Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > MINEIROS CHILENOS

Notícia boa também vende

Por Rogério Christofoletti em 19/10/2010 na edição 612

A extensa cobertura do resgate dos mineiros no Chile tem permitido observar o jornalismo e o consumo de informações sob uma perspectiva levemente diferenciada da convencional. Entre os profissionais, uma certeza ajuda a orientar o noticiário: ‘Bad news, good news’, conforme costumam dizer os americanos. Quer dizer, acontecimentos ruins têm mais espaço nas redações porque rendem mais notícias, porque atraem interesses primitivos do público, porque alcançam uma amplitude que extrapola as expectativas. Catástrofes ambientais ou acidentes com grande número de vítimas geralmente são mais ‘atraentes’ para os jornalistas que uma descoberta científica positiva, por exemplo. Comumente é assim.

É por isso que o episódio da semana passada trouxe elementos interessantes. Os principais veículos de comunicação do mundo mandaram seus contingentes para a mina de San José, fazendo com que mais de 1,5 mil jornalistas se acotovelassem para transmitir ao vivo o resgate. Emissoras de TV estenderam-se em intermináveis plantões e os meios impressos se esforçaram para explicar os detalhes do salvamento, abusando de infográficos e ilustrações. O resultado foi praticamente uma vigília do público por horas e horas. Ao final da operação exitosa, os resultados – além do alívio generalizado – estão bastante equilibrados num bom nível jornalístico. Isto é: a cobertura de um resgate chamou tanto a atenção do cidadão comum quanto a de uma tragédia. Um exemplo cristalino de que notícia boa também rende um jornalismo sintonizado com os interesses do público, e apoiado num conjunto de valores positivos.

É preciso manter o equilíbrio

É claro que ninguém tinha certeza de que a história terminaria bem e que o suspense e a dúvida ajudaram a temperar as reportagens. Por outro lado, de maneira ampla, a mídia não escondia sua torcida pelo sucesso da operação, sentimento que era comungado com o público. Esta sintonia, esta partilha de sentimentos é um ingrediente que não pode ser desprezado numa rápida análise do episódio. Afinal, é esta conexão que ajuda a caracterizar o jornalismo como um importante elo social, uma fundamental força na constituição do imaginário contemporâneo comum. A sensação que se teve é de que todos estavam do mesmo lado: torcendo pelos mineiros, mostrando seus dramas, vivendo as mesmas angústias, ligados à mesma corrente narrativa.

Parece banal, em se tratando de jornalismo, mas não é. Como um tipo específico de comunicação, o jornalismo se caracteriza por uma série de elementos que nem sempre contribui para uma apresentação afirmativa desta atividade. Isto é, o jornalismo às vezes é incômodo, agressivo, intrusivo, indelicado. O jornalismo também causa mal-estar e revela aspectos repulsivos da vida.

A cobertura do resgate dos mineiros posicionou o jornalismo ao lado do público, estreitando seus laços e, em algumas situações, até borrando as fronteiras entre o jornalista e o cidadão comum. Como quando a repórter não contém as lágrimas ou quando o jornalista abraça o mineiro recém-resgatado – sua fonte na entrevista. Isso é ruim? Não necessariamente. Jornalistas também são pessoas e podem ser tomados por seus sentimentos em situações limítrofes. Mas é preciso manter o equilíbrio, a plena consciência do que se está fazendo por lá e do que o público espera colher com aquilo.

O perigo da ressaca da cobertura

Houve exageros na cobertura? Talvez alguns. As emissoras de TV não transformaram o episódio num espetáculo? De alguma maneira, sim, mas o fato em si é bastante inusitado, forte, espetacular. Afinal, são 33 homens enterrados vivos por 69 dias com perigos reais de não sobreviverem. Afinal, não se tem ideia de fato semelhante tão fartamente documentado. Afinal, são pessoas, seres humanos iguais a cada um de nós, que estão ali, e o interesse é amplo e universal.

Daqui pra frente, como ficamos? É necessário observar se os meios de comunicação vão manter uma distância saudável dos resgatados, respeitando sua privacidade, compreendendo sua fragilidade pós-traumática. Certamente, haverá assédio para entrevistas exclusivas, para fotos inéditas, para depoimentos originais. Certamente, cada um dos 33 homens será disputado para ser fonte de informações para uma exploração inesgotável desse drama. Ainda resta interesse e curiosidade do público, mas isso tende a diminuir rapidamente, até porque o ápice da narrativa já se deu.

Os jornalistas vão continuar a correr atrás das notícias. Os veículos manterão a ânsia por oferecer isso ao público. Resta saber se uma certa ressaca da cobertura não vai acometer a mídia, turvando sua visão e permitindo um novo afastamento seu do público.

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Professor da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS)

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