Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > ELEIÇÕES, PT & SARNEY

Noticiário difícil de entender

Por Luciano Martins Costa em 08/03/2010 na edição 579

Os jornais e revistas do final de semana dão o tom de como deverá ser a cobertura da eleição presidencial neste ano.


Abandonando seu estilo descolado – cool, como diriam seus leitores mais típicos –, a Folha de S.Paulo abre a ‘caixa de ferramentas’ na edição de domingo (7/3), declarando guerra aberta ao Partido dos Trabalhadores. Afirma, num temerário exercício de futurologia, conhecer profundamente as mais recônditas intenções do partido governista, o qual ataca com um furor que não se via em suas páginas há mais de uma década. Não é de seu estilo (ver o editorial ‘Vítima farsesca’, reproduzido abaixo).


Os outros jornais e as revistas semanais também estocam armamentos para a guerra midiática que se avizinha com a proximidade da eleição, vasculhando antigos escândalos ou garimpando novos casos.


Como há muitos meses se desenhou certo consenso em torno dos bons resultados na economia nacional, a tendência é que a campanha, vista através da mídia, venha a provocar um tsunami de lama como jamais se viu por aqui.


A Folha de S.Paulo também surpreendeu, no domingo, ao afirmar, com direito a manchete, que o governo federal obteve documentos comprovando que o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado e colunista da Folha, movimentou US$ 1 milhão no exterior sem declarar à Receita Federal.


É a primeira iniciativa de um dos jornais de influência nacional no tema que valeu a O Estado de S.Paulo a censura imposta há 220 dias por um juiz de Brasília. Mas, curiosamente, na edição de segunda-feira (8/3) a Folha esquece o assunto.


Samba doido


O Globo de segunda-feira reproduz a denúncia feita pelo jornal paulista no domingo, mas a publica numa nota curta, escondida sob o noticiário a respeito de outro escândalo, aquele que sepulta a carreira política do governador licenciado de Brasília, José Roberto Arruda.


Ainda mais curioso: o Estadão, a quem mais interessaria reforçar a acusação contra Fernando Sarney, sai com uma reportagem no alto de uma página da seção de política, informando que o Ministério da Justiça desmente a Folha.


O jornal que está censurado por iniciativa da família Sarney afirma que o tema da manchete de domingo na Folha é assunto antigo, já publicado pelo próprio Estado em 16 de julho do ano passado. Ou seja, a Folha ataca o filho de seu colunista, e o Estadão, que foi censurado pela família Sarney, relativiza a denúncia.


E o leitor? Ora, o leitor…


***


Vítima farsesca


Editorial da Folha de S.Paulo, 7/3/2010


O truque é velho, e sua repetição só indica o hábito petista de afetar ares de pureza em meio ao pragmatismo mais inescrupuloso. Em documento oficial, a Executiva Nacional do PT reeditou, quinta-feira, a tese de que há uma ‘guerra de extermínio’ contra o partido. Posteriormente, amenizou os termos. A promover tal ‘guerra’ estariam ‘amplos setores do empresariado, particularmente a mídia’.


Mídia, no jargão corrente, significa todo jornal ou empresa de comunicação que não defenda figuras notórias do partido.


Como, por exemplo, o ex-ministro José Dirceu, beneficiário de uma contribuição de R$ 620 mil pela assessoria prestada a um grupo com interesse na reativação da Telebrás. Ou como os mensaleiros denunciados por quem era então aliado do governo, o deputado Roberto Jefferson; ou ainda os ‘aloprados’ -termo que o presidente Lula foi o primeiro, aliás, a empregar- da campanha eleitoral de 2006. Como, também, aquele assessor de um deputado petista, que foi preso ao tentar embarcar num avião com cerca de U$ 100 mil dólares na cueca.


Aliás, se noticiar esse sistema de transportar dinheiro sonante fosse sinal de ‘guerra de extermínio’, seria agora o DEM, e não o PT, a principal vítima de uma suposta conspiração.


Mas nem mesmo os sequazes do governador Arruda arriscaram-se a ir tão longe no cinismo. É que a capacidade petista para a mentira tem origens diferentes, e mais antigas, do que a simples charamela lacrimosa dos espertalhões de voo curto.


Pois o PT, no clássico figurino stalinista, sempre pode dar uma interpretação ‘de classe’ às críticas que venha a merecer. Como o partido se julga o representante místico dos ‘trabalhadores’, o financiamento escuso que receba de empreiteiras, as alterações legais casuísticas que promova em favor de uma empresa de telecomunicação, não representarão escândalo jamais.


