Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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IMPRENSA EM QUESTãO > ARMANI vs. HUGO BOSS

New-look da Folha para enfrentar o botox do Estadão

Por Alberto Dines em 25/05/2006 na edição 382

Jornais mudam de visual para se diferenciar dos concorrentes – mas, no Brasil, a cosmética vigente torna-os iguais. O novo look da Folha de S.Paulo, adotado no domingo (21/5), tinha como um dos seus objetivos afastá-la do Estadão. Os fados caprichosos decidiram o contrário: os concorrentes acabaram assemelhados.


É certo que o logotipo, as fontes tipográficas, o desenho e as opções gráficas dos dois jornalões são distintos, mas o que os torna indistintos são as razões que os empurraram para a sala de cirurgia: disputam o mesmo público. E este público tem uma peculiaridade – não lê jornais. E como não lê jornais não será atraído pela linguagem, teor, qualidade ou autoria dos textos, mas sim pela embalagem e a aparência do que foi impresso naquelas páginas.


Por mais diferentes que sejam as palhetas de cores e o arranjo das páginas do Estadão e da Folha, ambos têm as mesmas necessidades e apelam para os mesmos impulsos. Querem mais leitoras e mais jovens entre seus assinantes e partem do mesmo preconceito: mulheres e jovens não querem densidade da informação, querem leveza, entretenimento. E na busca desta leveza os jornalões acabam recorrendo ao mesmo arsenal de cacoetes.


Palheta de cores


Por ocasião do face-lifting do Estadão este Observador percebeu uma inclinação para o conceito Armani [ver ‘Estadão-ão-ão ficou doidão-ão-ao‘]. Para facilitar a comparação e nivelá-los no plano das metáforas fashion a opção da Folha pode ser denominada Hugo Boss. Equivalem-se, a diferença reside apenas na etiqueta. Pretendem ser light e clean, mas para serem efetivamente light e clean teriam que procurar os leitores mais sofisticados. Partiram então na direção contrária: a caricatura de modernidade.


Pretendiam inventar uma nova palheta de cores e acabaram utilizando o batido verde-mar encontrado pelo Valor há meia dúzia de anos e depois reproduzido no Estadão.


400 anos de história


Para organizar a sua rica vitrine de colunistas, a Folha contentou-se em padronizar as dimensões das colunas o que lhe valeu merecida e corajosa fustigada de Janio Freitas no primeiro dia (domingo, 21) da ‘nova fase’ [ver ‘Colunista da Folha critica a reforma gráfica do jornal‘]. Na quinta (25), foi a vez do colunista Demétrio Magnoli reclamar a perda de ‘quase um quinto’ do seu espaço. ‘De que serve opinião sem fato ou contexto histórico?’, perguntou. 


Sob o ponto de vista jornalístico nenhuma novidade, o que significa uma clara opção pelo retrocesso. A cadernização do jornal ficou ainda mais aberrante, já que o uso abundante de cores nas capas dos cadernos exigiu uma diminuição no número de suas páginas e produziu uma inédita duplicação (dois cadernos de ‘Cotidiano’, dois de ‘Mundo’ etc.). Em dezembro, quando aumentar o número de anúncios, teremos duas ‘Ilustradas’ ou dois primeiros cadernos – o primeiro caderno-1 e o primeiro caderno-2.


Quando o novo visual do Estadão já parecia surrado, o seu incansável marketing inventou a milionária campanha de anúncios onde a humanidade foi dividida em dois segmentos – os ‘Ão-ão-ão’ e os ‘Inhos.’ Vamos ver o que o marketing da Folha aprontará dentro de alguns meses quando a maquiagem testada no último domingo começar a esmaecer.


Jornais sempre apostaram na continuidade, por isso existem há 400 anos. Agora, enquanto discutem a sua sobrevivência, os jornalões brasileiros brincam de trocar de cara. Isso tem um preço.


***


Em tempo (26/5, às 18h09) — Na sexta (26) foi a vez da colunista Barbara Gancia dar o seu pitaco sobre a reforma gráfica do jornal em que escreve (‘Cotidiano’, pág. C 2): ‘O jornal como um todo está mais formoso e ganhou em agilidade com a reforma. Mas, na minha modestíssima opinião, este canto específico da página dois do caderno de Cotidiano saiu perdendo. Ficou com cara de bula de remédio.’

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/02/2007 Vinicius Vogel

    Uma política de controle da natalidade não seria uma ação ambientalista por parte do governo?
    Obrigado,
    Vinicius

  2. Comentou em 26/05/2006 Laerthe Abreu jr.

    Ao senhor coronel reformado,

    Distorcer as palvras dos outros não fica bem. Em primeiro lugar não me gabo de ler jornais. Fiz uma crítica que aliás não é só minha. Não leio para não ficar desinformado. Em segundo lugar , fazer ilações sobre se leio ou não livros é de uma arrogância descabida. Como o sr. pode falar de algo que não conhece? Em terceiro lugar, o que o senhor sabe sobre meu trabalho como professor? Nada! Não sabe que é proibido um funcionário público acumular emprego. Não sabe que só se entra na universidade por concurso público. Não sabe que trabalho de manhã, tarde e noite e também em alguns sábados num projeto de extensão. Posso até concluir pela defesa que fez dos jornais burgueses e decadentes e pelos fracos argumentos cheios de chavões que o senhor está muito mal informado. Sugiro que troque suas leituras.

