Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Não existem receitas, mas reflexões

Por José Aloise Bahia em 10/08/2004 na edição 289

Bem lúcida e informativa a nossa amiga Glória Metzker ao escrever para o site Jornalistas de Minas sobre o último encontro, em que se debateu a ética jornalística. Durante o curso, registrei algumas palavras que pululavam pelo auditório nas vozes dos professores José de Anchieta Corrêa, José Milton Santos, Valdir de Castro Oliveira, na minha e outras observações feitas pelos colegas. Ei-las: códigos, posturas, conselhos, mandamentos, padrões, valores, deontologia, Lei de Imprensa, abertura, censura, moral, o poder político e a empresa, o privado x o público, os direitos e deveres impostos ao exercício profissional, a formação de uma opinião pública crítica, as responsabilidades e responsividades sociais, as fontes, a ‘verdade dos fatos’, a ‘imparcialidade’ e a principal, a ética.

A citação destas é fundamental para compreender, no trabalho diário vivido pelos participantes, e na tentativa, entre convergências e divergências no seio da cobertura e feitura das matérias e reportagens, refletir os vários tipos de comportamentos experimentados, sem receitas preestabelecidas, prato predileto dos maniqueístas. O assunto é sempre atual, amplo e complexo numa sociedade em crise de valores de toda espécie. Uma sociedade marcada pelo denuncismo, como bem ponderou o professor Valdir. Pena o Valdir não ter exibido – o tempo estava escasso –, para posterior debate entre os presentes, um filme instigante, Jenipapo, da diretora baiana Monique Gardenberg; mesmo assim valeu relembrar cenas de A montanha dos sete abutres, um clássico de Billy Wilder destinado à imprensa e àqueles que se preocupam com os rumos da comunicação social. Recomendo ambos aos confrades. Tarefa fácil e barata em qualquer locadora de vídeo e DVD.

A palavra ética vem de ethos, termo grego que significa a conduta, o caráter ou o comportamento humano conveniente visando atingir uma meta, um bem. Ética é diferente da práxis, que é uma atividade ligada a uma posição e prática política, a qual se diferencia também de arbeit, que são as atitudes e o nosso trabalho exercido no dia-a-dia. Todas, em conjunto, diferem de uma outra, também muito importante, a moral, que deriva do latim moraãlis, e se refere ao conjunto de normas livres, conscientes e aceitas que objetivam organizar as relações dos indivíduos na sociedade. A ética é um tipo especial de reflexão interna e pessoal, feita por nós, seres humanos, construída na medida em que crescemos e vivenciamos em nossas várias histórias e interações sociais as atitudes, condutas e comportamentos que visam à evolução do comportamento e a re/tomada de determinadas consciências e responsabilidades.

Novidade escondida

Os princípios de uma nova ética – o termo é do pensador Pietro Ubaldi – para o homem de hoje é um desafio amplo da melhor espécie e qualidade: desejar e escolher um tipo de edificação de caráter neo-humanista. Aqui, não é somente o homem que está no centro do universo. Como bem lembra Leonardo Boff, agora existe também a humanidade e aquilo que a acompanha: a natureza, o ecossistema, a biodiversidade e a nossa mãe Terra. Eis a propensão inegável e vital para despertar uma reflexão diferente e fundamental, criar novos valores, e conclamar a consciência de todos sobre os desmazelos impostos por nós dentro da nossa eterna casa, a Terra. Este é um dos lados macro da discussão ética. Ponto de parada importante, pois sem a Terra nada existe.

Pois bem, voltemos então ao micro. Para o jornalismo, enquanto alimento cotidiano do mundo, prescinde um tipo de ética de responsabilidade e respeito às leis sociais, pautada na liberdade para a reflexão e escolhas pessoais e aquilo que tanto faltam às manchetes, notícias e reportagens, como bem argumentou, de maneira objetiva e prática, José de Anchieta: a renovação constante, a invenção do novo, a novidade. Mesmo que os manuais, agenda-setting, critérios de noticiabilidade, valores-notícia, newsmakings, gatekeepers, editores, conselhos editoriais, processos de rotinização e as empresas em seus veículos e ‘pactos’ com os públicos diversos em conjunto com a realidade natural do mundo dos fatos e acontecimentos apontem que a maioria das notícias seja proveniente de catástrofes, escândalos, desgraças, fait divers, roubos, mortes, crimes, aumento dos preços, desvios e infrações, devemos arregalar nossos olhos e observar alguma novidade escondida por aí, pois não deixa de ser esta veemente carência, aquilo que nos falta e aflige, o que nos impulsiona. Não para um ‘furo jornalístico’, e sim para o reino da novidade e da esperança.

Afirmação e evolução

Devemos ficar atentos e perceber a alteridade do outro, como nós sedentos de autonomia e com algo para dizer, em nossas transitações no mundo real e natural – espero que alguns jornalistas estejam à procura deste caminho –, feita no embate dos vários sujeitos com suas histórias e reflexões diurnas e noturnas, em detrimento dos esmagadores ‘valores maiores’, impostos pela moral estabelecida. São nestas passagens que estaremos em condições de privilegiar, retomar e dar forma à incrível e difícil tarefa de construir uma nova ética. Em que o desejo e a liberdade, em seus olhares e significados, possam apontar para a construção efetiva e digna de um tipo de informação que privilegie uma cidadania mais inclusiva e participativa de todos, independentemente de raça, credo religioso, partido político, sexo etc., extensível a nossa classe: a de jornalistas plenos em sua vocação na construção de um mundo melhor.

Fica o desafio para a categoria em sua vontade incessante de afirmação e evolução em suas práticas, encontros e convívios na cidade, no campo, no trabalho e na família. Mesmo com o deadline e o corre-corre do cotidiano devemos reinventar o mundo através da reflexão ética. Não existem receitas para esta época ‘pós-utópica’ – a expressão é do poeta Haroldo de Campos –, e sim um desejo e uma necessidade de reflexão, sem a qual estaríamos mais perdidos que as balas nefastas que perambulam pelos morros e a cidade, e nos deixam meio envergonhados, com uma sensação estranha e visceral de que nada vale a pena.

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Jornalista

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