Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ENTRE ASPAS >

Nem todos morreram com o JB

Por Joaquim Ferreira dos Santos em 07/09/2010 na edição 606

Ao contrário do que foi noticiado aqui, no texto sobre a morte do Jornal do Brasil, o jornalista Luarlindo Ernesto não acompanhou o JB neste doloroso processo de passagem para uma outra encarnação e continua circulando, vivo, pelas ruas do Rio.

Luarlindo, um dos melhores contadores de casos das redações cariocas, estava de plantão na noite em que um concorrente publicou com exclusividade o relatório do Exército sobre o Riocentro. De posse de um exemplar com o furo, no início da madrugada, Luarlindo gritou o mantra sublime do jornalista, o ‘Parem as máquinas!’ com que todos sonham. Chupou todo o relatório – inclusive os erros de português que estavam na versão da concorrência – e mandou para as bancas uma nova edição do JB, que não podia ser furado, pois havia ganho um Prêmio Esso justo com a cobertura da bomba no Riocentro.

Repita-se então o pedido de que descansem em paz o JB e todas as crônicas gastronômicas do Apicius, as laudas escondendo com furiosos ‘xxxxxxx’ o ‘excessão’ humilhante, a foto com a legenda trocada, o horóscopo feito pelo redator de polícia e a matéria que estourou duas linhas, mas o linotipista, com o salário atrasado, imprimiu assim mesmo.

Descansem todos, mas levanta, Luarlindo Ernesto, dessa tumba que não te pertence e aceita esta errata como reparação por ter o cronista te matado assim sem mais nem menos, sem ter ido ao fim do corredor, pedir no arquivo a pasta ao Chico Bomba e feito uma pesquisa em meio à poeirada dos recortes de jornais velhos, esse exercício que hoje o Google substituiu por um toque de mãos limpas. Levanta, Luarlindo, faz a rádio-escuta, liga para os bravos soldados do fogo, acorda o plantonista da Décima-Segunda e continua contando tuas histórias de presuntos, de bonecos e principalmente aquela do nosocômio onde a doida, vestida de noiva, apareceu assassinada em decúbito dorsal.

Glórias do beletrismo

A crase, como diria o copidesque Ferreira Gullar, pode ter sido feita para humilhar quem escreve, mas a errata faz parte do jogo de quem precisa entregar o texto nos próximos 20 minutos. Jornalista erra muito. Publica como revolução genética na página de ciência a piada de que um laboratório processou os elementos vitais do boi e do tomate, criando uma figura animovegetal chamada boimate.

Acontece com os melhores jornalistas.

A errata não foi feita para humilhar ninguém, e é o que aqui se faz ao dizer: diferentemente do publicado na última edição, o jornalista Oderfla Almeida também não seguiu os passos do Jornal do Brasil e continua vivo, graças a Deus, embora a geração que ele tão bem representava, de jornalistas que se movimentavam entre os bares e as redações, essa, sim, já não exista mais.

Boemia, aqui não me tens de regresso.

Diferentemente dos tempos idos, bebe-se pouco, trabalha-se muito e as duas funções tornaram-se incompatíveis. Ou desce a página ou desce uma Brahma. Ou corta o texto ou corta o salame. Antes era charme, que devia ser acompanhado também de muita fumaça.

Hoje, seria apenas aviso prévio. Descansa em paz Pardelas, o bar que Oderfla frequentava na Santa Luzia com México em companhia do Esdras Passaes. Descansa em paz Luiz Carlos Sarmento, o repórter que entrava na redação do Diário de Notícias e como marca sonora balançava no bolso as fichas dos Alcoólicos Anônimos. Foi Sarmento quem paralisou o Rio com a história quase toda inventada de um gavião que, alcovitado no relógio da Mesbla, atacava os pombos dos anos 1950.

Descansem em paz a cascata, a estagiária de calcanhar sujo, o macarrão, o velho atrasador de jornal e toda uma geração de jornalistas vindos do Norte, substituídos em seguida por aqueles que tinham algum registro no Partidão, todos esperando nas redações, entre um lide e um sublide, que a Civilização Brasileira publicasse o romance guardado na gaveta. O jornalismo era a antessala da literatura, o valhacouto onde se homiziavam os que sabiam essas palavras complicadas e achavam que com elas seriam catapultados para as glórias do beletrismo pátrio. Todos mortos e enterrados numa página par, e velados ontem à noite no Lamas.

Mortos muito vivos

Descansem em paz o traçado, o quinado, a jurubeba, mais todas aquelas que mataram o guarda e dezenas de bons repórteres. Descansem em paz a régua de diagramação, a ronda dos hospitais, o seboso, a barriga, o lide do mesmo tamanho que o sublide e a foto retocada com liquid paper.

Descansa em paz o pudor de imprimir uma errata, e diga-se por fim, com todas as letras, que diferentemente do anunciado semana passada é Alberto Jacob, e não Evandro Teixeira, o autor da foto da freira caída na frente do ônibus. Errei, sim, manchei o meu nome, e não será a última vez. Estou com o Zózimo, e me aproveito de seu bordão.

Não será surpresa para esta coluna se todos os mortos anunciados aqui estiverem mais vivos do que o autor de tantos funéreos.

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