Ao contrário: aliar-se financeiramente a ‘setores do empresariado’ que vivem à sombra das benesses do governo, e aliar-se politicamente à escória do Legislativo brasileiro, torna-se um sinal de esperteza política na linha dos fins justificam os meios.


Autoabsolvido pelo venerável espírito hegeliano-marxista da História, o petismo pode fazer tudo o que condenava em seus adversários, e apresentar-se ainda assim como detentor das virtudes mais cristalinas.


Quem apontar a farsa será tachado de inimigo dos trabalhadores -e, na tese de uma imaginária ‘guerra de extermínio’, o PT mostra apenas a sua própria tentação totalitária. Nessa lógica, que não admite críticas, faz-se de perseguido aquele que se apronta para perseguir; faz-se de vítima quem pretende ser algoz; faz-se de democrata o censor, de honesto o corrupto, de inocente o bandido. O PT perdeu a moral que tantas vezes ostentava quando na oposição. Perdeu a moral, mas não perde o autoritarismo, a mendacidade e a arrogância.

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/03/2010 wendel Anastacio

    Como contribuição para algumas mentes, transcrevo:
    A retomada corporativa da democracia dos EUA Noam Chomsky
    Do The New York Times
    21 de janeiro de 2010 entrará para a história como um dia sombrio na democracia dos EUA, assim como de seu declínio.
    Nesse dia, a Suprema Corte dos EUA decidiu que o governo não pode banir corporações das despesas políticas em eleições – uma decisão que afeta profundamente a política governamental, tanto doméstica quanto internacional.
    A decisão anuncia uma retomada corporativa ainda maior do sistema político dos EUA.
    Para os editores do New York Times, a decisão ‘atinge o coração da democracia’, tendo ‘pavimentado o caminho para que as corporações usem seus gordos cofres para derrotar e intimidar autoridades eleitas para que votem de acordo com seus interesses’.
    A corte estava dividida, 5-4, os quatro juízes reacionários (erroneamente chamados de ‘conservadores’) uniram-se ao Juiz Anthony M. Kennedy. O Chefe de Justiça John G. Roberts Jr. selecionou um caso que poderia ser facilmente estabelecido sobre estreitas bases e manobrou a corte para a aprovação de uma decisão de longo alcance, subvertendo um século de precedentes que restringem as contribuições corporativas a campanhas federais.
    …/… continua

  2. Comentou em 08/03/2010 Cristiana Castro

    ( cont.) eles se incomodam mais com o sucesso dos outros do que com seu próprio fracasso. Sugiro Serra para vice de Ali Kamel ou qq outro do mesmo naipe. A campanha não vai ser suja, não. Vai ser imunda, mas isso todo mundo já esperava. A oposição não tem projeto e o PIG não tem argumentos. Lula tem 8 anos de governo para confrontar os 402 anos da elite. Tão chorando muito, como todo filhinho de papai, a culpa tem que ser de alguém, eles nunca são responsáveis por nada. De uma certa forma, acho muito bom que essa polarização tenha se radicalizado, logo. Ia acontecer mais cedo ou mais tarde, erasó uma questão de tempo.

  3. Comentou em 02/07/2007 Sérgio Souza

    Bom dia.

    Gostaria de saber se vocês possuem mais informações sobre a descontinuidade do programa líder de audiência Diário da Manhã – Cultura FM em São Paulo.

    O apresentador Salomão Schwartzman, comunicou na sexta feira passada que devido a uma descisão da diretoria da Fundação Padre Anchieta, o programa sairia do ar na Segunda feira. Sem maiores explicações, isso realmente ocorreu.

    Muito estranho pois o programa era líder de audiência do horário, e possuia várias empresas patrocinadoras.

    Sobre o pretexto de que a rádio está reformulando sua grade para voltar a ser uma rádio mais musical e menos jornalística, é uma desculpa facilmente descartada, pois o Diário da Manhã era um programa jornalístico mas com muita cultura. A Oesp sempre foi muito beneficiada pelo programa. Dicas de teatros, concertos, etc.

    Fica muito ‘no ar’ a motivação que levou a FPA a terminar esse excelente programa. Dá-se muita margem à desconfiança de que foi uma decisão política, visto que no programa, haviam comentários das séries de escândalos que assolam o país.

    Procurei na Internet mas não consegui nenhuma informação útil. Apenas comentários de ex-ouvintes reclamando da extinção do programa e tentando adivinhar o motivo.

    Portanto, gostaria de saber se vocês tem algum comentário sobre o ocorrido.

    Grato,
    Sérgio Savastano

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