Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O bloco da sujeira passou e a cobertura não viu

Por Márcio Sampaio de Castro em 06/03/2006 na edição 371

A cobertura jornalística pela TV do tríduo carnavalesco, ano após ano, é um show de mesmice que em muitos casos leva a festa para outros lugares: as locadoras de filmes. Este ano, porém, algumas particularidades do carnaval paulistano chamaram a atenção de muitos telespectadores e passaram supostamente despercebidas pelo exército de profissionais responsáveis pelo noticiário.

A primeira dessas particularidades recai sobre a agremiação vencedora, o Império da Casa Verde. Em 2005, a escola de samba se destacou, além da conquista do título, por exibir um carro alegórico com a imagem de seu patrono, o banqueiro do bicho Francisco Plumário Júnior, o Chico Ronda, assassinado dois anos antes. Nos meses que antecederam o carnaval deste ano correu entre os sambistas das concorrentes a versão de que a campeã viria novamente riquíssima, patrocinada pelo dinheiro da contravenção. Alguns aspectos desses comentários se confirmaram no desfile. Além de extremamente luxuosa, fruto da importação e do custeio por meses de profissionais amazonenses afeitos às festas de Parintins, 11 das cerca de 20 alas tiveram seus componentes utilizando fantasias doadas pelos dirigentes da escola. Uma proeza em tempos bicudos.

Padrão de cobertura

No outro extremo da gangorra figurou a Escola de Samba Gaviões da Fiel. Convidados pela Liga das Escolas de Samba a fazer parte de um grupo especial de escolas esportivas, os dirigentes da torcida corintiana se recusaram e, escudados em liminar, desfilaram e concorreram no grupo principal. Resultado? Uma impressionante enxurrada de notas 9,75 em quase todos os quesitos avaliados pelos jurados e o conseqüente rebaixamento para o grupo de acesso.

A TV Globo, dona dos direitos de transmissão do carnaval, praticamente ignorou esses elementos que jornalisticamente nos trariam histórias picantes. Em que pese a correta preocupação dos dirigentes da Liga com a possível transformação do carnaval numa extensão dos campos de futebol e suas irracionais brigas de torcidas, nenhum deles foi ouvido pela reportagem global para explicar a incrível coincidência que envolveu a apuração dos votos. A provável presença da contravenção no patrocínio da agremiação campeã jamais esteve no espectro de cogitações da cobertura jornalística da empresa, que tem interesses publicitários imensamente polpudos em jogo.

O que preocupa nessa história toda não é o choro ou a alegria de perdedores e vencedores, mas o quanto esse padrão de cobertura se reproduz em outros aspectos da vida nacional, seja por parte da TV Globo ou de seus concorrentes eletrônicos e impressos.

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