Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DO ESTADÃO

O bem que faz a honradez

Por Victor Tavares em 05/10/2010 na edição 610

Faltando menos de uma semana para as eleições, um dos maiores jornais do país fez uma coisa inédita para um periódico de circulação expressiva no Brasil: declarar o seu apoio a um candidato específico. O Estado de S. Paulo disse que é José Serra.

Ora, para quem sempre entendeu os pingos nos ‘is’ e as meias palavras, o Estadão choveu no molhado. No entanto, para quem sempre defendeu um ‘radicalismo imparcial’, encampado pelo O Globo, Folha de S.Paulo e outros, o jornal paulista cometeu um ato de bravura. Disse o que todo veículo de comunicação deveria dizer, a exemplo do que há muito tempo faz CartaCapital e as grandes revistas europeias.

A luta presidencial de 2010 escancarou o que há muito tempo se duvidava: a grande mídia tinha (e tem) candidato. E esse candidato nunca foi (e nunca será) do PT, nem de nenhum outro setor da esquerda. (Isso ainda não tiveram coragem de declarar.) Diariamente circulam dezenas de notícias contra o governo, escândalos são produzidos numa escala de fast food e pessoas são derrubadas de seus cargos públicos sem direito a contraditório e ampla defesa. Isso tudo, dizem esses jornais, em nome da democracia (?).

Os defensores tardios da ditadura

Os que bradam contra essa mídia são imediatamente solapados com o estigma de ‘ditadores’, ‘alvejadores da liberdade de imprensa’ e outras pequenices que balbuciam ferozes. É conveniente lembrar que esses mesmos jornais nunca adotaram a mesma postura em relação a outros governos. E nem é preciso remontar à época de FHC, não. Basta lembrar que José Serra era governo até ontem. Basta lembrar que Yeda Crusius ainda é governo. Por que os inúmeros escândalos, tantas vezes provados e comprovados desses governos do PSDB, não são veiculados com a mesma ênfase que são os que vêm com a ‘marca PT’?

Chegou-se a um ponto inacreditável. A classe jornalística que se respeita reza diariamente para o ombudsman da Folha, que não sabe mais o que fazer diante de tanta aberração. O casal 45 do JN já não tem pasta de dente branca que supra o amarelo do sorriso diário dos dois. Incrível saber que o único candidato que brada feroz contra jornalistas, José Serra, é exatamente o único que se livra de ser um ‘antidemocrático’ pela grande imprensa. Serra já possui em seu currículo vasta experiência em agredir jornalistas, basta qualquer busca simples no YouTube: as últimas foram contra a Márcia Peltier e, mais recentemente, contra uma jornalista portuguesa, onde o candidato imita o sotaque português da moça para caçoá-la.

A todo tempo, e-mails apócrifos, revistas de ‘nome’, como Época, vinculam a imagem da candidata do PT, Dilma Rousseff, a uma terrorista! Triste como depois de 25 anos terminada a ditadura militar no Brasil que acabou com os direitos civis e atrasou a economia e a sociedade do país ainda possua gente que a defenda.

Sorrisos amarelos

Mas, nisso tudo, diz a mídia: somos imparciais, mostramos os fatos e contra fatos não há contestação. Como se os ‘fatos’, quando não são produzidos (como faz a revista Veja), não fossem escolhidos minuciosamente. Todo jornalista aprende no primeiro ano de curso que a fonte escolhida, a ordem e o tempo de exposição são os meios que eles (jornalistas) têm de dar a sua opinião.

Eis que surge uma voz no meio da gritaria. Rouca e pálida, ela levanta uma mão e com a outra apoiada no peito diz: ‘Sim, eu sou Serra!’. Silêncio. Seus colegas respiram fundo e sorriem mais amarelos. Essa voz é a do Estadão. Nesse momento, pensam os Mervais, os Buccis e todos os editoriais isentos do país: ‘Como iremos continuar declarando isenção se possuímos o mesmo argumento do Estadão? Como afirmaremos que não temos candidato se nossas manchetes são idênticas?’

Será que os outros jornais também terão a honradez e a coragem do Estadão? Com a palavra, nossos imparciais.

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Historiador pela Unirio e mestrando em Ciências Sociais pela PUC-RJ

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