  3. Comentou em 25/05/2006 José de Souza Castro

    A Ilustrada de hoje da ‘Folha de S. Paulo’ mostra um bom exemplo de que não basta mudar a estética. Na página 2, aparece uma das raras matérias sobre Belo Horizonte com o título ‘Sem verba, fecha museu de Niemeyer na Pampulha’. A trapalhada começa por aí. E não por culpa do competente texto do repórter Paulo Peixoto, que antes de ser ‘da Agência Folha em Belo Horizonte’ trabalhava na sucursal mineira do jornal criada nos anos 70, na época da reforma que transformou a Folha num grande jornal. Culpa da edição. O museu não é de Niemeyer, embora o prédio que o abriga seja projeto deste arquiteto, encomendado na década de 40 pelo prefeito JK, para ser um cassino. Anos depois de o cassino ser proibido no Brasil, o prédio passou a abrigar o Museu de Arte Moderna. O que dói na edição, porém, é a foto que escolheram para ilustrar a matéria. Não a foto do prédio do museu, mas uma foto da Casa do Baile, que fica do lado oposto na lagoa. E o editor sabia, tanto que a legenda diz: ‘A Casa do Baile, parte do conjunto arquitetônico da Pampulha’. No folclore do jornalismo mineiro há uma história da década de 50. Um crime bárbaro ocorreu no interior de Minas e, quando os repórteres do jornal da capital chegaram ao local, não encontraram mais ninguém. Em desespero, o fotógrafo fez uma foto da porteira da fazenda, no meio do pasto. Foi publicada, com a legenda: ‘Por esta porteira passou a cavalo o criminoso’. Meio século depois, a moderna Folha faz mais ou menos a mesma coisa. Com uma diferença para pior, pois era só o fotógrafo andar mais uns quilômetros que ele dava de cara com o criminoso – o museu.

  4. Comentou em 25/05/2006 Laerthe Abreu Jr.

    Ontem à noite a apresentadora do Jornal da Globo anunciava com alegria a nova parceria TV Globo com o Data-Folha nas pesquisa eleitorais. Emseguida, em tom grave, comedido e cuidadoso, disse que a última pesquisa de intenções de voto para a presidência é para ser entendida apenas como um retrato do momento e nada mais, porque os eleitores só iriam se decidir pelo voto depoi da Copa do Mundo. E apresentou com toda a neutralidade possível ( e quase bocejando de tédio) a liderança disparada do Lula e da possibilidade dele ganhar no primeiro turno como um fato anódino e sem maior importância como um aviso que damos a um parente antes de dormir (algo como: amanhã não se esqueça de colocar o lixo lá fora porque é dia do liveiro passar. Boa noite!). Tudo isso para dizer que a Folha, o Estadão, a Veja, o Globo, o JB e outros menos cotados porta-vozes do lacerdismo enrustido podem mudar de cor, de planeta, de sistema solar que os leitores e eleitores não estão nem aí. As duas pesquisas do OI que pedem a opinião dos leitores / eleitores sobre a o papel da imprensa nos recentes fatos que vivemos impressiona pelo tamanho do descrédito das pessoas quanto aos meios de comunicação: 90% dos que responderam não acreditam na capacidade da imprensa de acompanhar os fatos e nem na credibilidade da mesma em analisá-los. É calro que a pesquisa do OI não tem a mesma validade de um órgão como o Ibope, ou mesmo o Data- Folha, mas mostra que mesmo as pessoas que ainda se dão ao trabalho de ler essas porcarias impressas e televisivas (fato que abandonei há mais de dois anos, desde que começaram a perseguir preconceituosamente o presidente eleito legitimamente com o maior número de votos da história do Brasil) não levam muito em conta as bobagens que lêem ou escutam nesses programas. Só, às vezes, vejo cinco minutinhos do Jornal da Globo ( e desligo o som quando aparece o Jabor, a babar aquelas sandices injustificáveis) para ver a cara de pau com que vão distorcer notícias como aquela que iniciei meu comentário, ou seja que a pesquisa atual não vale nada é só algo de um momento fluido e passageiro ( não sei de onde tiraram esta sacada ‘genial’ de que o eleitor só escolhe o voto de verdade depois da Copa do Mundo).
    Acho que viveremos um grande momento de descontinuidade, pois a máscara dos jornais caiu. Os reis estão não só nus, como seus corpos se apresentam como um cadáver putrefato e insepulto a exigir que se recolham ao fundo das trevas de onde nunca deveriam ter saído. Vade retro burguesia fedorenta!

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