sejam devidamente punidos, já que escudados por meandros jurídicos que, a bem da moralização do país, precisam ser urgentemente revistos. Sem leis mais rígidas e o fim da impunidade, o país vai continuar chafurdando num mar de lama que a cada governo parece mais fétido.

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Jornalista, Santos, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/02/2008 Filipe Fonseca

    Quer dizer que quando o governo disponibiliza os gastos na internet é uma ‘ironia’? Não é busca por transparência? Haja má vontade. Pessoalmente, antes que eu seja acusado de ‘lulista’, não vejo partido político brasileiro que preste. São todos partidários do ‘toma-lá-dá-cá’ anti-democrático, sem exceções. Mas eu teria de ser cego para não enxergar que o número de ações da Polícia Federal subiu tão significativamente que é de se questionar se o governo FHC não inibia tais ações de forma ativa. O Portal da Transparência também não pode ser visto como ‘ironia’ – não numa análise sincera, sem má vontade. A idéia de que os gastos públicos subiram ‘assustadoramente’ chega a ser rizível. O governo FHC tinha uma política de sucateamento do setor público, até para poder sustentar a tese do ‘Estado mínimo’. Faltavam funcionários – e, onde trabalho, ainda faltam. Os salários estavam defasadíssimos. É natural que haja um choque; não é natural que se chame a isso – a reestruturação do serviço público – ‘liberalidades’. O governo Lula é corrupto, sem dúvida, mas a idéia de que há ‘mais corruptos’ e ‘menos corruptos’ é permissiva demais, leviana demais. A corrupção não está neste ou naquele governo, mas no caráter (ou na ausência de) dos brasileiros. E este parece resistir, seja qual for o partido que defende seus interesses particulares ocupando a presidência.

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